Incongruência de gênero: a frase que me ajudou a nomear o que eu vivia desde a infância
Por Livy Poletto
Eu sou uma mulher trans — mas levei quase 35 anos para compreender, de fato, o que isso significava na minha própria vida.
Há cerca de um mês, procurei o Ambulatório Travessias, em Santo André, um serviço do Governo do Estado de São Paulo especializado no atendimento multidisciplinar de pessoas trans e travestis. Foi ali, durante uma consulta com uma psiquiatra, que algo finalmente encontrou nome dentro de mim.
Enquanto conversávamos sobre minha trajetória — sobre o que me levou a buscar a transição e a iniciar a terapia hormonal —, ela me convidou a revisitar minha história. E foi nesse mergulho que tudo começou a fazer ainda mais sentido.
Na infância, eu adorava desenhar mulheres. Preenchia cadernos com figuras femininas: vestidos longos, decotes, cabelos volumosos. Havia um encanto ali, uma identificação silenciosa. Também gostava de usar, nas brincadeiras, roupas e acessórios da minha irmã e da minha mãe. Era um universo que me chamava, mesmo sem que eu tivesse palavras para explicar por quê.
A partir dos seis anos, a televisão virou uma janela importante. Eu me via fascinada por mulheres que marcaram gerações, como Xuxa e Eliana. E, entre nós, eu adorava brincar de boneca — geralmente quando estava com as filhas de amigos da família. Adorava mesmo. Lembro, inclusive, de uma vez em que ganhei uma boneca e passei a brincar escondida em casa, com medo de que meu pai descobrisse. Curiosamente, esse medo não vinha de algo que eu tivesse vivido diretamente, mas de um receio difuso, quase instintivo.
Na pré-adolescência, meu olhar se voltou para o jornalismo. Eu já sabia que queria seguir essa profissão, mas não era apenas a carreira que me atraía — eram as mulheres que a representavam. Eu as observava com atenção, tentando aprender não só o ofício, mas também algo que, na época, eu não sabia nomear. Uma das minhas maiores referências era Ana Paula Padrão. Ela se tornou, de certa forma, um ponto de encontro entre quem eu admirava e quem, no fundo, eu sentia que era.
Havia também um ritual afetivo ali. Meu pai, motorista de ônibus por décadas, chegava em casa de madrugada, depois de longas jornadas de trabalho. Eu o esperava assistindo ao jornal, e muitas vezes assistíamos juntos. Era um momento nosso — e, ao mesmo tempo, um espaço onde eu silenciosamente me reconhecia naquela mulher que conduzia o noticiário.
Depois de ouvir tudo isso, a médica me olhou com cuidado e disse:
— Sabe como se chama isso? Incongruência de gênero.
Aquela frase não foi apenas um termo técnico. Foi um encaixe. Um alívio. Uma chave que abriu portas internas que estavam trancadas há décadas.
Porque, no fundo, eu nunca me vi como homem. Em alguns momentos da vida, tentei me aproximar desse papel — inclusive recentemente. Mas sempre houve algo desalinhado, como se eu estivesse interpretando um roteiro que não era meu. E não era.
Claro, esse entendimento não surgiu de forma isolada. Antes de chegar ali, eu já vinha em um processo profundo de escuta e reflexão, com meu terapeuta e com a psiquiatra que me acompanha há três anos. Mas conversar com uma profissional especializada em identidade de gênero trouxe uma dimensão diferente: acolhimento, validação e, principalmente, clareza.
Antes mesmo disso, tive o apoio fundamental de uma professora e amiga querida, Joice Romani, especialista em identidade e gênero. Foi ela quem me ofereceu uma primeira luz quando decidi, internamente, investigar a possibilidade de ser uma mulher trans. Com sua orientação, comecei a testar, experimentar, me permitir existir com mais verdade.
Mas reconhecer quem eu sou foi apenas uma parte do caminho. Comunicar isso ao mundo foi outra história.
Confesso: nunca me senti tão vulnerável. Porque, por mais que conheçamos as pessoas ao nosso redor, uma decisão como essa pode mudar tudo. Relações podem se romper. Vínculos podem se desfazer. Família, amigos, trabalho — nada parece garantido. Uma única decisão pode atravessar todas as áreas da vida.
Você já sentiu algo assim?
Eu senti.
E, por isso, posso dizer com alegria — e também com consciência de que isso ainda é raro — que fui acolhida. Pela minha família, pelos meus amigos e pelos meus clientes. Esse apoio não é detalhe: ele sustenta, fortalece, salva.
Digo isso porque sei que muitas pessoas trans e travestis não têm a mesma sorte. Mas também digo para que se saiba: o acolhimento é possível. Ele existe — e faz toda a diferença.
Se hoje escrevo este texto, mesmo após ter recebido o convite há mais de um mês da querida Helena Gomes, editora deste portal, é porque só agora me sinto segura o suficiente. Segura para falar, para me expor, para afirmar ao mundo quem eu sou.
Eu sou a Livy Poletto.
Eu sou uma mulher.
E, antes de encerrar, quero compartilhar algo importante: a experiência da transgeneridade é, em muitos aspectos, intraduzível. As pessoas enxergam a aparência, mas não veem os processos internos — os medos, os lutos, os desejos, as dúvidas, as reconstruções. Existe um universo inteiro dentro de nós que não cabe em explicações simples.
Somos mais do que aparência. Mais do que rótulos. Mais do que aquilo que esperam que sejamos.
Por isso, deixo aqui um pedido a quem lê este texto: apoie, acolha e incentive uma pessoa trans. Você talvez não tenha dimensão do impacto que isso pode ter — mas ele pode ser transformador.
E, por fim, minha profunda gratidão a este portal, pela coragem, respeito e sensibilidade. E às mulheres incríveis que passam a fazer parte do meu repertório de inspiração: Helena Gomes e Lilian Coelho.
Do fundo do meu coração, obrigada por este espaço.
Sobre a autora
Livy Poletto é jornalista, estudante de Psicologia e pós-graduado em Saúde Mental e Desenvolvimento Humano pela PUC-PR. Tem formação em Comunicação Não Violenta pela PUC-RS e Comunicação Assertiva pela Escola Nacional de Administração Pública. Além disso, se especializa em Direito e Saúde das pessoas LGBTQIAPN+.