Cientistas estavam buscando alienígenas da forma errada
Décadas de escuta, milhões de frequências rastreadas... E nada. Um novo estudo sugere que o fracasso do projeto SETI tem relação com sinais que passam despercebidos.Há décadas o Instituto SETI tenta encontrar vida inteligente fora da Terra. Faz isso apontando suas antenas para o cosmos e usando algoritmos que rastreiam milhões de frequências, numa busca incansável por sinais de rádio de banda ultraestreita: picos de frequência tão precisos que dificilmente podem ser explicados por processos naturais conhecidos.
A lógica por trás dessa estratégia é simples: se uma civilização tecnológica quisesse anunciar sua presença no cosmos, uma emissão tão precisa seria uma candidata óbvia. Mas o silêncio persiste.
Clima espacial: obstáculo para detectar possíveis sinais extraterrestres
O problema, segundo um novo estudo da entidade americana publicado no The Astrophysical Journal, é que esse sinal - se existir - pode chegar até nós deformado antes mesmo de deixar seu sistema de origem.
Por isso, talvez o problema não seja a ausência de uma transmissão, e sim a distorção ou enfraquecimento do sinal pela própria estrela anfitriã antes que ele chegue ao espaço interestelar. O responsável, como explicam os pesquisadores em um comunicado, seria o chamado "clima espacial" que envolve o planeta emissor.
Assim como o Sol produz vento solar e ejeções de massa coronal - erupções violentas de plasma carregado -, outras estrelas também geram fenômenos semelhantes. Nesse ambiente turbulento, o plasma em torno da estrela pode alterar o comportamento das ondas de rádio: um sinal que sai do planeta emissor concentrado em uma frequência muito precisa pode acabar distribuindo sua energia ao longo de várias frequências antes de deixar o sistema estelar, segundo o SETI (sigla em inglês para Busca por Inteligência Extraterrestre).
Em outras palavras, uma transmissão que sai do planeta emissor como um pico de frequência muito limpo pode se transformar em um sinal mais amplo e mais fraco, o suficiente para passar despercebido pelos sistemas de detecção do SETI.
"Se um sinal se alarga por causa do ambiente de sua própria estrela, ele pode ficar abaixo dos nossos limites de detecção, mesmo que esteja lá", explica o Dr. Vishal Gajjar, astrônomo do Instituto SETI e autor principal do estudo.
Sondas espaciais mostram como as ondas de rádio se distorcem
Para quantificar esse efeito, a equipe do SETI analisou algo que enviamos ao espaço há décadas: os sinais de rádio de nossas próprias sondas interplanetárias. Segundo o estudo, sinais enviados por missões como Mariner 4, Pioneer 6, Helios 1 e 2 e as Viking - lançadas entre 1964 e 1976 - já tinham passado por esse mesmo efeito de alargamento espectral ao atravessar o entorno turbulento do Sol.
Os dados da Pioneer 6, em especial, mostraram que o fenômeno se intensifica durante tempestades solares. Dados das sondas Helios, que chegaram mais perto do Sol do que a maioria das sondas de sua época e transmitiram durante um período de mínimo solar, apontam ainda que a distorção aumenta quanto mais próximo o sinal está da estrela.
Com essas observações diretas, os pesquisadores construíram um modelo capaz de estimar como esse fenômeno seria em sistemas estelares e bandas de rádio diferentes.
Os resultados das simulações sugerem que esse efeito pode ocorrer em uma proporção considerável de sistemas estelares. Nas condições analisadas, cerca de 70% dos sistemas fariam um sinal muito estreito se alargar levemente, e cerca de 30% provocariam uma distorção ainda maior. Quando os sinais são transmitidos em frequências mais baixas, o fenômeno seria ainda mais intenso: mais de 60% dos sistemas produziriam um alargamento muito maior do sinal.
Anãs vermelhas: um desafio para detectar sinais tecnológicos
O efeito seria especialmente relevante em estrelas do tipo M, as anãs vermelhas, que representam cerca de 75% de todas as estrelas da Via Láctea. Menores, mais frias e muito mais ativas que o Sol, esses astros criam ambientes onde esse efeito poderia ser mais forte.
E embora a probabilidade de que uma ejeção de massa coronal coincida exatamente com uma observação de sinais de inteligência alienígena seja baixa - menos de 3% -, o efeito pode aumentar drasticamente quando isso acontece. O alargamento do sinal pode se multiplicar por mais de mil em comparação com as condições normais, segundo o artigo.
Novas estratégias de busca para captar sinais alienígenas
As implicações para as estratégias de busca são importantes: os algoritmos atuais podem ignorar alguns sinais potencialmente artificiais por considerá-los amplos demais. Por isso, o estudo propõe ampliar os critérios de detecção e dar prioridade a frequências de rádio mais altas, onde o efeito de alargamento é menos pronunciado.
"Ao quantificar como a atividade estelar pode remodelar sinais de banda estreita, conseguimos projetar buscas que se adaptem melhor ao que realmente chega à Terra, e não só ao que pode ser transmitido", afirma Grayce C. Brown, coautora do estudo e pesquisadora do SETI.
Não se trata de uma solução definitiva para o paradoxo de Fermi - o inquietante silêncio do universo diante da pergunta se estamos sozinhos -, mas é um possível mecanismo que pode contribuir para esse silêncio. Talvez alguns sinais tecnológicos estejam por aí, viajando pela galáxia, mas quando chegam aos nossos radiotelescópios já não se parecem o suficiente com aquilo que estamos buscando.