Psicologia diz que amizades desaparecem ao envelhecermos: como evitar isolamento?
Segundo pesquisa, amizades são baseadas na disposição de mantê-las ativas e envelhecimento pode ampliar sensação de solidão
A ideia de que amizades duram para sempre nem sempre é verdadeira, como podemos perceber ao longo da vida. Um artigo publicado pela revista científica Frontiers in Psychology mostra que, com o envelhecimento, muitos laços se enfraquecem ou desaparecem, nem sempre por conflitos, mas pela falta de manutenção ativa das relações.
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De acordo com o estudo, a parte mais solitária do envelhecimento não se dá por estarmos sozinhos, mas por percebermos que algumas amizades só existiam enquanto havia esforço constante de uma das partes. Em muitos casos, basta parar de iniciar conversas ou marcar encontros para que o vínculo desapareça.
O fenômeno comportamental é chamado por especialistas de “desaparecimento silencioso”, e tende a ser mais comum com o passar dos anos. Isso porque a rotina pode facilitar essas situações, como ir para a escola, trabalho e outras atividades. Na velhice, elas se tornam mais raras ou deixam de existir por completo, isolando as pessoas do convívio.
Dados da pesquisa reforçam que cerca de 24% das pessoas com 65 anos ou mais estão socialmente isoladas, enquanto 43% relatam sentimentos de solidão. A diferença, segundo os pesquisadores, está no descompasso entre os relacionamentos desejados e os que realmente existem.
Para a psicóloga Márcia Atik, o problema vai além da perda natural de vínculos ao longo da vida e passa também pela forma como a sociedade encara o envelhecimento. “O envelhecimento não pode ter paralisia, isolamento. É o momento mais propício para a gente ampliar as experiências, viver sonhos não realizados, buscar aspectos de interesse”, afirma.
Amizades exigem equilíbrio
Um dos pontos centrais do estudo é a chamada “teoria da equidade”, que indica que relações saudáveis dependem de trocas equilibradas ao longo do tempo. Quando uma pessoa assume a maior parte do esforço emocional, seja lembrando datas, propondo encontros ou mantendo contato, o vínculo pode se tornar desgastante.
Apenas cerca de metade das amizades são realmente recíprocas, ou seja, reconhecidas igualmente pelas duas pessoas. Esse desequilíbrio ajuda a explicar por que muitas relações acabam sem um “fim oficial”.
Márcia Atik destaca que esse esvaziamento pode ser ainda mais evidente na velhice, quando há perdas naturais ao longo da vida. “Se a pessoa só tem realização em cima da amizade, em cima do outro, isso vai dando um esvaziamento na vida e também tem as mortes que vão acontecendo.”
Como evitar o isolamento
Para a psicóloga, a chave para enfrentar esse cenário está na atitude ativa diante do envelhecimento. Em vez de retração, o momento pede expansão de experiências e conexões. “É urgente que as pessoas percebam que é o momento de compensar as perdas, ampliando a sua rede, pertencendo a novos grupos, abrindo novas possibilidades para viver”, diz Márcia.
A psicóloga também chama atenção para a necessidade de romper estigmas associados à velhice. “A gente vê que as pessoas traduzem o envelhecimento com isolamento, tristeza, doença, paralisia. Mas existe uma nova velhice, que quer aproveitar o tempo de maneira criativa e enriquecedora.”
Entre as estratégias, ela destaca a convivência entre diferentes gerações como um caminho importante. “Eu acredito demais na transgeracionalidade. Jovem aprende muito com idoso e idoso aprende muito com jovens”, pontua.
Qualidade importa mais que quantidade
Apesar das perdas naturais, a pesquisa mostra que o fator mais importante para o bem-estar não é o número de amizades, mas a qualidade dessas relações. Laços baseados em apoio, presença e troca equilibrada são os que mais contribuem para a saúde emocional ao longo da vida.
Para Márcia Atik, o envelhecimento pode e deve ser encarado como uma fase de reinvenção. “Manter-se curioso é manter-se vivo. Manter-se aposentado, recolhido, é ter morte em vida. É uma questão de escolha.”
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