Colesterol alto na infância: quando é preciso investigar?
Rastreamento pode começar ainda na infância para identificar alterações silenciosas e reduzir riscos cardiovasculares no futuro
O colesterol alto atinge crianças devido ao aumento da obesidade infantil, alimentação inadequada e fatores genéticos, como a hipercolesterolemia familiar. Como as placas nas artérias começam a se formar cedo, a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda triagem entre 9 e 11 anos. O diagnóstico precoce viabiliza ajustes na rotina ou medicação, prevenindo complicações cardiovasculares graves na vida adulta e permitindo a investigação da saúde de pais e irmãos.
Pediatras e cardiologistas explicam quando rastrear e como interpretar os valores em crianças e jovens
Colesterol alto é um dos temas mais recorrentes nas consultas cardiológicas, ligado a maus hábitos alimentares, sedentarismo, tabagismo e ao desgaste natural das artérias, por isso segue associado a pessoas mais velhas. Mas a questão já não cabe apenas na vida adulta: a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que as doenças cardiovasculares causaram 19,8 milhões de mortes em 2022, cerca de um terço de todas as mortes registradas no mundo naquele ano. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda que toda criança faça ao menos um exame de colesterol entre os 9 e os 11 anos.
A orientação surpreende famílias acostumadas a considerar esse exame apenas para os pais ou avós, mas confirma algo que a cardiologia pediátrica reforça: a placa de gordura que obstrui uma artéria aos 50 anos não nasce aos 50 anos, ela começa a se formar, lentamente e sem sintoma ainda na infância. Para explicar quando se atentar a essa questão e o que fazer diante de um exame alterado, pediatras e cardiologistas da Rede Américas, segunda maior rede de hospitais privados do Brasil, detalham os pontos que toda família deveria entender sobre colesterol infantil.
1. Colesterol alto em crianças: exceção ou rotina?
Ainda é comum ouvir que colesterol alto "não é doença de criança". Mas os boletins do Ministério da Saúde já tratam a obesidade infantil como porta de entrada para esse problema. O Ministério da Saúde lista o colesterol alto entre as consequências diretas do excesso de peso em crianças e adolescentes, ao lado de diabetes e hipertensão. Com o avanço da obesidade infantil no país, esse deixou de ser um achado raro de exame e passou a aparecer com frequência nos consultórios.
Isso não significa que toda criança com colesterol alto esteja acima do peso, nem que toda criança obesa tenha o exame alterado. Fatores genéticos, rotina alimentar, e frequência de atividade física entram na mesma equação, e é justamente essa combinação de fatores, que determina o risco de cada criança.
2. A partir de que idade é necessário pedir o exame?
As diretrizes pediátricas dividem o rastreamento em dois momentos de exame universal, entre 9 e 11 anos e depois entre 17 e 21 anos. Com triagem seletiva nas demais idades para quem apresenta fatores de risco como obesidade, diabetes, tabagismo passivo ou histórico familiar de infarto precoce.
Os valores de referência também são outros: em crianças e adolescentes, o colesterol total considerado aceitável é abaixo de 170 mg/dL e o LDL abaixo de 110 mg/dL. Já para adultos o colesterol total deve ficar abaixo de 190 mg/dL. O LDL, deve ficar abaixo de 115 mg/dL para um quadro de baixo risco. No caso das crianças, um colesterol total igual ou acima de 230 mg/dL já é sinal de alerta para investigação.
"A faixa dos 9 aos 11 anos para o pedido do exame de colesterol, existe para identificar alterações silenciosas que podem ser mascaradas na rotina da criança ou adolescente, podendo evoluir para um quadro complicações futuras", explica Camila Luizetto, pediatra do Hospital Nove de Julho, da Rede Américas
3. Quando o fator não é o hábito, mas a genética
Uma parcela dos casos não tem relação direta com os hábitos alimentares e estilo de vida da criança ou adolescente. Porém fatores genéticos, como no caso de diagnósticos de hipercolesterolemia familiar.
"Hipercolesterolemia familiar é uma doença genética causada por uma mutação a qual o fígado fabrica LDL, agravando o acúmulo de gordura na parede das artérias. Por isso ela não se resolve só com dieta e atividade física, como costuma acontecer com o colesterol ligado ao estilo de vida. Na maioria dos casos, o paciente precisa de medicação desde jovem. E o diagnóstico precoce é determinante para a qualidade de vida e saúde cardiovascular do paciente", explica Eduardo Lima, cardiologista do Hospital Nove de Julho da Rede Américas.
A diretriz brasileira sobre o tema estima entre 250 mil e 300 mil brasileiros com a condição, a maioria sem diagnóstico, já o padrão é global: menos de 10% das pessoas com hipercolesterolemia familiar sabem que têm a condição, e a maioria só descobre depois que um parente jovem apresenta um quadro mais grave podendo levar a um infarto ou AVC.
4. O papel da alimentação
Um dos fatores que contribui com o aumento dos níveis de colesterol LDL está relacionado aos hábitos alimentares. O consumo excessivo de gorduras como pele de frango, carnes gordurosas como costela, manteiga, requeijão, queijos amarelos e embutidos, fast foods e frituras é comprovado que gera um impacto nos níveis de colesterol. Já as fibras caminham na direção oposta, o consumo de fibras como aveia, grãos, frutas e verduras auxiliam na metabolização e baixa absorção de gorduras consumidas, consequentemente reduzindo os níveis circulantes.
Não existe alimento milagroso que de forma isolada seja capaz de resolver o colesterol sozinho. Combinações populares nas redes sociais como berinjela com laranja, não possuem um efeito comprovado sobre os níveis de colesterol. Por isso a importância de uma alimentação equilibrada e exercício físico desde criança.
5. Quais os próximos passos ao identificar o colesterol alterado?
Diante de um resultado alterado, o primeiro passo é procurar um cardiologista e um pediatra, para que os resultados sejam interpretados com a conduta correta que cabem ao especialista. Cada tratamento deve ser recomendado de forma personalizada, quando o exame aponta para hipercolesterolemia familiar, a investigação não para na criança. As diretrizes recomendam o chamado rastreamento em cascata: testar os pais e irmãos também. Pois a descoberta em um integrante da família, costuma revelar a condição em outros membros que nunca tinham motivo para suspeitar.
"Um exame alterado na infância não é motivo de pânico, é motivo de investigação. Na maioria dos casos, o tratamento consiste no ajuste da rotina. Mas quando há uma causa genética por trás, a criança e familiares se beneficiam de um diagnóstico precoce, para que o tratamento seja direcionado da maneira correta. Assim é possível evitar futuras complicações cardiovasculares", conclui Fernando Costa, cardiologista do Hospital Santa Paula, da Rede Américas.
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