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Hamilton e Schumacher são frutos do Pacto da Concórdia

Desde 1997, quando o Pacto da Concórdia tirou poder das equipes tradicionais, Ferrari, Mercedes e Renault ganharam todos os 24 mundiais

17 nov 2020
06h00
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Os sete maiores campeões mundiais: 16 desses títulos aconteceram nos últimos 21 anos.
Os sete maiores campeões mundiais: 16 desses títulos aconteceram nos últimos 21 anos.
Foto: Divulgação

Lewis Hamilton e Michael Schumacher são os dois pilotos que têm os números mais espetaculares na Fórmula 1. Cada um deles ganhou sete títulos mundiais. Dos 14 títulos da dupla Hamilton/Schumacher, 12 foram conquistados após 1997. Este ano é importante porque foi o primeiro sob as regras do 4º Pacto da Concórdia, assinado em 1995, e que passou a vigorar em 1997. 

McLaren, Williams e Tyrrell protestaram, prevendo que o futuro seria difícil. E foi. A Tyrrell durou apenas mais dois anos e seu nome desapareceu das pistas depois do GP da Austrália de 1998. A Williams ganhou seu último título em 1997. De lá para cá, venceu apenas 11 corridas. Sua última vitória foi em 2012; a penúltima em 2004. A McLaren passou a ser dependente dos motores da Mercedes, com o qual ganhou o título de pilotos com Hamilton em 2008. A última vitória da McLaren aconteceu em 2012.

Michael Schumacher: sete títulos mundiais, cinco com a Ferrari.
Michael Schumacher: sete títulos mundiais, cinco com a Ferrari.
Foto: Divulgação

Desde o 4º Pacto da Concórdia, o dinheiro gerado pela F1 passou a ser distribuído de forma a perpetuar o poder das montadoras envolvidas na competição. Nos 435 Grandes Prêmios disputados de 1997 para cá, apenas três motores ganharam 404 corridas. Ou seja: Ferrari, Mercedes e Renault dividiram 93% das vitórias. No final de 1997, Williams, McLaren e Tyrrell assinaram o 5º Pacto da Concórdia (válido a partir de 1998), mas já tinham perdido influência perante Bernie Ecclestone e os restante da Fórmula 1.

A capacidade de Schumacher e Hamilton ao volante de um carro de Fórmula 1 não pode ser contestada. A superioridade de ambos sobre os adversários de suas respectivas épocas foi demonstrada em diversas ocasiões. Nos momentos mais difíceis, Michael e Lewis transformam vitórias impossíveis em vitórias reais. Juntos, acumulam 185 vitórias. Tampouco é inegável que Schumacher e Hamilton foram favorecidos pela enxurrada de dinheiro que possibilitou à Ferrari e à Mercedes serem superiores aos outros times.

Lewis Hamilton: sete títulos mundiais, todos com a marca Mercedes.
Lewis Hamilton: sete títulos mundiais, todos com a marca Mercedes.
Foto: Divulgação

Nunca houve na história da F1 um período com tão poucos campeões. De 1997 para cá, as marcas Ferrari, Mercedes e Renault foram campeãs em 24 das 24 temporadas (com carro próprio ou fornecendo motor). A divisão da renda da Fórmula 1 elevou os custos da categoria e mesmo marcas tradicionais encontraram dificuldade para furar o bloqueio, como Honda, Toyota e BMW. A exceção ficou por conta da Red Bull -- outra corporação gigante -- nos anos em que esteve associada à Renault.

Nos últimos 435 GPs, apenas quatro pilotos ganharam 248 corridas, o que dá um percentual de 57%. Apenas três pilotos ganharam 216 corridas, ou seja, 50%. Um total de 30 pilotos venceu GPs de Fórmula 1 de 1997 para cá. Se contarmos só os campeões (9 pilotos), eles venceram 334 corridas (ou 77%).

F1 DESDE 1997
PILOTO GP TIT VIT APR
HAMILTON 264 7 94 35,6%
SCHUMACHER 223  5 69 30,9%
VETTEL 254 53  20,9%
ALONSO 312  2 32  10,3%
ROSBERG 206 1 23  11,2%
RAIKKONEN 327 1 21 6,4%
HAKKINEN 82 2 20  24,4%
BUTTON 306 1 15 4,9%
VILLENEUVE 147 1 7 4,8%

Além de jogar os orçamentos para o espaço, o Pacto da Concórdia passou a atender interesses específicos das grandes montadoras. Como a categoria passou a ser gerida em função dos interesses das grandes marcas de automóveis, tudo foi feito para que os carros não quebrassem durante as provas, pois seria uma propaganda negativa. 

Além da durabilidade de carros e motores, os pilotos passaram a contar com áreas de escape enormes, impedindo que uma escapada de pista os tirasse da prova, e deixaram de ser os principais protagonistas para se tornarem empregados submissos aos interesses das equipes. Em várias ocasiões, as corridas foram decididas nos boxes, com ordens explícitas para que um piloto favorecesse o companheiro, seja renunciando à vitória e permitindo a ultrapassagem do segundo colocado ou desistindo de tentar uma ultrapassagem em busca do primeiro lugar.

Houve aumento significativo no número de GPs em cada temporada. Isso fez com que as carreiras dos pilotos passassem a ter maior número de corridas, um fator fundamental para os recordes de vitórias de Schumacher e Hamilton. O resultado dessa política foi a concentração de vitórias e títulos nas mãos de poucos pilotos, favorecendo também Fernando Alonso e Sebastian Vettel.

F1 DESDE 1997
CARRO VIT APR   MOTOR VIT APR
FERRARI 130 29,9%   MERCEDES 191 43,9%
MERCEDES  105  24,1%   FERRARI 131 30,1%
McLAREN 78 17,9%   RENAULT  82 18,9%
RED BULL  63 14,5%   BMW  11  2,5%
RENAULT 20 4,6%   TAG HEUER 9 2,1%
WILLIAMS 19 4,4%   HONDA 1,4%
BRAWN 8 1,8%   MUGEN HONDA 3 0,7%
JORDAN 4 0,9%   FORD COSWORTH 2 0,5%
LOTUS 2 0,5%        
BENETTON 1 0,2%        
HONDA  1 0,2%        
STEWART 1 0,2%        
BMW SAUBER 1 0,2%        
ALPHA TAURI 0,2%        
TORO ROSSO 1 0,2%        

Para chegar a esses números, debrucei-me durante meses nas estatísticas da Fórmula 1, compilando os dados de todos os pilotos vencedores de GPs desde 1950. Essa pesquisa tinha um objetivo: encontrar um caminho que possibilite a criação de um ranking histórico da F1, comparando todos os vencedores.

Ainda não cheguei à fórmula que permita comparar um Fangio e Senna, um Stewart e um Schumacher, um Piquet e um Hamilton, um Clark e um Vettel. Mas encontrei caminhos possíveis. A principal delas é que a Fórmula 1 pode ser dividida em quatro grandes fases e sete períodos. A fase abordada neste texto é a quarta, incluindo o sexto e o sétimo períodos da F1.

Um texto com as principais estatísticas das quatro grandes fases sai publicado como capítulo da coletânea “Jornalismo Esportivo do Brasil”, livros 1 e 2,, que será lançado virtualmente nesta terça-feira (17), a partir das 18 horas, no canal CJE TV do YouTube. O livro é uma iniciativa do Centro de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da USP. A organização é dos professores Luciano Maluly, Rafael Venâncio e Gustavo Longo.

Dois livros sobre Jornalismo Esportivo no Brasil: no livro 2 está o capítulo sobre Fórmula 1.
Dois livros sobre Jornalismo Esportivo no Brasil: no livro 2 está o capítulo sobre Fórmula 1.
Foto: Divulgação

 

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