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‘Samambaia zumbi’: cientistas encontram espécie pela primeira vez em floresta tropical

Planta é conhecida por transformar tecidos em decomposição em fonte de nutrientes

4 mar 2024 - 05h00
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Samambaia "zumbi" transforma folhas mortas em raízes
Samambaia "zumbi" transforma folhas mortas em raízes
Foto: Reprodução/James W. Dalling/The New York Times

Foi por acaso, durante uma incursão em uma floresta tropical do oeste do Panamá, que o biólogo Jim Dalling encontrou samambaias com folhas de 1,80 metro de comprimento que caíam ao chão conforme morriam, criando uma espécie de “saia” na planta. 

Ao The New York Times, o biólogo disse que estava tentando tirar as folhas de seu caminho após tropeçar, quando viu que, na verdade, elas estavam enraizadas no chão. O professor e ecologista da Universidade de Illinois estava procurando por outra planta, mas a descoberta foi mais instigante.

Os restos já em decomposição das folhas da samambaia, embora estivessem presos à base do tronco, levaram ao questionamento: como a matéria vegetal sem vida poderia ser dotada de raízes? "Eu realmente não podia acreditar no que estava vendo", disse Dalling ao Times.

“Samambaia zumbi”

Estudos revelaram que a samambaia encontrada pelo professor é conhecida como Cyathea rojasiana. Ela transforma a parte interna de suas folhas mortas ou em decomposição. Os restos do xilema e do floema — tubos que transportam água, açúcares e nutrientes por toda a folha viva — se tornam uma raiz, de forma um tanto misteriosa.

As pontas das “folhas zumbis”, como foram apelidadas, possuem brotos de novas raízes finas, que penetram no solo. Os estudos de Dalling foram publicados em janeiro no jornal Ecology, descrevendo suas descobertas na floresta tropical.

Segundo ele conta, no processo de transmutação do nervo central da folha, a planta passa por uma proliferação de novo tecido vascular e evita apodrecer enquanto o resto da folha seca. "Isso é completamente desconhecido em qualquer outra planta do mundo", disse Dalling.

Normalmente, o tecido vascular é depositado na folha, segundo Robbin Moran, especialista em samambaias e curador emérito do Jardim Botânico de Nova York, no Bronx. Mas, na espécie descoberta, depois que o resto da folha morre, "está diferenciando, proliferando. Eu não sei como isso acontece”, diz Moran, que revelou nunca ter visto algo parecido.

Autor de pesquisa diz ter tropeçado quando descobriu que folhas mortas eram, na verdade, raízes
Autor de pesquisa diz ter tropeçado quando descobriu que folhas mortas eram, na verdade, raízes
Foto: Reprodução/James W. Dalling/The New York Times

Habitat

A samambaia pode ser encontrada na área encharcada da Reserva Florestal Fortuna. O local recebe mais de 6 metros de chuva por ano, que preenche o solo arenoso e vulcânico com nitrogênio e fósforo. 

Os pesquisadores acreditam que a planta tenha se adaptado a acessar bolsões de nutrientes no solo superficial, que de outra forma não poderia acessar, a não ser pelas raízes.

Sobrevivência

O que diferencia a “samambaia zumbi” de outras plantas que também são capazes de se adaptar, é que a maior parte delas pode criar raízes a partir de folhas vivas. Essa espécie faz isso com as folhas mortas. 

A técnica de sobrevivência também é usada pela samambaia andante (Asplenium rhizophyllum), nativa dos Estados Unidos, que se espalha sobre rochas musgosas usando essa técnica, através das folhas vivas.

As “folhas zumbis” encontradas no Panamá representam o primeiro exemplo conhecido de um reaproveitamento de tecido morto, disse Eddie Watkins, professor e especialista em samambaias da Universidade Colgate, que não fez parte do estudo. O professor sugere que, ao fazer isso, a planta consiga economizar energia. Isso poderia ajudá-la na “batalha por nutrientes” em meio à floresta.

Pesquisa

As chuvas fortes e o solo pobre em nutrientes proporcionam uma coleção de plantas única. É o caso do pinheiro conhecido como Podocarpus, do grego "fruto com pé", e que espalha raízes bulbosas estranhas por toda parte. A árvore foi o que levou Dalling a vasculhar a floresta inicialmente. "Foi pura sorte que estávamos mexendo na base dessas samambaias", disse.

Dalling diz que inspecionou dezenas de samambaias, descobrindo que cada uma crescia raízes a partir de suas folhas mortas. O trabalho, porém, precisou ser interrompido devido à pandemia de covid-19. 

Amostras foram colhidas para experimento com nitrogênio na samambaia
Amostras foram colhidas para experimento com nitrogênio na samambaia
Foto: Reprodução/James W. Dalling/The New York Times

O professor foi forçado a deixar o Panamá com sua esposa e cachorro, e voltar para Illinois em fevereiro de 2020. Anos depois, ele voltou com colegas, desenterrou raízes das folhas de três plantas e as colocou em vasos com fertilizante de nitrogênio quimicamente marcado

Depois de um mês, as novas folhas no topo da samambaia foram analisadas, e os pesquisadores descobriram que o nitrogênio estava sendo incorporado à planta. Dessa forma, ficou confirmado que as raízes realmente transportavam água e nutrientes para as folhas novas.

Apesar dos avanços nas pesquisas, ainda é um mistério para a ciência como a samambaia é capaz de fazer a transformação das folhas mortas em raízes. Para Watkins, isso mostra a importância da dedicação aos estudos da natureza. "Se você parar e olhar para o organismo, há coisas realmente novas e interessantes por aí", disse Watkins. "Há histórias a serem contadas que ainda não descobrimos."

Fonte: Redação Terra
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