Espiando ou sendo espiado? Veja dicas sobre privacidade no casal
- Danielle Barg
Muita gente costuma dizer que, um casal que está junto há muitos anos, ou passa a maior parte do tempo junto, passa a ser "uma pessoa só". De fato, a maioria dos casais compartilha muitas coisas: amigos, familiares, intimidades, senhas e até mesmo perfis em redes sociais. Mas, como todo excesso também traz prejuízos, é importante identificar em que momento os limites são ultrapassados.
A educadora física P.S.M, que prefere não se identificar, foi a protagonista de uma história em que o excesso de informação trouxe grandes problemas. Após vasculhar o e-mail do parceiro, descobriu que estava sendo alvo de uma traição. No entanto, ela decidiu passar uma borracha no assunto e retomar a relação - que hoje é um casamento ainda marcado pela desconfiança. "No começo, não passava um dia sequer sem entrar no e-mail dele e fuçar no celular. Hoje em dia, de vez em quando, ainda me pego fazendo isso, mas cansa muito ficar escrava dessa dependência", assume.
Ela conta que nem ela, nem o marido, ficam felizes com a invasão de privacidade que, segundo ela, hoje é inevitável. "Não me sinto bem fazendo isso, mas às vezes é mais forte do que eu", explica. "Minha autoestima é baixa, estou sempre me sentindo feia fisicamente e não me acho uma pessoa atraente."
Muitas vezes, a ideia de propriedade e a falta de compreensão sobre o conceito de individualidade acabam, aos poucos, minando a relação, conforme explica Margarete Volpi , psicoterapeuta de casal e família, e fundadora do Instituto Volpi & Pasini. "De um modo geral, os casais esquecem o real motivo que os faz estarem juntos e se aprisionam com excessivas regras a fim de não se sentirem ameaçados com a ausência do par. Embora marido e mulher compartilhem grande parte do seu tempo, afeto e interesses, é indispensável que ambos mantenham sua individualidade e uma vida individual para que cada um possa ser o complemento e não uma extensão do outro", explica.
Com a convivência diária, é preciso também saber se preservar como casal, contra a intromissão - ainda que involuntária ou sem más intenções - de amigos, colegas de trabalho e familiares. Complexo? Nem tanto. Anote as dicas das especialistas e livre-se de roubadas por tentar espiar ou por ser espiado.
Dividindo senhas
De acordo com a psicóloga Nancy Erlach Danon, a invasão de privacidade nestes casos não tem a ver com as senhas, e sim, com a atitude: "quando pessoa começa a abrir correspondências em nome do outro, atender ligações, vasculhar as coisas e começar a querer saber valores de contas", ela alerta.
Para os muito ciumentos, dividir a vida virtual também não é uma boa ideia. "Se for um namorado que quer ajudar e não vai usar isto para briga, perfeito. Agora, se a pessoa for ciumenta, a outra perderá toda a liberdade", explica Nancy.
Margarete concorda que o compartilhamento de senhas só é algo aceitável se for para facilitar a dinâmica da vida do casal. "Acessar essas informações como mecanismo de controle sobre o outro apenas contribui para gerar mal estar no relacionamento. A abertura desse espaço deve ser algo proveniente do desejo de quem abre a privacidade, e não uma exigência para confirmar um afeto ou nem mesmo a prova do mesmo", diz Margarete.
Dorme aqui hoje?
Outra coisa muito comum entre casais de namorados é se despedir com aquela velha frase: "dorme aqui hoje?". A prática é algo normal, mas pode se tornar um problema de exposição da intimidade quando um dos dois ainda divide a casa com familiares ou amigos. "O limite é dormir somente se muito necessário, pois acima de tudo deve haver respeito pelos pais. Se acontecer do casal achar que devem dormir todas as noites juntos, o ideal é que arrumem uma casa para morar, buscando dessa forma sua privacidade", enfatiza Nancy.
Para Margarete, o fato acabará exigindo, mais cedo ou mais tarde, uma postura mais decisiva para ambos. "Eles devem primeiro decidir se querem compartilhar uma vida em comum, afinal, quem acorda junto todos os dias é marido e mulher. Portanto assumem responsabilidades, deveres e compromissos inerentes a esse formato."
Xixi de porta aberta
A intimidade e a privacidade assumem papéis muito parecidos durante o dia a dia de um casal e, sem perceber, usar o banheiro com a porta aberta ou passar um fio dental nos dentes passa a ser mais uma das atitudes compartilhadas.
Neste caso, as especialistas concordam que a tolerância varia muito de pessoa para pessoa. No entanto, para quem quer manter o romantismo, o excesso de intimidade não é muito recomendado. "Creio que o excesso de liberdade nestes casos tira a magia e o romantismo do relacionamento, pois existe uma diferença significativa em saber que temos um companheiro vaidoso, cuidadoso, cheiroso e ver a pessoa em seus momentos privados e mais íntimos. Saber o seu modo de ser nestes momentos apenas desmistifica a pessoa tornando-a mais comum e humana. Tornar-se intimo é mais que isso. É reconhecer o outro em suas limitações, fraquezas e dores", sintetiza.
Vida em família
Além de preservar a própria individualidade, a pessoa que vivencia um relacionamento deve saber preservá-lo das intervenções de terceiros para que a privacidade do casal também seja mantida. Um sinal de alerta, que muitas vezes aparece sutilmente, é quando os familiares começam a opinar demais.
A psicóloga Nancy indica atenção à repetição de frases como "minha mãe acha melhor", "quero que venham em casa", ou "gostariam de almoçar aqui", pois, segundo ela, um dos dois pode não estar percebendo que a privacidade do casal pode estar sendo invadida.
Margarete explica que essa situação ocorre quando um dos parceiros ou ambos ainda não assumiram o papel de autônomos de suas famílias de origem. "Um casal quando assume uma vida em comum torna-se uma nova constituição familiar. Deste modo, a família de origem passa a ser um sistema de relacionamento a parte e agregado, mas não deve compactuar da vida íntima do casal", explica.
Controle de amizades
Por mais que duas pessoas se amem, elas também têm o direito de sentir vontade de fazer programas sozinhos: um almoço com uma amiga ou um happy hour só com os colegas de trabalho, por exemplo.
Para Nancy, a invasão de privacidade só acontece quando uma das pessoas insiste em ir a um programa sem ser convidado, uma vez que muitas pessoas não veem problemas em incluir seus parceiros neste tipo de programa. Mas quando há ciúme, a história muda de figura. "O ciúme é uma coisa normal e às vezes é bom para temperar a relação, o que não se deve é ter falta de respeito. Quando sentimos que o outro sofre com isso, o que podemos fazer é envolvê-lo na amizade. Somente desta forma vamos conseguir neutralizar este sentimento", indica Nancy.
Margarete concorda que tudo que é feito a contragosto "pode se tornar um peso no relacionamento". Ela reforça que a individualidade é vital para a qualidade do relacionamento. "O modo de lidar com a situação é compreender que vivemos em grupos e escolhemos as pessoas para amar e compartilhar uma vida, mas também temos a necessidade de viver em grupo com outras pessoas, que chamamos de amigos ou familiares. O casal que se isola do mundo para se manter como um casal, como prova de amor, apenas cria armadilhas constantes dificultando o sentimento de realização mútua", conclui.