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Descoberta de fósseis na Amazônia reforça teoria de antigos habitantes marinhos na floresta

Segundo pesquisadores, o boto-cor-de-rosa, encontrado no Rio Amazonas, teria evoluído de golfinhos

5 fev 2024 - 05h00
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Floresta amazônica
Floresta amazônica
Foto: Foto: Istock

A descoberta de fósseis de micro-organismos marinhos na região amazônica confirma a hipótese de que, em tempos passados, o ambiente na maior floresta tropical do mundo pode ter abrigado animais marinhos.

Em um estudo liderado pela geóloga Lilian Maia Leandro, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), e publicado no Geology Journal, que explorou essa hipótese, contribuindo para o entendimento científico da região, mostrou que, provavelmente, parte da Bacia Amazônica esteve coberta por águas oceânicas e que muitos animais, plantas e outros organismos viveram nesta região no passado.

No estudo, estima-se que durante o período Mioceno -- aproximadamente entre 23 e 5 milhões de anos atrás (saiba mais abaixo) --, as montanhas na região noroeste da América do Sul ainda não haviam se formado. Isso inclui a Cordilheira Mérida, que atualmente impede a entrada das águas do mar do Caribe no continente. No passado, quando o nível do oceano era mais elevado, as águas conseguiam penetrar, formando um golfo e trazendo diversos organismos marinhos para a região.

Em entrevista ao Terra, Guilherme Augusto Domenichelli, biólogo e professor de Biologia e Ciências nos Colégios Arbos e São José em Santo André (SP), explicou os fósseis como sendo restos ou vestígios preservados de um organismo marinho que morreu há muito tempo.

“Para virar um fóssil, ele passa por vários tipos de processos, chamados de fossilização. As partes mais moles dos animais, como órgãos internos, se decompõem rapidamente, e as partes mais duras, como ossos, dentes e conchas, resistem por muito mais tempo”, explicou. 

Segundo o professor, essas partes duras são soterradas por sedimentos, que consistem em partículas muito pequenas de rochas, como areia. Com o passar do tempo, várias camadas de sedimentos se acumulam ao redor dos ossos, que começam a se compactar e endurecer, transformando-se em rocha.

“Durante essa transformação das camadas de sedimentos em rocha, os ossos que estavam no meio desse sedimento também se transformam. A água que estava presente no sedimento, penetra nos ossos, carregando minerais. Esses minerais dissolvidos na água substituem os ossos originais, deixando uma cópia exata deles. Esse é o processo mais comum de fossilização”, completou. 

Rastros do passado

Considerado o maior rio global, o Rio Amazonas nasce no Peru, percorre a Colômbia e deságua no litoral norte do Brasil. Abrangendo Bolívia, Equador, Venezuela e Guiana, a bacia amazônica recebe águas das chuvas de verão do hemisfério norte e sul devido aos afluentes em ambos os lados.

Em entrevista ao Terra, a geóloga Lilian Maia Leandro relatou que o boto-cor-de-rosa, encontrado no Rio Amazonas, teria evoluído de golfinhos que viveram na região devido a alagamentos passados, que trouxeram animais marinhos, separando populações e originando novas espécies adaptadas a ambientes fluviais.

“Um dos animais encontrados no rio é o boto-cor-de-rosa que, inclusive segundo estudos, parece ter surgido no mar; seus ancestrais teriam sido os golfinhos e hoje vivem nos rios da Amazônia. Ou seja, os alagamentos pela água do mar no passado contribuíram em trazer esses animais marinhos para a região”, explicou.

Os rios amazônicos, com águas mais ácidas devido à abundância de matéria orgânica, abrigam uma diversidade de vida adaptada a essas condições. Peixes e plantas são exemplos de espécies adaptadas a esse ambiente. Alguns animais nativos, como arraias de água doce, botos-tucuxí e botos-cor-de-rosa, apresentam semelhanças com espécies marinhas.

“Pesquisas sugerem a possibilidade de esses animais serem descendentes de espécies marinhas que habitaram a região durante o Período Mioceno”, completa Guilherme Augusto Domenichelli.

O que foi o Mioceno? 

Mioceno, um período marcado por intensa atividade geológica global, deu origem às cordilheiras do Himalaia na Ásia, os Alpes na Europa e os Andes na América do Sul. O geólogo André Oliveira Sawakuchi, pesquisador do Instituto de Geociências (IGc-USP), destaca que, no noroeste da América do Sul, ainda não havia a formação de algumas cadeias montanhosas. Isso possibilitou a entrada do oceano no continente, formando um golfo com a invasão do mar do Caribe no Oeste da Amazônia. Essa configuração criava um canal de comunicação entre a região amazônica e o Caribe, propiciando alagamentos passados que contribuíram para trazer animais marinhos e originar novas espécies.

Fonte: Redação Terra
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