5 hábitos podem ajudar a proteger o cérebro do envelhecimento; veja quais
Pesquisa realizada em 11 países da América Latina mostra que pequenas mudanças na rotina, quando praticadas em conjunto, podem trazer benefícios importantes para a saúde do cérebro
Cuidar da saúde do cérebro vai muito além das palavras cruzadas ou de tentar memorizar listas. Um estudo inédito realizado em 11 países da América Latina, incluindo o Brasil, mostra que a combinação de cinco hábitos saudáveis pode retardar o declínio cognitivo em idosos com maior risco de desenvolver demência.
Publicada na revista científica The Lancet, a pesquisa acompanhou mais de mil pessoas durante dois anos e concluiu que quem adotou um programa estruturado de mudanças no estilo de vida apresentou uma melhora cognitiva significativamente maior do que aqueles que receberam apenas orientações gerais sobre saúde.
O resultado reforça uma mensagem importante: não existe uma solução isolada para proteger o cérebro, mas um conjunto de escolhas que faz diferença ao longo do tempo.
Os 5 hábitos que fizeram diferença
Durante o estudo, os participantes seguiram uma rotina baseada em cinco pilares:
- Praticar atividade física regularmente;
- Manter uma alimentação saudável;
- Controlar fatores de risco cardiovasculares, como hipertensão, diabetes e colesterol;
- Realizar exercícios de estimulação cognitiva;
- Participar de atividades de convivência e socialização.
Ao final dos dois anos, o grupo que reuniu essas cinco práticas apresentou uma melhora da função cognitiva 55% superior à observada entre aqueles que receberam apenas recomendações gerais. Além da cognição global, houve benefícios em áreas importantes, como memória, atenção, planejamento e tomada de decisões.
O segredo está na combinação dos hábitos
Segundo o neurologista Paulo Caramelli, professor da Faculdade de Medicina da UFMG e um dos coordenadores brasileiros da pesquisa, o principal achado foi justamente mostrar que os benefícios aparecem quando essas estratégias são adotadas em conjunto.
"Não se trata de recomendar isoladamente que a pessoa faça exercício ou tenha uma alimentação melhor. O que demonstramos é que o efeito aparece quando os cinco pilares são trabalhados simultaneamente", disse em entrevista à 'Folha de São Paulo',
O especialista acrescentou ainda que essa abordagem faz sentido porque a demência costuma ter diversas causas atuando ao mesmo tempo. "Mesmo que no futuro exista um medicamento capaz de curar a doença de Alzheimer, o problema da demência continuará existindo, porque muitos idosos apresentam mais de uma causa para o comprometimento cognitivo. A prevenção atua justamente sobre vários mecanismos ao mesmo tempo."
Uma estratégia adaptada
O trabalho adaptou para a América Latina um modelo criado originalmente na Finlândia, considerado uma referência mundial na prevenção da demência. Desta vez, porém, as orientações foram ajustadas à realidade dos países participantes. No Brasil, por exemplo, as recomendações alimentares levaram em conta os hábitos locais e o acesso aos alimentos. Já as atividades físicas em grupo e os encontros de socialização tiveram boa aceitação entre os voluntários.
Segundo os pesquisadores, esse é o primeiro grande estudo a demonstrar que esse tipo de intervenção também funciona em países de média renda, onde fatores como hipertensão, diabetes e colesterol alto ainda são frequentemente mal controlados.
O benefício chamou atenção dos pesquisadores
Outro dado que surpreendeu a equipe foi a intensidade dos resultados. A geriatra Claudia Kimie Suemoto, professora da Faculdade de Medicina da USP e integrante do comitê executivo da pesquisa, destacou que "o efeito observado foi quase três vezes maior do que o encontrado em estudos semelhantes realizados em outros países." Além disso, mais de 82% dos participantes concluíram os dois anos de acompanhamento, o que prova a viabilidade prática da estratégia.
Os pesquisadores ressaltam, contudo, que adotar essas mudanças não impede totalmente o surgimento da demência. Ainda assim, os resultados mostram que um estilo de vida saudável pode retardar o comprometimento cognitivo e desacelerar a progressão da doença. Agora, a equipe pretende avaliar se o Sistema Único de Saúde (SUS) pode incorporar a estratégia, tornando a prevenção parte da rotina da atenção primária.
Enquanto novas pesquisas avançam, a principal mensagem do estudo é simples e inspiradora: cuidar do cérebro acontece um pouco todos os dias. E, quando alimentação equilibrada, movimento, convivência, estímulos mentais e atenção à saúde caminham juntos, os benefícios podem acompanhar a mente por muitos anos.
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