Boatos sobre "epidemia de micropênis" expõem meninos a riscos
Para especialistas, não há qualquer evidência científica de aumento de casos da condição, que, embora exista, é considerada rara. Desinformação nas redes tem promovido indiscriminadamente tratamentos hormonais arriscados"Mães e pais de meninos, vocês já mediram o tamanho do pênis do seu filho? Eu também não sabia da importância disso, mas estamos tendo uma geração de meninos com micropênis." São com essas frases que uma influenciadora digital que fala sobre maternidade começa um vídeo na rede TikTok.
Na sequência ela, explica como supostamente fazer a medição do órgão genital e divulga uma tabela com os tamanhos de pênis considerados normais para cada fase da vida dos meninos.
Vídeos como esse vêm ganhando atenção nos últimos meses e se multiplicam nas redes sociais. As publicações, muitas vezes com tom alarmista, sugerem que o Brasil está vivendo uma "epidemia de micropênis" e sugerem intervenções precoces, como o uso de testosterona, como solução para o problema.
Tal desinformação em massa levou quatro importantes entidades médicas a se manifestarem sobre o tema: a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Pediátrica.
Em nota conjunta divulgada em 25 de março, elas classificam o movimento como preocupante e alertam para os riscos de tratamentos hormonais sem necessidade e com base em informações incorretas.
Segundo os especialistas, não há qualquer evidência científica de aumento nos casos da condição, que, embora exista, é considerada rara. A prevalência estimada dessa malformação é de cerca de 0,06% dos meninos, o que está muito distante de qualquer cenário que possa ser descrito como "epidemia".
"Essa condição acomete um em cada 20 a 30 mil recém-nascidos vivos, o que a torna rara. Não existe nenhuma epidemia e nem nenhum aumento do número de casos de micropênis no país", diz Crésio de Aragão Dantas Alves, presidente do Departamento de Endocrinologia da SBP.
O que é micropênis
O micropênis é uma condição médica definida por critérios técnicos rigorosos, que levam em conta a idade da criança e medições padronizadas feitas por profissionais de saúde. O critério de diagnóstico é definido como um pênis com comprimento inferior a 2,5 desvios-padrão da média para a idade e etnia da população.
Não se trata de uma avaliação subjetiva ou apenas visual, o desenvolvimento genital infantil apresenta variações naturais, e muitos casos que geram preocupação nos pais estão, na realidade, dentro da normalidade.
Fatores como o acúmulo de gordura na região pubiana ou diferenças individuais de crescimento e desenvolvimento podem influenciar a percepção de tamanho sem indicar qualquer problema de saúde.
Um dos principais pontos de alerta das entidades médicas é a prática, incentivada por esses vídeos virais, de pais medirem o pênis de seus filhos em casa usando uma fita métrica ou régua. Os especialistas ouvidos pela reportagem da DW Brasil, são unânimes em dizer que essa abordagem é inadequada porque a medição correta exige técnica específica e interpretação baseada em tabelas clínicas. Quando feita de forma incorreta, pode levar a conclusões equivocadas.
Além disso, há uma preocupação ética e psicológica: expor a criança a esse tipo de avaliação sem necessidade clínica pode causar constrangimento.
"É importante saber que o pênis se forma na base do osso do púbis e não adianta medir apenas o que você olha e acha que tem lá. Há pênis que estão embutidos embaixo da gordura e tem uma banda ventral. Se a criança já foi submetida a uma cirurgia de fimose, o pênis pode ter ficado preso dentro de uma cicatriz, são os pênis embutidos. A maioria das pessoas desconhecem essas variações anatômicas que são normais e o que você olha e vê não é o tamanho real. Então, uma falsa medida pode levar a uma ansiedade", detalha Veridiana Andrioli, coordenadora do Departamento de Urologia Pediátrica da SBU.
Outro elemento central da desinformação que circula nas redes sociais é a ideia de que existe uma "janela de oportunidade" limitada entre os 6 e 11 anos para o tratamento hormonal com testosterona, e que, caso ela não seja aproveitada, o menino terá consequências irreversíveis na vida adulta. As sociedades médicas contestam essa narrativa e explicam que embora o tratamento hormonal seja indicado em algumas situações, isso deve ser feito apenas após diagnóstico médico.
O crescimento do pênis não é contínuo e ocorre em fases específicas da vida. Esse desenvolvimento acontece no período intrauterino, entre o terceiro e sexto mês de vida, fase conhecida como "minipuberdade" em que há estímulo hormonal natural do corpo e, depois, a partir dos 12 ou 13 anos, quando o menino entra na puberdade.
Uso de hormônios precisa de acompanhamento
O hormônio testosterona só é indicado para tratar micropênis em crianças quando há confirmação do diagnóstico ou comprovação de deficiência hormonal, após avaliação médica de cada caso. As entidades esclarecem que a reposição hormonal é segura, mas só quando existe a comprovação de uma deficiência.
O uso indiscriminado de testosterona, sem avaliação adequada, pode trazer riscos à saúde dos meninos. Entre eles estão alterações hormonais permanentes, impactos no crescimento, risco de infertilidade na vida adulta e até mesmo efeitos comportamentais. Por isso, os especialistas afirmam que não há qualquer justificativa para iniciar tratamento por conta própria ou com base em informações de redes sociais.
"O uso de testosterona numa criança que não necessita, pode fazer com que haja uma fusão, um fechamento precoce da cartilagem de crescimento, fazendo com que esse indivíduo termine com a altura menor do que a esperada. Esse menino também pode ter aumento de agressividade, fazendo com que ele fique mais irritado, podendo se envolver em brigas e em confusões. Ele pode também ter aumento do peito, que nós chamamos de ginecomastia, pode ter edema de tornozelos, alterações do colesterol, das triglicérides, ou seja, o tratamento do micropênis, quando feito de forma não correta, ele pode levar a várias complicações", acrescenta Alves.
Como o diagnóstico é feito
O diagnóstico de micropênis é feito por meio de uma análise clínica criteriosa que inclui uma bateria de testes e o envolvimento de médicos de diferentes especialidades. Por exemplo, essa avaliação deve englobar exame físico adequado, análise do histórico de saúde da criança, avaliação do desenvolvimento puberal e, quando indicado, exames laboratoriais e genéticos.
"Podemos ter condições genéticas que levam a um distúrbio na formação do órgão genital do menino e pode fazer com que realmente o pênis seja bem menor do que deveria. Geralmente, quando isso acontece, nós temos outras alterações hormonais e os testículos também são comprometidos. Existe uma série de outras alterações que acompanham o micropênis.
As causas genéticas também podem estar por trás, assim como as deficiências de alguns hormônios durante a gestação. Então as causas são várias e sempre é preciso investigá-las", acrescenta o endocrinologista pediátrico Luiz Cláudio Gonçalves de Castro, coordenador do Departamento de Endocrinologia Pediátrica da SBEM.
Desinformação deu origem a estudo
A disseminação de desinformação sobre uma "epidemia de micropênis" chegou aos consultórios médicos, segundo Andrioli. Ela afirma que nos últimos meses cresceu o número de pais que pediram para que o órgão genital dos filhos fosse medido durante a consulta sob a suspeita de que ele estaria menor do que o "ideal" para a idade. Situação que fez com que ela fizesse um estudo sobre o tema.
A pesquisa avaliou como os pais de 99 meninos percebem o tamanho do órgão sexual do filho durante atendimentos do mutirão Novembrinho Azul, em Florianópolis (SC). Embora 48% dos participantes considerassem o tamanho dentro da normalidade, cerca de 24% acreditavam que estava abaixo da média.
Os especialistas identificaram que, em geral, as medições feitas pelos cuidadores não eram corretas e o comprimento peniano ficava entre 2,5 a 3 centímetros menor do que o tamanho real.
Outro dado do levantamento é que quanto maior o peso, a idade e a circunferência abdominal da criança, maior a tendência de os pais avaliarem o pênis como menor do que realmente é.
"É preferível não medir, principalmente nessas questões de variações anatômicas para não criar uma ansiedade ou um falso diagnóstico. Então, se há uma suspeita, leva a um profissional", diz Andrioli.
Entre todas as crianças examinadas, nenhuma apresentava micropênis. O levantamento da Sociedade Brasileira de Urologia foi realizado no final de 2025 e apresentado durante o 40º Congresso Brasileiro de Urologia.
Percepções sobre o tamanho do pênis
Um estudo publicado na revista PLOS Biology trouxe novas evidências sobre como o tamanho do pênis influencia percepções sociais e sexuais. De acordo com a pesquisa, homens tendem a interpretar essa característica como um sinal de dominância física e sexual, utilizando-a como referência ao avaliar possíveis rivais. Já entre as mulheres, o fator também impacta a atratividade, mas tem peso menor quando comparado a outros atributos físicos.
A investigação foi conduzida com o uso de modelos masculinos em 3D, que variavam em altura, formato corporal e tamanho do órgão genital. Os resultados indicaram que mulheres consideram mais atraentes homens mais altos, com corpo em formato de "V" e com pênis maior. No entanto, esse efeito apresenta um limite, já que aumentos além de determinado ponto não geram ganhos significativos na percepção de atratividade.
Entre os homens, a resposta foi diferente. Indivíduos com pênis maiores foram avaliados como mais ameaçadores, tanto do ponto de vista físico quanto sexual, sem que houvesse um limite claro para essa percepção. Isso sugere que homens atribuem maior importância ao fator, relacionando-o não apenas à atratividade, mas também à competitividade.
Os pesquisadores apontam ainda uma possível explicação evolutiva para o fenômeno. Em períodos ancestrais, quando o corpo humano não era coberto por roupas, o órgão genital poderia funcionar como um sinal visível associado à seleção sexual e às relações sociais, influenciando tanto a escolha de parceiros quanto a avaliação entre indivíduos do mesmo sexo.