Comportamento adolescente vai além dos hormônios
Hormônios não explicam tudo. Estudo clínico revela que o ambiente também tem poder de moldar comportamento adolescente
A endocrinologista Angela Maria Spinola e Castro, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP), desafiou uma plateia em recente congresso pediátrico com uma provocação: e se o "comportamento adolescente" - rebeldia, vaidade, gírias - não fosse obra exclusiva dos hormônios da puberdade, mas sim do ambiente familiar e social?
O que explica, então, o comportamento adolescente?
Em sua apresentação "Puberdade e Comportamento", Spinola apresentou dois casos clínicos irrefutáveis de meninas de 8 anos. No primeiro, a puberdade precoce estava confirmada pelos exames, mas a meninas tinha traços infantilizados: dependência materna extrema, usava mamadeira aos 9 anos de idade e apresentava zero confronto ou vaidade. No segundo caso, os exames clínicos não indicavam qualquer sinal hormonal de puberdade na menina, mas ela demonstrava comportamento típico da adolescência: confrontos com adultos, comportamento similar ao da irmã de 14 anos, uso de gírias, posturas de "mais velha" e rejeição de coleguinhas da idade.
"Os hormônios abrem janelas neurobiológicas, mas o ambiente constrói a identidade", afirmou Dra. Angela. Seus achados desafiam o senso comum e explicam por que tratamentos para puberdade precoce podem frear desenvolvimento puberal, mas não desfazem a rebeldia já instalada por redes sociais, comportamentos espelhados em irmãos mais velhos ou expectativas familiares.
Quatro observações importantes emergem do estudo clínico apresentado
(1) é preciso que médicos e pais façam uma dissociação entre a puberdade hormonal e o comportamento;
(2) o ambiente influencia o comportamento 'de adolescente', mesmo sem hormônios envolvidos;
(3) existe uma superestimação hormonal popular, ou seja, 'tudo vira culpa dos hormônios';
(4) a orientação familiar é essencial em cada caso.
"Tratar hormônios é necessário, mas sintonizar o comportamento ao ambiente, é indispensável", conclui Dra. Spinola.
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