Ansiedade financeira: o medo que rouba o sono e a paz
Psicólogos explicam como a ansiedade financeira pode afetar a saúde mental e como recuperar o controle da situação
Psicólogos explicam como a ansiedade financeira pode afetar a saúde mental e como recuperar o controle da situação
Uma pesquisa da fintech Onze em parceria com a Icatu — que ouviu mais de oito mil pessoas que são trabalhadores de carteira assinada, autônomos, desempregados, aposentados e funcionários públicos —, mostrou que 49% dos entrevistados apontam o dinheiro como a principal fonte de preocupação. A ansiedade financeira ficou acima de temas como saúde (19%), família (15%), trabalho (7%), violência (7%) e política (3%).
Mas é importante ressaltar que existe uma grande diferença entre preocupação normal com dinheiro e ansiedade financeira. Preocupar-se com contas, organizar pagamentos e tentar planejar o futuro faz parte da vida adulta — e essas são atitudes saudáveis que todos devemos ter. Já a ansiedade financeira nasce quando esse movimento deixa de ser um cuidado e passa a ocupar um espaço desproporcional na mente. "Na ansiedade, o corpo vive em alerta constante diante da ideia de que o dinheiro vai faltar, mesmo quando esse risco não seja real", explica o psicólogo clínico André Lefevre.
Quando a ansiedade financeira sai do controle
Nesse estado de ansiedade, a pessoa tenta planejar, recalcular e se antecipar a todos os cenários, mas nada parece suficiente. É aqui que os primeiros sinais aparecem: dificuldade para dormir, irritabilidade, culpa ao gastar, palpitações e até medo de abrir o aplicativo do banco. Para alguns, surge ainda a sensação de vergonha — como se não conseguir lidar com o próprio dinheiro fosse uma falha pessoal. Em casos mais graves, a pessoa pode desenvolver crises de pânico e depressão.
A psicóloga cognitivo-comportamental Rejane Sbrissa reforça que essa preocupação persistente "prejudica a tomada de decisões, reduz a produtividade e impacta diretamente a qualidade de vida". O que começa como um receio pontual pode evoluir para um ciclo de vigilância constante, no qual qualquer gasto, por menor que seja, parece perigoso. É desse ponto em diante que a ansiedade financeira deixa de ser apenas um incômodo e passa a comprometer o bem-estar emocional.
O imprevisível
Se a ansiedade financeira já nasce de uma sensação interna de ameaça, fatores externos funcionam como combustível. "Em um cenário de inflação, instabilidade política, desemprego e mudanças bruscas na economia, o cérebro interpreta tudo como perda de controle, mesmo quando a situação individual não mudou. O problema deixa de ser o dinheiro e vira um sentimento de impotência diante do imprevisível", aponta André.
Perfis mais vulneráveis
Por mais que a ansiedade financeira possa atingir qualquer um, alguns grupos estão mais expostos a esse sofrimento emocional. "Pessoas em situação de pobreza ou baixa renda, segundo a ONU, têm 3x mais chances de desenvolver transtornos mentais relacionados ao medo de faltar dinheiro", afirma Rejane.
A vulnerabilidade econômica é um dos fatores mais determinantes: quem vive com baixa renda, está endividado ou enfrenta dificuldades para manter despesas básicas sente, de forma mais intensa, a falta de controle diante das oscilações do mercado. Segundo Rejane Sbrissa, pessoas em situação de pobreza têm até três vezes mais chances de desenvolver transtornos mentais relacionados ao medo de faltar dinheiro.
Porém, não apenas o fator econômico que pesa, algumas características pessoais também entram na roda. "Pessoas que têm a mente acelerada, perfeccionistas, controladores e quem cresceu em ambiente de escassez tendem a sofrer mais e a carregarem mais gatilhos em relação a isso", afirma André.
(destaque) "Para muitos, o medo não é da falta de dinheiro em si — mas do que ele representa", destaca André. (destaque)
As nossas bagagens
Além de tudo isso que já falamos ao longo dessa matéria, você sabia que nossa forma de lidar com o dinheiro começa muito antes do primeiro salário? Ao crescer observando como nossos pais comentam gastos, reagem às dívidas e lidam com imprevistos, transformamos a forma deles de agir nas nossas. "Muitas das nossas crenças financeiras vêm do que vimos dentro de casa. A criança observa e tende a repetir os padrões dos pais", explica Rejane.
Essas marcas emocionais podem gerar comportamentos opostos: medo extremo de gastar ou impulsividade para tentar compensar a sensação de escassez vivida na infância. Por isso, a psicóloga ressalta que a ansiedade financeira não surge apenas dos números, mas da história emocional que cada pessoa construiu em torno deles.
Retomando o controle
Sair do ciclo da ansiedade financeira exige unir prática e emoção. "O primeiro passo é parar de fugir", afirma André. "Encarar o extrato, reconhecer dívidas e reconhecer limites é o que sinaliza ao cérebro que existe, sim, possibilidade de controle. Pequenas metas — simples e possíveis — ajudam a reduzir o alerta constante", completa.
A organização financeira também funciona como estratégia de autocuidado. "Ao entender claramente para onde o dinheiro vai, o corpo relaxa. O equilíbrio financeiro traz sensação de segurança e reduz o estresse. Para quem vive com medo constante, educação financeira e psicoterapia podem caminhar juntas: uma oferece ferramentas práticas; a outra trabalha os padrões emocionais e crenças que sabotam decisões", conclui Rejane.