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Casos de câncer de pele crescem mais de 1.500% em dez anos

Os diagnósticos escancaram desigualdade no acesso ao tratamento

4 fev 2026 - 12h44
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Enquanto número de casos dispara e diagnóstico tarda no sistema público, iniciativa em Minas Gerais oferece cirurgias gratuitas e ajuda a reduzir impacto da espera por tratamento

O número de diagnósticos de câncer de pele no Brasil cresceu de forma expressiva na última década e acendeu um alerta entre especialistas. Dados compilados pela Sociedade Brasileira de Dermatologia indicam que os registros passaram de pouco mais de 4 mil casos em 2014 para mais de 72 mil em 2024, um aumento superior a 1.500%. O avanço revela não apenas maior incidência da doença, mas também desigualdades históricas no acesso ao diagnóstico e ao tratamento no país.

Foto: Revista Malu

O levantamento aponta maior concentração de casos nas regiões Sul e Sudeste, associada à predominância de população de pele clara e à exposição solar crônica. No entanto, estados do Norte e Nordeste também registraram crescimento consistente, como Rondônia e Ceará, indicando que o câncer de pele deixou de ser um problema restrito a determinadas regiões.

Números mostram melhora no diagnóstico, mas também as falhas

Para o dermatologista Matheus Rocha, que atua no diagnóstico e tratamento cirúrgico da doença, parte desse crescimento está relacionada à melhoria dos sistemas de notificação, especialmente após a padronização nacional dos registros de biópsias. Ainda assim, ele ressalta que os números também refletem falhas no acesso ao cuidado especializado.

"Existe um aumento real da doença, impulsionado por exposição solar sem proteção adequada, envelhecimento da população e ausência de acompanhamento dermatológico regular. O principal problema é que o diagnóstico não acontece no mesmo tempo para todos", afirma.

As desigualdades no diagnóstico no câncer de pele

A desigualdade de acesso à saúde surge como um dos principais entraves ao diagnóstico precoce. Dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia indicam que pacientes atendidos exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde enfrentam dificuldade significativamente maior para consultar um dermatologista quando comparados aos usuários da rede privada. Esse atraso impacta diretamente o início do tratamento e aumenta a complexidade das cirurgias.

Estudos citados pela entidade mostram que, enquanto em parte do Sul e Sudeste o tratamento do câncer de pele costuma começar em até 30 dias após a suspeita clínica, em regiões do Norte e Nordeste o tempo de espera frequentemente ultrapassa 60 dias. "Quanto mais o diagnóstico demora, maior o risco de o tumor avançar e exigir intervenções mais extensas", explica Matheus Rocha.

A distribuição desigual da rede de alta complexidade em oncologia também agrava o cenário. Informações do Instituto Nacional de Câncer mostram que estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul concentram a maior parte dos centros especializados. Enquanto unidades da federação como Acre, Amazonas e Amapá contam com estrutura limitada e ausência de Centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia.

Iniciativa privada no tratamento de câncer de pele

É nesse contexto que iniciativas independentes têm contribuído para reduzir os impactos da espera por tratamento. Em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, uma ação conduzida por Matheus Rocha oferece atendimento e cirurgias gratuitas para pessoas diagnosticadas com câncer de pele. O atendimento visa atender aqueles que não possuem condições financeiras de arcar com o tratamento e aguardam vaga na rede pública. A iniciativa tem absorvido parte da demanda reprimida e evitado a progressão da doença em pacientes vulneráveis.

Segundo o dermatologista, muitos dos pacientes atendidos chegam com lesões em estágio inicial, mas já com histórico de meses de espera. "Grande parte percebe algo diferente na pele, mas enfrenta dificuldade para conseguir avaliação especializada. Quando o diagnóstico e a cirurgia acontecem cedo, o tratamento tende a ser mais simples e com melhores resultados", afirma.

Os atendimentos priorizam casos em que a cirurgia é indicada de forma imediata, evitando agravamentos e a necessidade de procedimentos mais complexos. Entre os pacientes atendidos estão idosos, trabalhadores rurais, pessoas com longa exposição solar e indivíduos que confundiram sinais iniciais da doença com feridas comuns ou manchas benignas.

Capaciação profissional para combater a desigualdade

Além da atuação clínica, a iniciativa também se apoia na formação de médicos. Parte do trabalho envolve capacitar profissionais para reconhecer lesões suspeitas, planejar a abordagem cirúrgica e conduzir o tratamento adequado. Para Matheus Rocha, ampliar o número de médicos preparados para lidar com o câncer de pele é uma estratégia indireta para reduzir filas e desigualdades. "Quando mais profissionais sabem identificar e tratar corretamente essas lesões, menos pacientes chegam em estágios avançados. Isso tem impacto direto no sistema de saúde", explica.

O projeto é sustentado com recursos próprios, provenientes de programas de formação médica. Não há cobrança de honorários médicos pelos procedimentos cirúrgicos e, nos casos de vulnerabilidade social, todos os custos são integralmente absorvidos pela iniciativa. O modelo permite a realização contínua das cirurgias e o acompanhamento dos pacientes tratados.

Fazemos nossa parte, mas o governo também precisa

Especialistas em saúde pública avaliam que ações desse tipo não substituem o papel do Estado, mas ajudam a aliviar gargalos, especialmente em regiões com menor acesso a especialistas. No caso do câncer de pele, a rapidez no diagnóstico e no tratamento é considerada determinante para o prognóstico e para a redução de complicações evitáveis.

Diante do crescimento acelerado dos casos, entidades médicas defendem medidas estruturais, como a ampliação da oferta de consultas dermatológicas no SUS, campanhas permanentes de prevenção e a efetiva implementação da Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer. Para Matheus Rocha, transformar o aumento das notificações em oportunidade de controle depende de acesso equitativo à saúde. "Diagnóstico precoce não é apenas uma recomendação médica. É uma questão de justiça social", conclui.

Revista Malu Revista Malu
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