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Como o inverno muda a fauna brasileira?

Aves migram por milhares de quilômetros, mamíferos mudam seus horários e até onças adaptam a caça; entenda como a fauna enfrenta o frio

11 ago 2026 - 16h10
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Quando pensamos em animais se preparando para o inverno, é comum imaginar ursos hibernando ou espécies atravessando paisagens cobertas de neve. No Brasil, onde a estação costuma ser bem menos rigorosa, as mudanças podem parecer mais discretas. Ainda assim, a chegada do frio provoca verdadeiras transformações na rotina da fauna.

O inverno muda a rotina da fauna brasileira: aves migram, mamíferos alteram hábitos e espécies buscam novas formas de encontrar alimento
O inverno muda a rotina da fauna brasileira: aves migram, mamíferos alteram hábitos e espécies buscam novas formas de encontrar alimento
Foto: Reprodução: Benni Fish/Pexels / Bons Fluidos

Há aves que percorrem milhares de quilômetros em busca de temperaturas mais agradáveis, mamíferos que mudam os horários em que procuram comida e até espécies que deixam regiões montanhosas para passar uma temporada em áreas mais baixas.

Um exemplo é o bem-te-vi-rajado (Myiodynastes maculatus). Com aproximadamente 20 centímetros, a ave deixa regiões do Sul e do Sudeste durante os meses mais frios e segue em direção à Amazônia, onde encontra temperaturas mais elevadas. E ele não é o único a reorganizar a vida quando os termômetros caem.

Nem todo animal brasileiro permanece no mesmo lugar no inverno

Temperatura é apenas uma das mudanças trazidas pela estação. Dependendo da região do Brasil, o inverno também pode modificar significativamente o regime de chuvas e, consequentemente, a quantidade de alimento disponível.

Entre as aves brasileiras, a migração acontece com uma parcela relativamente pequena das espécies. Cerca de 10% realizam esse tipo de deslocamento, segundo o ornitólogo Marco Aurélio Pizo, professor da Unesp de Rio Claro, em entrevista à Folha de S. Paulo.

Enquanto algumas chegam ao Sudeste vindas de regiões mais ao sul do continente, outras fazem justamente o movimento contrário e seguem para o Norte durante o período mais frio. "Várias espécies saem do Sudeste em direção ao Norte e só retornam no final de agosto", conta Pizo. "Entre elas, podemos citar também o suiriri, o gavião-sovi e a tesourinha. No caso da tesourinha, ela vai para o norte da América do Sul, passando o inverno em Roraima e na Venezuela, e retorna a partir de agosto, ocupando o Sudeste e o Sul [do Brasil] até chegar ao Uruguai e à Argentina."

Até o canto dos pássaros pode diminuir

As aves que permanecem na mesma região também podem apresentar mudanças perceptíveis. Durante os períodos mais frios, algumas passam a cantar com menor frequência. A alteração está relacionada, entre outros fatores, ao ciclo reprodutivo, já que para muitas espécies brasileiras o inverno não corresponde à principal época de reprodução.

Assim, uma paisagem que parece simplesmente mais silenciosa para os seres humanos pode refletir uma mudança importante no comportamento desses animais.

Mamíferos escolhem as horas mais quentes do dia

Se algumas aves resolvem viajar, outros animais encontram maneiras diferentes de enfrentar as temperaturas mais baixas. Mamíferos podem reorganizar seus horários para concentrar determinadas atividades nos períodos em que o ambiente está mais agradável.

Na Mata Atlântica, animais diurnos como a cutia (Dasyprocta azarae), a irara (Eira barbara) e o gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi) podem aproveitar principalmente as tardes para procurar alimento.

Espécies noturnas também fazem ajustes. A jaguatirica (Leopardus pardalis), por exemplo, pode concentrar suas atividades de caça no começo da noite. São pequenas adaptações que ajudam os animais a lidar não apenas com o frio, mas também com as mudanças na disponibilidade de recursos.

Onças também mudam completamente a rotina

Em algumas partes do Brasil, compreender o comportamento dos animais exige olhar mais para a chuva do que para a temperatura. Na Amazônia e no Pantanal, períodos de cheia e seca transformam a paisagem, mudam a localização das presas e obrigam predadores a se adaptar. Na Amazônia, em época de cheia, a onça-pintada fica nas copas das árvores, alimentando-se de animais arborícolas e peixes.

No Pantanal, a estratégia é diferente. Durante a seca, os poucos pontos que ainda possuem água acabam reunindo diferentes espécies - e as onças sabem aproveitar essa concentração. Nesse período, elas também podem ampliar a área percorrida durante a caça.

Nem toda migração envolve milhares de quilômetros

Quando ouvimos a palavra migração, pensamos imediatamente em longas viagens. Na natureza, porém, mudar de altitude também pode ser uma estratégia sazonal. É a chamada migração altitudinal. Em vez de percorrer grandes distâncias pelo continente, o animal se desloca entre áreas mais altas e mais baixas conforme as condições ambientais mudam. A anta é uma das espécies que apresentam esse comportamento.

Algumas espécies de beija-flor também realizam deslocamentos semelhantes. Por trás dessas viagens está, muitas vezes, uma necessidade básica: encontrar comida. Quando frio ou seca reduzem a disponibilidade de determinados recursos, mudar de lugar pode ser uma estratégia de sobrevivência.

Ainda sabemos pouco sobre essas viagens

Apesar de todas essas descobertas, muitas rotas realizadas pelos animais brasileiros continuam sendo um mistério. Acompanhar uma espécie durante meses e descobrir exatamente de onde ela parte, por onde passa e onde termina sua jornada exige monitoramento e investimento científico.

Entender esses caminhos não serve apenas para satisfazer a curiosidade. As informações são fundamentais para a conservação. Se uma espécie depende de diferentes regiões ao longo do ano, protegê-la significa preservar não somente um local isolado, mas também as áreas utilizadas durante seus deslocamentos. É nesse contexto que corredores ecológicos, que conectam fragmentos de vegetação nativa, ganham importância.

Mudanças climáticas podem alterar esse calendário natural

Há ainda um novo desafio: as mudanças climáticas. Durante milhares de anos, os animais desenvolveram estratégias ligadas aos ciclos ambientais. Alterações nas temperaturas e nos padrões de chuva podem interferir justamente nesses sinais utilizados pela fauna para decidir quando migrar, reproduzir ou procurar determinadas fontes de alimento.

Pesquisas realizadas em outros países já identificaram mudanças no calendário migratório de algumas aves. "Estudos feitos em outros países já mostram que as aves têm saído para migração e chegado aos seus locais de destino cada vez mais cedo ao longo dos anos", afirma Pizo.

Por isso, preservar áreas naturais também pode aumentar as possibilidades de adaptação das espécies diante de um clima em transformação. Assim, enquanto para nós a chegada do inverno pode significar apenas tirar os casacos do armário, na natureza ela desencadeia uma série de movimentos quase invisíveis: animais mudam de horário, procuram novos alimentos, descem montanhas e alguns chegam a atravessar boa parte do continente. É a fauna ajustando sua própria rotina ao ritmo das estações.

Bons Fluidos
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