PUBLICIDADE

Futuro do automobilismo é a Fórmula Indy, não a Fórmula 1

Colunista convidado: autor do livro “Pilotos em uma curva”, sobre a última corrida de Juan Manuel Fangio, diz por que prefere a IndyCar

8 out 2020 - 07h00
Ver comentários
Publicidade
Takuma Sato: vitória nas 500 M ilhas de Indianápolis com o motor Honda.
Takuma Sato: vitória nas 500 M ilhas de Indianápolis com o motor Honda.
Foto: Divulgação

Provavelmente quem está lendo a manchete deste texto está me xingando... Fãs de automobilismo, especialmente no Brasil, costumam ser fervorosos na sua defesa da Fórmula 1. Claro que é uma defesa meio que paradoxal entre “a F1 perdeu a graça depois do Senna” com “não existe outra coisa melhor em automobilismo do que Fórmula 1 e jamais terá”. Enfim…

No entanto, apaixonados e apaixonadas pelo esporte a motor - que possuem graxa e óleo correndo pelas veias – acompanharam as outras notícias e vão ver que há indícios de que tenho razão. Basta ver os eventos da semana passada nos bastidores das empresas automobilísticas e das categorias. Sim, eu estou falando da Honda...

Na sexta-feira passada (2), uma bomba caiu no mundo da Fórmula 1 e em uma das principais esperanças de alguém concorrer com a Mercedes no futuro próximo. A Honda, fornecedora de motores de Red Bull e Alpha Tauri, afirmou que não participará mais da categoria após 2021. “Ah, eles encontram outro…”, disseram. 

Bom, não é bem assim. É muito mais que está em jogo para a grande escuderia da Fórmula 1 famosa por ser a casa da grande esperança (e realidade) em termos de geração futura (e atual) na Fórmula 1: o menino (mas nem tanto) Max Verstappen. Como principal rival, a Mercedes não fornecerá motores para a Red Bull. A Ferrari está mal das pernas. A Renault... Bem, a Renault tem seus próprios problemas e alguns nem começaram ainda (Alô Alonso!).

Martin Brundle, ex-piloto e comentarista da Sky Sports (com Lewis Hamilton):  “Sempre achei que esses motores híbridos V6 atuais eram um erro porque são muito pesados, muito caros e muito complexos".
Martin Brundle, ex-piloto e comentarista da Sky Sports (com Lewis Hamilton): “Sempre achei que esses motores híbridos V6 atuais eram um erro porque são muito pesados, muito caros e muito complexos".
Foto: Divulgação

Então, a partir de 2022, a segunda potência do grid da Fórmula 1 terá que se virar para ter um motor. Além disso, o jeito que a Honda saiu foi duro. As declarações dos japoneses foram sinceramente mordazes. A empresa japonesa falou que vivemos um período único de mudanças (um a cada século), que possui um compromisso com as vitórias e inovações, logo precisa alocar seus esforços de pesquisa e desenvolvimento para o mundo da energia sustentável e de baixa emissão de carbono. “Uau! Mas não é isso que a unidade de potência híbrida da Fórmula 1 já faz?”, diria um fã incauto.

Faço aqui enquanto minhas as palavras do ex-piloto e comentarista da Sky Sports, Martin Brundle. “Sempre achei que esses motores híbridos V6 atuais eram um erro porque são muito pesados, muito caros e muito complexos. (...) Você não pode imaginar nenhum outro fabricante querendo se juntar à Fórmula 1, utilizando esse motor híbrido super caro agora, que não é relevante para seus modelos de negócios futuros. 

Motor Honda da Fórmula Indy: fabricante japonês fica até 2029 na  categoria.
Motor Honda da Fórmula Indy: fabricante japonês fica até 2029 na categoria.
Foto: Divulgação

Agora é sobre o que a F1 fará em termos de criação de uma unidade de potência empolgante para o show e os fãs. Todos nós sentimos falta dos V8 e V10. Para mim, a Fórmula 1 é entretenimento em primeiro lugar, e temos que ter uma unidade de potência que divirta e emocione”, disse Brundle em tradução fornecida pelo pessoal do F1 Mania.

De fato, a Fórmula 1 avançou muito, especialmente em termos de responsabilidade e de entretenimento socialmente consciente (tal como bem destacou a grande Alessandra Alves aqui no canal Parabólica). No entanto, ninguém consegue falar com muita convicção que ela é um esporte emocionante, competitivo e divertido tal como fora antes.

E para colocar mais uma pá de cal nos ânimos da Fórmula 1, veio uma segunda bomba no sábado (3). Após dizer que não estará mais na “maior categoria do esporte automotor mundial” (não é assim que chamamos a Fórmula 1?), a Honda aproveita e renova com a Indycar por consideráveis nove anos. Ou seja, enquanto em 2022, a Honda não estará na Fórmula 1, ela ficará pelo menos até 2029 na IndyCar…

Scott Dixon: um dos pilotos da Honda na disputa pelo título da Fórmula Indy.
Scott Dixon: um dos pilotos da Honda na disputa pelo título da Fórmula Indy.
Foto: Divulgação

Afinal, como destacou o colega Sergio Siverly, “em 2023, a Indy terá motores V6 twin-turbo e tanto a Honda quanto a Chevrolet serão fornecedoras da categoria até o fim de 2029. ‘A Honda recepciona este passo para o futuro da IndyCar, uma escolha que casa com os esforços da marca no desenvolvimento e construção de produtos de alto desempenho, elétricos que encontram-se com os desafios da indústria e desejos de nossos clientes’, disse o presidente da Honda Performance Development, Ted Klaus, ao site da IndyCar.”

(Sim, caro leitor, insira aqui gritos de sofrimento e dor, tal como naquele meme, dos fãs da Fórmula 1.)

A Honda disse na cara dura - já que não pretende entrar na altiva Fórmula E – que o futuro do esporte automotor é a IndyCar. E, “venhamos e convenhamos”, ela está certa… Enquanto 2020 temos uma temporada bem “xoxa” nas pistas da categoria dita mundial (mas com empresas  basicamente sediadas na Inglaterra), a IndyCar, dita estadunidense, mostra com o seu chassi único (italiano) e sua briga de motores (estadunidense e japoneses) que é uma categoria empolgante, com pilotos brigando pelo título até a última corrida, grande variação de posições e, pasme, uma prevalência de múltiplas nacionalidades nos cockpits.

Quem assiste a categoria na BandSports ou no DAZN, percebe que as corridas da IndyCar são empolgantes e saindo do estereótipo do “oval chato” (explicar esse engano é papel de outro texto meu). As competições e ultrapassagens em pista superam (e muito) as da Fórmula 1.

Em síntese, enquanto a Fórmula 1 parece um Grand Prix de “projetismo”, na IndyCar, nota-se que é através de uma colaboração íntima entre pilotos, engenheiros, mecânicos e chefes de equipe que a vitória se torna possível.

Josef Newgarden: batalha pelo título da Indy com motor Chevrolet.
Josef Newgarden: batalha pelo título da Indy com motor Chevrolet.
Foto: Divulgação

Leitores, não fiquem bravos comigo. Considerem este texto apenas um lembrete de alguns dos fatores que referendam a manchete que o intitula. 

Foquei brevemente apenas na questão da Honda e da competição esportiva nas pistas, mas há outras coisas que poderia mencionar e analisar. Uma delas é que a própria gestora da Fórmula 1, a Liberty Media, se transformará mais ativa na IndyCar através da Michael Shank Racing, uma escuderia novata de médio padrão. Fica assim a minha dica para os fãs de automobilismo: olhem a IndyCar, há competição boa e há uma tradição brasileira de campeões lá. Olhem até mesmo a Nascar, que brilhantemente está expandindo operações em um cenário de pandemia e crise econômica. 

Vejam que, nos Estados Unidos, sempre houve um automobilismo vibrante. Aliás, a nossa primeira vitória internacional, enquanto automobilismo brasileiro, foi com Irineu Corrêa em um oval lá no início do século XX. Um automobilismo sempre vitorioso em termos de competição.

A Fórmula 1 é importante? Sim, claro! No entanto, progressivamente, ela virou disputa de “salão”. Seus carros são mais “poderosos” (em termos, vejam o WEC), e mais inovadores (em termos, vejam a F-E), mas são cada vez menos esportivos. Se você, tal como o Martin Brundle, quer esporte e “entretenimento em primeiro lugar” com carros e motores “que divirtam e emocionem”, faça que nem os japoneses da Honda: larguem a F1 e fiquem com a IndyCar… Esses japoneses sabem das coisas!

---

*Rafael Duarte Oliveira Venancio é escritor, dramaturgo, pesquisador independente e jornalista esportivo. É Doutor em Meios e Processos Audiovisuais pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), onde também se formou Mestre em Ciências da Comunicação. Na área de automobilismo, possui artigos e livros publicados, entre eles “Pilotos em uma curva” (2017) sobre a última corrida de Juan Manuel Fangio. 

Twitter e Facebook: @rdovenancio / Instagram: @rafaeldovenancio

 

Parabólica
Publicidade
Publicidade