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McLaren desrespeita proibição da FIA, que nada faz

A exemplo da Ferrari, a escuderia inglesa continua a fazer propaganda da indústria tabagista, desafiando uma proibição de 2007

17 fev 2021
22h28
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Show midiático no lançamento do novo carro teve Daniel Ricciardo e Lando Norris tocando tamborim e guitarra, mas o que chamou atenção mesmo foi a marca proibida Better Tomorrow em todo lugar..
Show midiático no lançamento do novo carro teve Daniel Ricciardo e Lando Norris tocando tamborim e guitarra, mas o que chamou atenção mesmo foi a marca proibida Better Tomorrow em todo lugar..
Foto: McLaren / Divulgação

Ao lançar seu carro para o campeonato de 2021, na última segunda-feira, a McLaren mostrou duas tradições das equipes da F1. A primeira, mais evidente, é a disposição de continuar afrontando a desafiar a proibição de propaganda tabagista nas corridas, introduzida pela FIA (Federação Internacional de Automobilismo) em 2007 e desde então desrespeitada. 

Além de suas cores alaranjada e azul pálido, o carro ostentava nas laterais, área nobre reservada ao patrocinador máster, a inscrição A Better Tomorrow. É um slogan da British American Tobacco, herdeira da Imperial Tobacco, a primeira indústria do ramo a usar os carros da Fórmula 1 como plataforma publicitária para seus produtos. 

Foi em 1968, quando a Lotus pintou os carros de Graham Hill e Jackie Oliver de vermelho e dourado, as cores do maço de cigarros Gold Leaf. O nome da equipe completava o pacote, Gold Leaf Team Lotus, estampado em letras garrafais nas laterais. A iniciativa já pegava mal desde aquela época, quando a escuderia foi acusada de se prostituir ao trocar as cores de corrida da Inglaterra, o tradicional British Racing Green, por um punhado de libras. 

Essa foi mais uma bola da McLaren por entre as pernas da FIA. Mas é bom lembrar que a McLaren não está sozinha nem é a primeira. Essa primazia cabe à Ferrari, que passou a ostentar em 2007 um código de barras claramente inspirado na marca da Marlboro, da Philip Morris International, assim que ela foi proibida por uma resolução da União Europeia. O tal código, uma claríssima propaganda subliminar, só foi (tardiamente) banido em 2010. 

A Ferrari pareceu se conformar e passou a usar apenas as cores da Marlboro. Mas em 2018 voltou a aprontar, ostentando a marca Mission Winnow, um braço da Philip Morris que produz artigos sem tabaco, mas inegavelmente ligados ao tabagismo.

Lançado no GP do Japão de 2018, o novo logotipo deu confusão. Tudo isso está muito bem relatado em uma matéria de João Henrique de Oliveira aqui mesmo no Canal Parabólica, na reportagem O silencioso retorno das marcas de cigarro à Fórmula 1.

O que é difícil dizer é se o pior é a cara de pau com que a McLaren e a Ferrari (que pretende voltar a ostentar o logo da Mission Winow em algumas etapas deste próximo campeonato) seguem desafiando a FIA ou a cara de paisagem com que a FIA engole esse desrespeito ano após ano. Parece agradecer aos céus que sejam apenas duas as equipes rebeldes. Pelo menos por enquanto...

E nada indica que haja mudanças à vista. No teste que a McLaren fez em Silverstone nesta terça-feira, o slogan A Better Tomorrow não estava no carro, mas em seu lugar via-se a marca Velo, um tipo de tabaco para ser mastigado. 

McLAREN CANTOU, DANÇOU E ESCONDEU O QUE IMPORTA 

O que ficou claro é que a intenção era dar destaque à logomarca principal no show midiático que foi o lançamento do novo carro, transmitido mundialmente pelo YouTube. Nele, Daniel Ricciardo e Lando Norris tocaram tamborim e guitarra, acompanhados por renomados instrumentistas ingleses.

E mais: Ricciardo cantou, recitou ou proferiu um rap e ainda teve a chance de se comover com um vídeo de um sobrinho seu mandando beijos, votos de vitórias e gestos de coraçõezinhos. Tudo sob holofotes que mostravam, também, o slogan proibido.

Tudo isso foi amplamente mostrado, para alegria do público. Mas do lado técnico, o que mais interessava a uma boa parte das pessoas grudadas no vídeo, nada foi revelado. Como manda a tradição da Fórmula 1: nunca se deve mostrar nada além das cores e patrocinadores dos novos carros. Todo o resto deve ficar escondido. 

Novo McLaren MCL35M foi apresentado com propaganda da marca proibida Better Tomorrow.
Novo McLaren MCL35M foi apresentado com propaganda da marca proibida Better Tomorrow.
Foto: McLaren / Divulgação

É a única maneira de se resguardar dos olhos atentos da concorrência. A cada temporada, as primeiras equipes a apresentarem suas armas fazem questão de manter suas soluções longe dos olhos e, principalmente, das lentes da concorrência. No caso da McLaren, ela protegeu o difusor e as tomadas de ar dos freios traseiros, setores afetados pelas novas regras técnicas. 

Os assoalhos sofreram um estreitamento que se inicia no meio do carro e se estende até as rodas traseiras, onde a redução chega ao máximo, 10 centímetros. Desconfia-se que o usado pela McLaren na apresentação era o do ano passado, disfarçado com um recorte na medida imposta pela FIA. O difusor teve as laterais e as divisórias reduzidas, assim como as tomadas de ar dos freios. Destes, nada se pôde ver nem fotografar.

O objetivo dessas novas regras é reduzir a pressão aerodinâmica em 10 por cento, não por acaso a mesma proporção de ganho de força descendente (a chamada down force) que as equipes obtêm tradicionalmente, ano a ano.

A razão desse jogo de esconde-esconde é que as escuderias endinheiradas começaram a trabalhar na recuperação da aderência perdida desde o ano passado, enquanto não vigorava o teto de gastos de 145 milhões de dólares. Por isso, estariam vários passos à frente. Diz-se que a Mercedes já conseguiu zerar a perda.

Mas a maioria (se não a totalidade) das que lutam com a McLaren no segundo pelotão não tinha verba suficiente para investir nessa pesquisa enquanto disputava o campeonato do ano passado. Por isso, qualquer informação, por menor que seja, pode ser muito valiosa nesta corrida atrás do prejuízo. 

Teoricamente, a McLaren não deveria se preocupar, já que neste ano contará com os motores Mercedes, os melhores da F1 atual. Mas adaptá-los ao chassi do ano passado foi um trabalho repleto de dificuldades, já que as mudanças permitidas pelas novas regras (e inspecionadas com lente de aumento pelos corpo técnico da FIA) se limitam ao estritamente necessário ao acasalamento entre motor e carro. Todo e qualquer ganho de performance foi proibido.

Como é de se esperar, os engenheiros da McLaren se dizem otimistas, mas isso parece ser apenas para uso externo. Eles admitem que não estão seguros de que o carro possa fazer jus ao otimismo despertado pela chegada do melhor motor. Isso porque ele foi feito sem o auxílio de um túnel de vento. O da sede só estará em condição de uso daqui a dois anos, pelo menos. Por enquanto, a equipe recorre ao da Toyota, na Alemanha, um projeto de mais de 10 anos, já defasado.   

Mas não é apenas a McLaren. As soluções adotadas definitivamente por todas outras equipes só serão vistas na pré-temporada, de 12 a 14 março. Como a abertura do campeonato será apenas 12 dias depois, quando se iniciarão os treinos do GP do Bahrein, já não haverá tempo para que nada seja copiado. 

Por isso, todas equipes vão guardar seus segredos a sete chaves. Como fez a McLaren. Como sempre fez a Fórmula 1.

 

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Parabólica
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