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Roberto Moreno, o sonhador que chegou ao topo do mundo

Saído de Brasília com um capacete e muita vontade de ser piloto da F1, o Baxo foi gigante em sua luta para fazer de seu sonho a realidade

20 out 2020
10h13
atualizado às 14h03
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Roberto Moreno na Benetton: momento especial na carreira do piloto brasiliense.
Roberto Moreno na Benetton: momento especial na carreira do piloto brasiliense.
Foto: Divulgação

Se existe um piloto cuja popularidade sempre esteve muito acima de seus resultados, esse piloto se chama Roberto Pupo Moreno. Filho de uma família de classe média, ele faz parte de um grupo nascido em torno das paixões adolescentes pelos carros e por seus segredos. Sempre à luta com orçamentos insuficientes, Moreno, conhecido nas rodas de Brasília como Baxo por seu pouco mais de 1,65 metro, sempre se impôs pela disposição de ir à luta. Foi ela que o levou à Fórmula 1, passando por diversas categorias onde sempre se mostrou à altura dos muitos desafios.

O começo, assim como o meio e o fim, foi na base de muita coragem e pouco dinheiro. Nem mesmo inglês Moreno sabia falar quando embarcou para a Inglaterra, a fim de participar das corridas da Fórmula Ford a conselho do amigo Nelson Piquet. A categoria era, na época, o primeiro passo. Reunia de tudo, dos mais puros amadores a equipes mantidas oficialmente pelas fábricas. Em sua própria versão de Orquestra de Um Homem Só, Moreno arranjou dinheiro, pouco mas suficiente para manter seu carro -- que muitas vezes serviu também como cama. Nela, ele forjou a vontade férrea que marcou toda sua trajetória. Passou com sucesso e sacrifício por esses primeiros obstáculos, sagrando-se campeão do Festival de Fórmula Ford de 1979, torneio anual que reunia os principais pilotos e equipes de todo o mundo. Pulou para a F3, onde repetiria a receita e os resultados. 

Roberto Moreno com o Benetton Ford B190 no GP do Japão de 1990: brilhante segundo lugar.
Roberto Moreno com o Benetton Ford B190 no GP do Japão de 1990: brilhante segundo lugar.
Foto: Divulgação

Seu primeiro grande momento foi no final de 1981, depois de uma temporada claudicante na F3 britânica. Um convite do amigo PeeWee, um engenheiro australiano que simpatizou com sua luta e o adotou como “protegé” depois de lhe ser apresentado por Piquet. A ideia era participar de um torneio de Fórmula Pacific na Austrália. A categoria era a herdeira da antiga Fórmula 2, carros e motores muito mais rápidos e potentes do que qualquer coisa que Moreno já tinha pilotado. O programa teria duas corridas e seu objetivo era popularizar a F Pacific na Austrália e na Nova Zelândia. Para ganhar repercussão, os organizadores contrataram as duas maiores estrelas da Fórmula 1 naquele ano, Nelson Piquet, o novo campeão, e seu arquirrival Alan Jones, o australiano de quem Piquet havia tirado o título mundial.

Os três fizeram os melhores tempos da prova de classificação, como se esperava. O que não se esperava era a pole position de Moreno, à frente do herói local Jones e do campeão da F1 Piquet. Jones largou melhor. Tomou a ponta, mas Moreno a retomou definitivamente na terceira das 100 voltas da corrida. Esta vitória, sua primeira consagração, pode ser vista no YouTube, onde aparece sob o título de Australian Grand Prix 1981. Daí para a frente, a vida começou a mudar, nem sempre para melhor. Contratado pelo gênio Colin Chapman para ser piloto de testes da Lotus, então uma das dominadoras da F1, Moreno recebeu uma promoção que mudaria sua vida para pior.

Moreno com o problemático Lotus 91: sem treinos para o desafio do GP da Holanda de 1982, em Zandvoort.
Moreno com o problemático Lotus 91: sem treinos para o desafio do GP da Holanda de 1982, em Zandvoort.
Foto: Divulgação

O convite, prematuro, saiu pela culatra e foram necessários anos para Moreno reconstruir sua reputação. Isso porque, antes de receber a convocação para correr no Grande Prêmio da Holanda de 1982, Moreno só havia feito testes de aerodinâmica, em linha reta. Ao se deparar com as dificuldades do Lotus 91 nas curvas de Zandvoort, ele não conseguiu se classificar para o grid. Aquele momento atrasou durante anos seu ingresso nas categorias de elite.

Foi um período de busca, que incluiu as primeiras experiências na Fórmula Indy, nos Estados Unidos, passagens pela Fórmula 2, onde aprendeu o lado negativo da expressão "ordens de equipe”, e até mais uma passagem pela Fórmula 1, um capítulo iniciado com esperanças e encerrado com amargura junto à equipe AGS, onde foi chamado para desenvolver o carro. Quando o trabalho ficou pronto, Moreno foi avisado que não seria ele o piloto, e sim um concorrente mais lento, mas com verba de patrocinadores franceses. 

Na equipe AGS, fim de um capítulo iniciado com esperanças e encerrado com amargura.
Na equipe AGS, fim de um capítulo iniciado com esperanças e encerrado com amargura.
Foto: Divulgação

O ressurgimento se concretizou quando, com o apoio do eterno amigo Piquet, ele resolveu montar um "Exército de Brancaleone” para disputar o campeonato europeu de Fórmula 3.000. Junto com o amigo Gary Anderson, um mecânico que se tornaria famoso como o criador dos carros da simpática equipe Jordan, eles derrotaram a elite da categoria dispondo de pouco mais do que um carro de corrida, um outro de transporte e muita disposição. Chamado mais tarde para desenvolver o câmbio automático da Ferrari, Moreno viveu seu melhor ano na Fórmula 1 em 1990. Foi quando o chefe da equipe Benetton, o engenheiro John Barnard com quem havia trabalhado na Casa de Maranello, o chamou para substituir o italiano Alessandro Nannini, que havia sofrido um sério acidente de helicóptero. 

Ao lado de Piquet, o primeiro piloto da Benetton, os dois brasileiros fizeram história. No dia 21 de outubro de 1990, eles ocuparam os dois degraus mais altos do pódio do Grande Prêmio do Japão, disputado no seletivo circuito de Suzuka. Ele ficou na equipe até ser forçado a trocar de lugar com o fenômeno emergente Michael Schumacher. O alemão foi para a Benetton, Moreno para a Jordan. Mas lá o esquema era difícil, ou se levava patrocínios para a equipe enfrentar as despesas milionárias da Fórmula 1 ou se a abria vaga para quem tinha apoio financeiro. Moreno fez duas corridas pela Jordan e logo o sonho se acabou.

Pódio de Suzuka em 1990: Moreno completa a dobradinha brasileira com Nelson Piquet.
Pódio de Suzuka em 1990: Moreno completa a dobradinha brasileira com Nelson Piquet.
Foto: Divulgação

Foram dois anos correndo por equipes pequenas, sem meios para tentar mais do que conseguir uma vaga no fundo do grid. Em 1995, foi chamado para liderar uma nova equipe de F1 que reuniria um chefe de equipe da F 3.000, o italiano Guido Forti, e o jovem brasileiro Pedro Paulo Diniz, com apoio do mega empresário Abílio Diniz. Foi mais um ano de muita luta e poucos resultados e, no ano seguinte, Moreno voltou aos Estados Unidos, onde viveria sua fase de melhores resultados. Recomeçou pela discreta Payton Coyne, nascida da união do ex-piloto Dale Coyne com a estrela do Chicago Bears Walter Payton, uma das maiores estrelas do futebol americano da época. Mesmo em uma equipe limitada, Moreno conquistou um pódio e, no ano seguinte, entrou na poderosa Newman-Haas como substituto de Christian Fittipaldi, que havia se acidentado. Sua passagem foi marcada pela pouco competitividade do carro Swift, pouco competitivo e de pouca evolução.

Seu melhor ano foi em 2000, quando foi contratado pela Patrick Racing e fechou a temporada em terceiro. O ano seguinte não correspondeu às expectativas e aos poucos a carreira de Moreno na Indy passou a sofrer intervalos. Ainda fez uma última temporada em 2003, com a equipe Herdez. Conseguiu subir ao pódio com um excelente segundo lugar em Miami, mas aquele seria seu último ano regular na categoria. Foi o ocaso de uma carreira marcada pelas dificuldades e pela superação. E que, apesar dos pesares, fez de Roberto Moreno uma das figuras mais adoradas pelo público brasileiro.

Roberto Moreno na Newman Haas, na Fórmula Indy, substituindo Christian Fittipaldi.
Roberto Moreno na Newman Haas, na Fórmula Indy, substituindo Christian Fittipaldi.
Foto: Divulgação

Nesta quarta-feira (21 de outubro) se completarão 30 anos de seu ponto mais alto, O segundo lugar no Grande Prêmio do Japão ao lado do também brasiliense Nelson Piquet se destaca como o maior momento da carreira de Moreno. Foi a última vez que dois brasileiros ocuparam os dois degraus mais altos de um pódio da Fórmula 1, sucedendo José Carlos Pace e Emerson Fittipaldi, que abriram esse caminho, no Grande Prêmio do Brasil de 1975, em Interlagos, e a Nelson Piquet e Ayrton Senna no GP do Brasil de 1986, em Jacarepaguá. Para celebrar essa data, Roberto Moreno participará de uma live aqui no Terra nesta quarta-feira (21), a partir das 17 horas, quando será entrevistado pelos componentes do canal Parabólica: Alessandra Alves, Sergio Quintanilha e Lito Cavalcanti.

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