Chip que ajuda a restaurar parcialmente a cegueira é lançado; saiba mais
Implante aprovado na União Europeia permite recuperar parte da visão central e já mostrou melhora na leitura e na identificação de detalhes em pacientes
Recuperar parte da visão após uma doença considerada irreversível parecia, até pouco tempo atrás, um objetivo distante. Agora, um novo chip desenvolvido para pessoas com degeneração macular relacionada à idade representa um dos avanços mais promissores da oftalmologia moderna.
Chamado PRIMA, o sistema acaba de receber aprovação para uso na União Europeia e será comercializado em países do bloco. A tecnologia combina um minúsculo implante de retina com óculos equipados com câmera para devolver parte da visão central a pessoas que perderam essa capacidade em decorrência da doença.
Os resultados obtidos nos estudos clínicos chamaram a atenção da comunidade científica por demonstrarem melhora significativa na capacidade de leitura e no reconhecimento de detalhes do cotidiano.
Como funciona o implante?
O coração da tecnologia é um chip de silício de apenas 2 milímetros, implantado na retina por meio de um procedimento cirúrgico. Mais fino do que um fio de cabelo, ele foi desenvolvido para substituir parcialmente a função das células danificadas pela degeneração macular.
O implante funciona em conjunto com um par de óculos especiais equipado com uma câmera. As imagens captadas convertem-se em luz infravermelha, projetada diretamente sobre o chip.
A partir daí, o dispositivo transforma essa luz em impulsos elétricos capazes de estimular as células remanescentes da retina. Essas informações seguem até o cérebro, que interpreta os sinais como imagens.
Um diferencial do sistema é que o chip não precisa de bateria nem de fios: ele se alimenta da própria luz projetada pelos óculos. Além disso, o usuário pode ajustar recursos como zoom e contraste para facilitar atividades como leitura e identificação de objetos.
Avanço para quem perdeu a visão central
A tecnologia foi desenvolvida para pessoas com degeneração macular relacionada à idade (DMRI), uma das principais causas de perda de visão em idosos. A doença compromete a mácula, região central da retina responsável pela visão de detalhes, leitura e reconhecimento de rostos. Com a progressão do quadro, tarefas simples passam a se tornar extremamente difíceis.
Embora o implante não devolva uma visão totalmente normal nem produza imagens em alta resolução, ele pode restaurar parte da visão central funcional, proporcionando mais autonomia no dia a dia.
Os resultados dos estudos
A aprovação do PRIMA na Europa baseou-se em um estudo publicado no The New England Journal of Medicine, considerado um dos periódicos médicos mais importantes do mundo.
A pesquisa acompanhou 38 pacientes com atrofia geográfica - estágio avançado da degeneração macular - em 17 hospitais distribuídos por cinco países europeus. Desses participantes, 32 completaram um ano de acompanhamento. Os resultados mostraram que:
- 26 pacientes apresentaram melhora clinicamente significativa da acuidade visual;
- 27 relataram utilizar o dispositivo em casa para ler letras, números e palavras;
- Em média, os participantes passaram a identificar 25 letras a mais nas tabelas oftalmológicas, o equivalente a cerca de cinco linhas de ganho;
- Mais de 80% conseguiram recuperar a capacidade de ler letras e palavras;
- A visão periférica permaneceu preservada em todos os voluntários.
Durante o estudo, alguns pacientes relataram conseguir voltar a ler páginas de livros, algo que havia deixado de ser possível após a perda da visão central.
O que vem pela frente?
Atualmente, o sistema produz imagens em preto e branco. Os pesquisadores já trabalham em versões mais avançadas, com resolução maior, pixels menores e capacidade de gerar imagens em tons de cinza.
Um dos principais objetivos da próxima geração da tecnologia é permitir que os pacientes consigam reconhecer rostos e expressões faciais com mais facilidade.
Por enquanto, o PRIMA está aprovado apenas na União Europeia e também passa por avaliação das autoridades regulatórias dos Estados Unidos. Ainda não há previsão para análise do dispositivo pelos órgãos responsáveis no Brasil.
Mesmo sem restaurar completamente a visão, o implante representa uma mudança importante para pessoas que convivem com a cegueira central, oferecendo mais independência e qualidade de vida por meio de uma tecnologia que, há poucos anos, parecia pertencer apenas à ficção científica.
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