Fome real ou emocional? Como o estresse influencia nossos hábitos alimentares
Terapeuta sistêmica Michelle Areas alerta para os impactos do estresse na relação com a comida
Em um mundo cada vez mais acelerado, a comida tornou-se não apenas fonte de energia, mas também refúgio emocional. Especialistas apontam que distinguir entre a fome real, aquela sinalizada pelo corpo, e a fome emocional, desencadeada por emoções, é essencial para evitar ciclos de culpa e desgaste psicológico.
O que gera essa fome emocional?
Quando enfrentamos dias tensos, é comum buscarmos alimentos reconfortantes, geralmente doces, ultraprocessados e calóricos. Embora essas escolhas possam trazer alívio momentâneo, são resultado do estresse, e não de necessidades nutricionais reais. A terapeuta sistêmica Michelle Areas explica: "O estresse altera nosso eixo emocional, e muitas vezes comemos para suprir sentimentos como a ansiedade, não por fome fisiológica. A comida vira uma válvula de escape."
Segundo Michelle, é importante reconhecer sinais como desejos repentinos por alimentos específicos, geralmente altamente palatáveis, e sensação de alívio seguida de culpa. "Esses sinais indicam que estamos usando a comida para regular emoções", complementa.
Como diferenciar?
Alguns indícios revelam quando a fome é emocional, o aparecimento repentino de desejos intensos por doces ou frituras, comer sem estar fisicamente com fome, especialmente em situações de tédio ou estresse, e a sensação temporária de conforto seguida por arrependimento. "A fome emocional se disfarça de urgência. Se você se vê correndo para a cozinha após um dia estressante, talvez esteja respondendo ao emocional, e não à necessidade real de nutrir o corpo.", reforça a especialista.
Entre as estratégias para lidar com esse tipo de fome, destaca-se o mindful eating (ou comer com atenção plena), técnica que estimula a conexão com as sensações de saciedade e o sabor das refeições. "O mindful eating ajuda a interromper o piloto automático. Quando estamos presentes, percebemos o que sentimos e abrimos espaço para perguntar: de que precisamos, comida ou acolhimento emocional?", explica.
Motivo do comportamento é essencial
Na perspectiva sistêmica, a terapeuta acredita que a alimentação está ligada a padrões familiares, crenças e gatilhos emocionais. "Precisamos investigar a raiz do comportamento, por que aquela emoção surge e por que recorremos à comida? A terapia sistêmica ajuda a mapear esses padrões e encontrar caminhos alternativos, como respiração, caminhada ou conversa, para acolher as emoções sem recorrer à comida ", explica.
Michelle ainda sugere algumas estratégias práticas para enfrentar a fome emocional. A primeira delas é reconhecer os gatilhos, identificando se a vontade de comer vem de emoções como frustração ou ansiedade. Depois, vem a prática da atenção plena, que permite comer com mais consciência e perceber os sinais reais de fome e saciedade. Buscar alternativas emocionais, como conversar com alguém, meditar ou se movimentar, também pode funcionar como um substituto mais saudável. E, por fim, construir uma rede de apoio, compartilhar sentimentos com pessoas de confiança ou buscar acompanhamento terapêutico pode fazer toda a diferença.
*Texto escrito em parceria com Henrique Souza e Michelle Areas