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Biofobia: quando a natureza nos causa medo

7 abr 2026 - 13h51
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Muito se fala sobre como a natureza pode trazer benefícios para a saúde física e mental. Ainda assim, há quem se sinta ameaçado por ela - e esse fenômeno pode estar crescendo.Experiências em meio à natureza costumam ser consideradas um bálsamo para a alma. Existe até um termo específico para isso: biofilia - ou o amor das pessoas pela natureza. A ideia vem da psicologia evolutiva e afirma que os seres humanos se sentem atraídos por ambientes naturais que, ao longo da evolução, ofereceram boas chances de sobrevivência.

Floresta: para muitos, um cenário assustador
Floresta: para muitos, um cenário assustador
Foto: DW / Deutsche Welle

O contraponto disso é a biofobia, ou seja, o medo da natureza. Exemplos incluem o medo de grandes predadores ou fobias de aranhas ou cobras — animais que podem ser venenosos.

No entanto, pesquisadores observam cada vez mais uma forma de medo da natureza que vai muito além desses receios concretos e originalmente protetores da vida. Essa é a conclusão de um estudo de revisão da Universidade de Lund, na Suécia. A equipe de pesquisa analisou ao todo 196 estudos de diferentes áreas, todos voltados para a relação entre seres humanos e natureza.

O resultado: a relação de nós, humanos, com a natureza parece estar se deteriorando de forma acentuada.

Perdemos o contato cotidiano com a natureza

O principal motivo dessa piora, segundo a maioria dos estudos, é que cada vez mais pessoas têm cada vez menos contato com a natureza, relata Johan Kjellberg Jensen, da Universidade de Lund, que coordenou o estudo de revisão. Uma das causas desse relacionamento negativo com a natureza estaria no fato de que um número crescente de pessoas vive em cidades.

"Hoje, a maior parte da população mundial vive em cidades, o que significa que as futuras gerações podem estar expostas a um risco maior de biofobia", afirma Jensen, cientista ambiental e climático, à DW.

A ciência já observa, desde o fim da década de 1970, um afastamento das pessoas da natureza, diz também o psicólogo berlinense Dirk Stemper, que trabalha, entre outros temas, com gestão da ansiedade e desenvolvimento da personalidade. Isso vale sobretudo para os países industrializados.

"Crianças crescem cada vez mais em ambientes altamente impermeabilizados, afastados da natureza, e passam seu tempo principalmente em espaços fechados e em ambientes digitais. Faltam aí as experiências corporais e sensoriais, como escalar, se sujar ou observar animais."

Mas são justamente essas experiências que constroem familiaridade com a natureza. Quando elas faltam, a natureza passa a parecer estranha.

O que acontece quando a natureza se torna estranha?

Aquilo que não conhecemos também não nos interessa. E isso pode se tornar um problema sério em tempos de mudança climática e extinção de espécies.

"A disposição para se engajar na proteção do meio ambiente, da natureza e do clima é maior quando nos percebemos como parte da natureza", enfatiza Lea Dohm. A psicóloga é membro da Aliança Alemã de Clima e Saúde (KLUG) e estuda as consequências psicológicas das crises ecológicas.

Em outras palavras: aquilo que não nos interessa, também não queremos proteger.

Quando a terra é "suja" e minhocas são "nojentas"

Essa postura também é transmitida, por exemplo, pelos pais. "Atitudes negativas dos pais em relação à natureza podem influenciar a relação de seus filhos com ela — levando a uma espiral descendente de conexão com a natureza", diz Jensen, líder do estudo.

Quando crianças ouvem repetidamente frases como "cuidado com os carrapatos" ou "não encosta nisso", passam a vivenciar a natureza como algo perigoso, ressalta o psicólogo Stemper.

Essa experiência também é compartilhada pela educadora ambiental Susanne Sigl. Ela trabalha na Querwaldein, uma organização sem fins lucrativos em Colônia que busca transmitir às crianças uma relação positiva com a natureza.

"Quando pedimos às crianças, na floresta, que procurem galhos longos, algumas os seguram apenas com a ponta dos dedos; outras chegam a usar um lenço de papel; e outras nem trazem nada", conta a pedagoga. Muitas crianças já nem pensam mais em pegar castanhas ou avelãs com as mãos, em vez de apenas olhar — e muito menos minhocas ou insetos inofensivos, como pequenos besouros, diz Sigl.

Ela relata ainda que, com frequência, os pais mandam os filhos com roupas totalmente inadequadas para um passeio na floresta: muitas vezes pouco agasalhados ou com tênis brancos que não devem sujar. "A terra costuma ser vista apenas como sujeira — inclusive pelas crianças."

Alienação da natureza gera medo e hostilidade

Quando a natureza nos é tão estranha a ponto de sentirmos medo, esse medo pode se transformar em hostilidade — e a equipe da Universidade de Lund também encontrou evidências disso. Estudos mostram que pessoas biofóbicas evitam ativamente a natureza e, em alguns casos, defendem a matança de certos animais, como ursos, lobos ou tubarões.

Não são apenas fatores externos, como a falta de contato com a natureza, que influenciam nossa postura diante dela, diz Jensen. Fatores internos também contam: pessoas que se sentem fracas ou doentes tendem a ter mais medo, por exemplo, de predadores — como mostram muitos estudos.

Como a cultura molda nossa relação com a natureza

A relação com a natureza também é fortemente moldada pela cultura. "Antigamente, na Europa Central, a floresta era vista como um lugar de perigo — de animais selvagens, de fome, de ladrões, de ameaças mágicas", lembra o psicólogo Dirk Stemper. Somente com o movimento cultural do Romantismo a floresta passou a ser, na Alemanha, uma paisagem idealizada.

Típica do período romântico (1795 a 1848) foi a busca pelo mágico, pelo sobrenatural e pelo maravilhoso — uma reação ao rápido avanço tecnológico da época.

"Hoje, vivemos de certo modo um retorno do medo da natureza — não mais diante de predadores e animais selvagens, mas por causa do afastamento, dos enquadramentos midiáticos e da distração digital."

Pesquisas sobre a cultura pop de língua inglesa também apontam para uma mudança cultural que se afasta da natureza, relata Jensen. "Desde os anos 1950, as referências à natureza em romances, letras de músicas e enredos de filmes vêm diminuindo continuamente."

Enquanto isso, à medida que a experiência pessoal com a natureza diminui, os meios de comunicação frequentemente apresentam uma imagem negativa dela — seja por filmes como Tubarão, seja pela cobertura de catástrofes naturais.

Ao mesmo tempo, muitas mídias digitais mostram uma imagem distorcida da natureza, diz Stemper. Essa "hiper-realidade" faz com que as fronteiras entre o original e a reprodução — muitas vezes filtrada — se tornem difusas.

Como consequência, experiências virtuais de natureza, como feeds do Instagram ou jogos de computador, parecem mais intensas e "reais" do que o encontro efetivo com florestas, campos ou animais.

Pouca natureza faz mal à saúde

Por que, então, ir à floresta de verdade, se a floresta "inofensiva" do Instagram parece muito mais bonita?

Porque ela nos faz bem, simples assim. "Estar na natureza promove nossa saúde mental — e muitas pessoas se sentem frequentemente tensas e sobrecarregadas", afirma a psicóloga Lea Dohm. "Estudos mostram que florestas e ambientes naturais amenizam sintomas de TDAH, melhoram a atenção e a concentração, reduzem problemas sensoriais e favorecem a regulação emocional", acrescenta Stemper.

Como pessoas biofóbicas evitam a natureza, elas perdem todos esses benefícios à saúde. Então, o que fazer?

Como resgatar a conexão com a natureza

Conhecimento ajuda — e muitos estudos mostram isso, diz Jensen. Quando conhecemos muitas plantas e animais e entendemos como a natureza funciona, conseguimos valorizá-la melhor — "o risco de uma relação negativa diminui". E quando o medo de perigos naturais é de fato justificado, ajuda evitar conflitos, por exemplo, protegendo animais domésticos de predadores.

"Quando não existe um perigo real por trás de um medo, a melhor forma de superá-lo é por meio da exposição gradual", diz Dohm. As pessoas podem, sim, ser orientadas a retomar, passo a passo, o contato com a natureza.

Com crianças, isso funciona melhor por meio da brincadeira espontânea, afirma a educadora ambiental Sigl. "Quando crianças brincam de pega-pega na floresta, caem, se escondem atrás de uma árvore ou se agacham em um arbusto, tocar em galhos depois disso geralmente deixa de ser um problema."

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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