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Ar seco provocado pelo El Niño voltará a ameaçar peixes e anfíbios da Amazônia

A baixa umidade relativa do ar representa um risco para animais que dependem de uma superfície corporal úmida para respirar e conservar a quantidade de água necessária para o funcionamento do seu organismo

11 set 2026 - 06h11
(atualizado às 14h01)
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Resumo
O fortalecimento do El Niño em 2026 intensifica a estiagem na Amazônia e acende um alerta sobre os impactos do ar seco na fauna aquática e semiaquática. Além das altas temperaturas que aquecem os rios, a queda brusca na umidade do ar ameaça anfíbios e peixes com respiração cutânea, que dependem da pele úmida para trocas gasosas e equilíbrio hídrico. O ressecamento do solo e a perda de refúgios úmidos impõem severos limites fisiológicos a essas espécies, agravando os riscos à biodiversidade local.

Os efeitos do El Niño de 2026 já são sentidos e podem continuar avançando em intensidade. O fenômeno está em fortalecimento e, segundo a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há mais de 90% de chance de que se torne muito forte nos próximos meses.

Ao mesmo tempo, os oceanos vêm registrando temperaturas excepcionais. O Serviço Copernicus para Mudanças Climáticas, cuja série histórica começa em 1979, registrou em 22 de agosto temperatura média diária de 21,1ºC na superfície dos oceanos fora das regiões polares, um valor recorde.

Na bacia amazônica, as consequências associadas ao El Niño são bem conhecidas: períodos de estiagem mais severos, com queda abrupta no nível dos rios e impactos sobre a biodiversidade e os modos de vida dos amazônidas.

Durante a seca histórica de 2023-24, também influenciada pelo El Niño e pelo aquecimento global, jornalistas e cientistas registraram altas mortalidades de peixes e até de botos-cor-de-rosa, além de algumas das imagens mais impressionantes de grandes rios e lagos, outrora abundantes em água, reduzidos e com temperaturas acima daquilo que muitos animais conseguem suportar.

Em 2026, apenas dois anos depois da última seca extrema, a Amazônia já começa a vivenciar novamente condições excepcionais. Em 31 de agosto, Manaus viveu seu dia mais quente do ano (até o momento), chegando a 37,3ºC, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Agosto também foi marcado por pouca chuva e umidade relativa do ar muito baixa para os padrões locais. Em 10 de agosto, por exemplo, o Inmet registrou 41%, então o menor valor do ano.

Com uma frequência maior de fenômenos climáticos extremos, a pesquisa científica ainda busca entender exatamente de quais formas a soma de estiagens e ondas fortes de calor impactam a vida amazônica.

Pesquisas têm demonstrado, por exemplo, como os peixes da região são sensíveis ao aumento da temperatura da água, um dos fatores que ajudam a explicar as altas mortalidades observadas em períodos como este.

Porém, o aumento da temperatura é apenas um dos fatores de risco. Ainda pouco estudada, a baixa umidade relativa do ar acende um alerta menos evidente: o possível impacto sobre animais que dependem de uma superfície corporal úmida para respirar e manter seu equilíbrio hídrico, ou seja, conservar a quantidade de água necessária para que seu organismo funcione adequadamente.

Por que o ar seco é um problema para anfíbios e peixes?

Os anfíbios representam um dos grupos de animais mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas. A pele dos anfíbios, como sapos, rãs e pererecas, é fina, permeável e intensamente vascularizada. Isso ocorre porque a pele dos anfíbios é um órgão multifuncional: é por ela que esses animais absorvem água, regulam parte dos sais presentes no organismo e realizam parte da respiração, com trocas de oxigênio e dióxido de carbono (CO2).

Sobre essa pele existe uma camada de muco que ajuda a manter a hidratação da superfície cutânea, condição necessária para que os gases se difundam entre o ambiente e os vasos sanguíneos, além de contribuir para a proteção contra microrganismos e reduzir a perda de água por evaporação.

Quando a umidade relativa do ar diminui, aumenta a diferença entre a quantidade de vapor de água junto ao corpo do animal e aquela existente no ambiente. Como consequência, intensifica-se a perda de água por evaporação.

Além da desidratação, esse processo provoca alterações no equilíbrio entre água e sais no organismo e pode comprometer a eficiência da difusão de gases entre o ambiente e os vasos sanguíneos, resultando na queda da capacidade de trocas gasosas e dificultando a eliminação do CO2.

Uma das principais estratégias dos anfíbios para mitigar esses efeitos é procurar locais mais úmidos e frescos, onde a perda de água seja menor. Muitos também conseguem repor a água perdida diretamente pelo contato da pele com superfícies úmidas.

Em sapos, rãs e pererecas, essa absorção ocorre principalmente pelo ventre. Se o solo estiver úmido, a água passa do ambiente para o animal e ajuda a recuperar sua hidratação. Quando o solo seca, essa relação pode se inverter: o anfíbio deixa de conseguir se reidratar e pode começar a perder água para o próprio substrato.

Alguns peixes anfíbios enfrentam desafios semelhantes. Algumas espécies da família Rivulidae, grupo que inclui os chamados peixes-das-nuvens, conseguem deixar temporariamente a água. Há espécies capazes de permanecer por horas sobre folhas ou outras superfícies úmidas.

Entre estes peixes, a pele pode assumir uma função importante nas trocas gasosas quando o animal está fora da água. Essa capacidade os ajuda a sobreviver em poças rasas, ambientes aquáticos com pouco oxigênio ou locais que secam periodicamente.

No entanto, condições mais secas podem reduzir o tempo durante o qual esses animais conseguiriam sobreviver fora d'água. Assim, uma alteração ambiental que parece pouco relevante aos olhos humanos pode representar um risco expressivo para espécies com estas características.

O problema pode ser ainda mais complexo porque o calor e a estiagem também alteram os próprios ambientes aquáticos. A redução das chuvas e o aumento da evaporação diminuem o volume de água, elevam sua temperatura e podem reduzir a disponibilidade de oxigênio.

A baixa umidade do ar, associada ao calor e à estiagem, também acelera o ressecamento da vegetação e favorece a propagação de incêndios. Para peixes que utilizam a respiração cutânea fora d'água, isso representa uma dupla ameaça: aumenta a perda de água pela pele e reduz a disponibilidade de refúgios úmidos, além de expô-los aos efeitos do fogo e das cinzas sobre os ambientes aquáticos.

Aumento da temperatura é apenas uma parte do problema

Quando se discute o efeito das mudanças climáticas, o aumento da temperatura é apenas uma parte do problema. A redução da umidade, a maior perda de água para o ambiente e o desaparecimento de microambientes úmidos podem impor limites fisiológicos e comportamentais aos anfíbios antes mesmo que temperaturas extremas sejam atingidas.

Para alguns peixes capazes de transitar entre ambientes aquáticos e terrestres, a questão pode ser semelhante. Sair de uma poça excessivamente quente ou com pouco oxigênio pode ser uma estratégia de sobrevivência. Mas o que acontece quando o ambiente fora da água também se torna excessivamente quente e seco?

Por este motivo, a ocorrência de umidade tão baixa em Manaus chama atenção para a necessidade de avaliar as alterações climáticas para além de seus efeitos mais conhecidos. Em uma região reconhecida pela abundância de água e pela elevada umidade, episódios extremos podem alcançar espécies adaptadas a condições ambientais muito diferentes daquelas produzidas pelos eventos recentes.

Monitorar simultaneamente a atmosfera, os ambientes aquáticos e as respostas fisiológicas dos organismos será essencial para compreender os limites da fauna amazônica diante de um clima cada vez mais extremo.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Susana Braz-Mota recebe financiamento da Fundação de Amparo a Pesquis do Estado do Amazonas (FAPEAM). Ela membro é afiliada à Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Guilherme de Azambuja Pereira e Tiago da Mota e Silva não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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