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Fiat vai dar um tiro no pé se matar o Uno (e não o Mobi)

Análise: chegou a hora da verdade para o Uno, mas ainda há tempo de salvá-lo da morte se a Fiat pensar bem em seu potencial

13 fev 2021
09h51
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Uno Sporting: imagina como ficaria essa versão com o novo motor 1.0 turbo de 115 cv da Fiat.
Uno Sporting: imagina como ficaria essa versão com o novo motor 1.0 turbo de 115 cv da Fiat.
Foto: Fiat / Divulgação

Fãs do Fiat Uno, uni-vos! A Stellantis pode matar o carro e isso deve ser decidido ainda este ano. Para muitos jornalistas, isso já está decretado, mas não é bem assim. Ainda há tempo de salvar o Fiat Uno e dar continuidade ao carro mais importante da história da marca italiana no mercado brasileiro. Basta que os executivos de Betim (MG) enxerguem que o problema do Uno não se chama Uno; chama-se Mobi.

A atual geração do Uno, lançada em 2010, vendia bem até 2015. A partir de 2016, quando o Mobi foi lançado e os esforços do marketing se concentraram no subcompacto, as vendas do Uno caíram pela metade. É natural, pois a Fiat acreditava que o Mobi tinha potencial para ser um campeão de vendas. Mas isso não ocorreu, como também não ocorreu com o Volkswagen Up. Pelas características do mercado brasileiro, carros muito pequenos não atendem as necessidades do consumidor.

Não se mata um carro que aumentou as vendas em plena pandemia. Foi o que aconteceu com o Fiat Uno: passou de 20 mil emplacamentos/ano para 23 mil em plena crise sanitária e econômica. Se o Uno não emplaca mais do que o Mobi, é porque a Fiat aumentou seus esforços nas vendas diretas do Mobi -- e ainda o dotou de uma interessante versão Trekking. O Uno também está concentrando seus negócios nas vendas diretas, mas não tem uma estratégia de valorização do produto.

Fiat Uno Way: sempre foi um sucesso, mas seria ainda mais uma versão Uno Trekking.
Fiat Uno Way: sempre foi um sucesso, mas seria ainda mais uma versão Uno Trekking.
Foto: Fiat / Divulgação

A suposta morte do Uno foi noticiada pela primeira vez aqui mesmo, no GUIA DO CARRO, no dia 11 de junho de 2020. Porém, uma fala do diretor de Operações Comerciais da Fiat, Herlander Zola, de que em algum momento a marca terá que decidir se a operação do Uno vale a pena, provocou uma avalanche de notícias sobre o fim do carro. Essa possibilidade já existia, conforme noticiamos em junho de 2020, mas ainda não está decretada. O Uno também é exportado para alguns países da América Latina, como Chile, Argentina, Bolívia e Uruguai. São vendas pequenas, atualmente, mas que nem o Mobi nem o Argo serão capazes de suprir.

Há pelo menos seis razões fortes para a Fiat manter o Uno em atividade no mercado brasileiro, numa eventual disputa interna com o Mobi, a saber:

  • o Uno é um projeto completo, com um tamanho (3,820 m) que permite variações desde um carro de passeio até um pequeno furgão de trabalho;
  • o Uno traz maior valor agregado, podendo atuar numa faixa de mercado mais ampla e mais lucrativa, que pode ir de R$ 50 mil a R$ 65 mil, enquanto o Mobi sai caro por R$ 49 mil;
  • o porta-malas do Uno oferece 55 litros a mais do que o do Mobi, o que o torna um carro mais interessante para famílias de classe média que precisam do carro para viajar e também para profissionais autônomos ou empresas que usam o carro como ferramenta de trabalho;
  • o Uno é mais versátil para a criação de versões especiais, como aventureiras, esportivas ou “esportivadas”;
  • o Uno pode compartilhar a plataforma CMP com os novos Peugeot 208 e Citroën C3 dentro do grupo Stellantis;
  • não há futuro para carros de porte minúsculo (como o Mobi) que não sejam elétricos ou atuem em mercados que realmente compram carros para uso exclusivamente urbano (o que não é o caso do Brasil). 
Se houver uma nova geração do Fiat Uno, ela deve seguir a linha do Fiat Panda, baseada no conceito Centoventi.
Se houver uma nova geração do Fiat Uno, ela deve seguir a linha do Fiat Panda, baseada no conceito Centoventi.
Foto: Reprodução

Por tudo isso, ainda não é hora de a Fiat decretar a morte do Uno. A exemplo do que a Volkswagen já decidiu fazer com o Gol, o Uno precisa de uma nova geração, mais moderna, e a plataforma CMP da Peugeot/Citroën vai permitir que isso aconteça. Com a nova família de motores turbo que começaram a ser produzidos em Betim ainda este ano, o Uno pode ficar muito bom se for equipado com um motor 1.0 turbo de três cilindros com 115 cavalos. 

O projeto para um novo Fiat Uno já existe. Ele é baseado na nova geração do Fiat Panda italiano, a partir do conceito Centoventi. Claro que, no Brasil, o Uno vai usar apenas o visual do Panda e não a motorização híbrida ou elétrica. Porém, a vantagem é que agora, com a fusão da FCA e da PSA, a Stellantis pode dar à Fiat a mesma plataforma que fez o sucesso do Opel Corsa na Europa. Recentemente, o diretor de marketing global da Fiat, Olivier François, disse que “não existe uma Fiat como um todo, se você não tem um Panda e um 500". Isso vale para o Brasil em relação ao Uno.

Em comparação com o Mobi, o Uno é 25,4 cm mais comprido e tem 7,1 cm a mais de distância entre-eixos. O impacto desses 32,5 cm (mais do que uma régua escolar) é enorme em termos de espaço interno, conforto, capacidade do porta-malas (+55 litros) e dirigibilidade em velocidades mais altas.

Caso queira apenas atualizar o Uno atual, a Fiat conta com 19,5 cm de vão livre para o solo na versão Way, o que faz o carro superar o Chevrolet Tracker nesse quesito (e estamos falando de um SUV). Uma versão Trekking para o Uno, altinha e reforçada, faria ainda mais sucesso do que já fez a versão Way, ainda hoje em catálogo. 

Na Europa, novo Fiat Panda será elétrico, de forma que o Uno só poderá copiar o design.
Na Europa, novo Fiat Panda será elétrico, de forma que o Uno só poderá copiar o design.
Foto: Reprodução

Atualmente, além de duas versões 1.0 de quatro cilindros com 73/75 cv de potência (gasolina/etanol) e 93/97 Nm de torque, Attractive (R$ 52,8 mil) e Way (R$ 56,4 mil), o Uno tem mais dois motores: 1.0 de três cilindros com 72/77 cv e 102/107 Nm na versão Drive (R$ 54,9 mil) e 1.3 de 101/109 cv e 134/139 Nm na versão Way topo de linha (R$ 60,5 mil). Imagina como o Uno, mesmo sem nenhuma modificação no projeto, já ficaria mais competitivo tendo o novo motor 1.0 turbo de 115 cavalos. 

Só uma diretoria de loucos abriria mão de um carro que ainda vende 23 mil unidades/ano e com a história do Fiat Uno. Se algum carro tiver que morrer dentro da linha de compactos da Fiat do Brasil, este carro não é o Uno e sim o Mobi.

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