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'Malu Mulher' segue atual ao abordar temas que ainda desafiam a sociedade

Disponível no Globoplay, a série de 1979 revolucionou a televisão brasileira ao abordar violência doméstica, maternidade, sexualidade e igualdade de gênero

4 ago 2026 - 12h13
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Lançada em 1979, Malu Mulher marcou a história da televisão brasileira ao colocar no centro da narrativa uma protagonista que desafiava padrões sociais e enfrentava dilemas que, décadas depois, continuam presentes na vida de muitas mulheres. Agora disponível na íntegra no Globoplay, a série convida uma nova geração a conhecer uma obra que ousou falar sobre autonomia feminina em um período de grandes transformações no país.

Clássico da TV brasileira, Malu Mulher segue atual ao discutir temas como feminismo, violência doméstica, maternidade e liberdade feminina
Clássico da TV brasileira, Malu Mulher segue atual ao discutir temas como feminismo, violência doméstica, maternidade e liberdade feminina
Foto: Reprodução/YouTube/Globo / Bons Fluidos

Estrelada por Regina Duarte, a produção acompanha a trajetória da socióloga Malu, que decide encerrar um casamento infeliz e reconstruir a própria vida ao lado da filha. Em uma época em que o divórcio ainda era recente na legislação brasileira e cercado de estigmas, a personagem representou um retrato inédito de uma mulher que buscava independência financeira, emocional e afetiva.

Uma personagem à frente do seu tempo

Mais do que contar a história de uma separação, Malu Mulher apresentou uma protagonista que se recusava a limitar sua identidade ao papel de esposa e mãe. Ela trabalhava, criava a filha praticamente sozinha, buscava novos relacionamentos e questionava expectativas impostas às mulheres.

Hoje, muitas dessas experiências associam-se a conceitos como empoderamento feminino, divisão igualitária das responsabilidades familiares e sororidade. Na época, porém, esses debates ainda davam seus primeiros passos no espaço público, tornando a série um verdadeiro marco cultural.

Temas que ainda fazem parte da realidade

Ao longo de apenas 43 episódios, exibidos entre 1979 e 1980, a produção abordou assuntos que ainda despertam debates na sociedade. Logo no episódio de estreia, a ruptura do casamento de Malu marca-se por uma discussão intensa que culmina em violência doméstica. Tudo enquanto a filha presencia o sofrimento da mãe. A cena ajudou a trazer para a televisão um tema pouco discutido abertamente naquele período.

Nos capítulos seguintes, a narrativa amplia o olhar para outras questões igualmente delicadas. A culpa materna vivida por mulheres que trabalham fora, a sobrecarga da maternidade, a liberdade sexual feminina, o machismo estrutural, os conflitos entre gerações, o preconceito contra mulheres divorciadas e o direito de decidir sobre o próprio corpo aparecem de forma sensível ao longo da trama.

Entre os momentos mais lembrados está uma cena simbólica que retrata o prazer feminino (considerada a primeira referência ao orgasmo exibida pela emissora). Além de um episódio que aborda o aborto clandestino em plena ditadura militar, quando o tema cercava-se por forte censura.

Coragem para desafiar a censura

Malu Mulher estreou pouco tempo após o fim do AI-5, período em que produções artísticas ainda conviviam com forte vigilância da censura. Mesmo exibida na faixa das 22 horas - considerada mais voltada ao público adulto -, a equipe precisou recorrer frequentemente a metáforas e recursos visuais. Tudo isso para sugerir situações que dificilmente poderiam ser mostradas de maneira explícita.

Gestos, objetos e pequenas cenas substituíam diálogos diretos sobre sexualidade e relacionamentos. Ainda assim, alguns episódios acabaram vetados, justamente por abordar assuntos considerados sensíveis para a época.

Uma nova imagem da mulher na televisão

Idealizada por Daniel Filho, a série teve um processo de criação que contou com forte participação feminina. Pesquisadoras, produtoras e consultoras ajudaram a construir uma protagonista inspirada nas transformações sociais vividas pelas brasileiras naquele momento.

A própria socióloga Ruth Cardoso participou das discussões iniciais. Na época, sugeriu que Malu também fosse socióloga, aproximando a personagem dos debates sobre comportamento, trabalho e direitos das mulheres.

A construção visual também fugia dos padrões tradicionais da TV. Malu aparecia com roupas confortáveis, pouca maquiagem, cabelos presos de maneira despretensiosa, grandes óculos, plantas espalhadas pela casa e uma rotina que refletia uma mulher intelectualizada, independente e conectada com seu tempo.

Por que a série ainda emociona?

Assistir a Malu Mulher hoje é perceber que muitos desafios enfrentados pela protagonista continuam presentes. Embora avanços importantes tenham sido conquistados nas últimas décadas, mulheres ainda lidam com a dupla jornada de trabalho, desigualdade na divisão dos cuidados familiares, violência de gênero e discussões sobre autonomia e liberdade.

Ao mesmo tempo, a trajetória de Malu também lembra que mudanças culturais acontecem gradualmente. Direitos conquistados exigem manutenção constante, e cada geração contribui para ampliar debates iniciados por aquelas que vieram antes.

Talvez esse seja o maior legado da série: mostrar que falar sobre igualdade, respeito e liberdade nunca deixa de ser atual. Quase cinquenta anos depois, Malu Mulher continua sendo um convite para refletir sobre o caminho percorrido e sobre tudo o que ainda há para transformar.

Bons Fluidos
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