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Voto de brasileiros no exterior pode fazer a diferença nesta eleição

20 set 2026 - 16h51
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Resumo
Com um recorde de quase 920 mil eleitores aptos fora do país — alta de 31,8% frente a 2022 —, o voto de brasileiros no exterior ganha peso estratégico em uma disputa presidencial acirrada. O contingente supera o eleitorado de estados como Acre e Amapá. Diante do histórico de abstenção acima de 50% e da polarização, campanhas de esquerda e direita intensificam a mobilização para regularizar e atrair esses votantes, influenciados tanto por relações bilaterais quanto por políticas internas do Brasil.

Em meio a disputa eleitoral acirrada, imigrantes brasileiros podem fazer a diferença nas urnas. Grupo cresceu nos últimos anos e já soma quase 1 milhão de aptos a votar.O crescimento recorde dos brasileiros aptos a votar no exterior pode fazer a diferença na eleição presidencial de outubro. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 918.876 imigrantes se registraram para participar do pleito — aumento de 31,8% em relação a 2022, seguindo a tendência de alta dos últimos anos.

Os votantes da zona eleitoral ZZ, que abrange a comunidade que vive fora do Brasil, são agora mais numerosos do que três estados da região Norte: Acre (614,3 mil), Amapá (577,5 mil) e Roraima (401,5 mil). A alta nos registros eleitorais acompanhou o crescimento da população no exterior, que se consolidou desde 2016, passando de 3 milhões para 4,9 milhões em 2023 — aumento de 63%, de acordo com o Itamaraty.

Peso do voto do exterior

Assim como em 2022, quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) superou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno por uma diferença de 2,1 milhões de votos — uma margem de 1,8% de vantagem —, a perspectiva para o pleito de 2026 é de uma votação apertada.

É o que sugerem as últimas pesquisas de intenção de voto. A mais recente delas, divulgadas pelo Instituto Datafolha nesta quinta-feira (17/09), aponta que Lula detém 39% da preferência no primeiro turno, e o senador Flávio Bolsonaro, 36%. Para o segundo turno, os dois aparecem em empate técnico, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais: Lula tem 46% e Flávio, 44%.

"Ambos atingiram o núcleo duro de mobilização de eleitores", afirma o professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Bruno Schaefer. "Quem conseguir mobilizar mais eleitores vai sair vitorioso. O espaço para isso está no meio dos indecisos que não estão satisfeitos com essas duas candidaturas. Por isso, o voto do brasileiro no exterior é interessante."

Teresa Schneider, pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), reforça que todo voto conta. "É um público com grande potencial para fazer mais diferença no processo eleitoral, porque a gente tem quase um milhão de votos aí. Isoladamente, o voto do exterior não decide o processo eleitoral, mas pode sim ser um peso relevante, pois são votos a serem disputados".

Para Schneider, ainda que haja uma tendência entre os colégios eleitorais espalhados por 134 países de que os eleitores nos Estados Unidos e no Japão, por exemplo, votem no campo da direita, e os que vivem na Europa prefiram a esquerda, essa predileção não está consolidada.

"É um eleitorado que pode ser muito móvel, porque o perfil de imigrante pode mudar de geração para geração. Isso pode servir como incentivo para que os partidos políticos disputem mais o voto dessa comunidade."

A pesquisadora lembra que, entre 2010 e 2018, os candidatos à direita do espectro político venceram no exterior: José Serra, Aécio Neves e Jair Bolsonaro. No entanto, em 2022, Lula recebeu 51,28% dos votos vindos de fora do Brasil.

Relações bilaterais e voto

As campanhas perceberam a relevância dessa parcela do eleitorado e apostam na mobilização no exterior para convencer a base de apoio a ir às urnas. O PT tem núcleos em 13 países. Em Paris, por exemplo, militantes ofereciam ajuda a eleitores para navegarem na plataforma e-título e se regularizarem para votar. Foi na Europa, aliás, onde Lula teve a maior votação em 2022: 67,2%.

Por lá, Lula mantém boas relações diplomáticas com líderes como Emmanuel Macron (França) e Pedro Sánchez (Espanha). A percepção dessa relação bilateral influencia o voto do eleitorado.

Daniele Bresser, 43 anos, está há 13 anos na Alemanha e diz que se beneficia dos acordos entre Brasília e Berlim. "Eu colho os frutos porque tenho acesso ao que considero serem privilégios que só são possíveis graças ao bom relacionamento entre os dois países. Desde os consulados brasileiros nos principais estados alemães, até o reconhecimento de diplomas brasileiros, e a possibilidade de se candidatar a vagas em órgãos públicos federais", relata.

Já Gero Bonini, que tem 44 anos e vive há dois nos EUA, diz que sua experiência no exterior o levou a comparar a segurança, infraestrutura, serviços públicos e o funcionamento das instituições entre os dois países. "Não significa que quero que seja copiado o modelo, mas a experiência daqui é um critério para avaliar o Brasil", diz. Ele acrescenta a essa conta a relação diplomática. "O próximo governante tem que ter essa responsabilidade".

O plano de governo apresentado por Lula menciona a comunidade no exterior e promete fortalecer "a assistência e a proteção consular, ampliando os mecanismos de participação da diáspora". Já Flávio Bolsonaro sustenta que, se eleito, irá reaproximar o Brasil dos Estados Unidos, Argentina e Israel, mas não menciona os residentes fora do país.

Nos Estados Unidos, maior colégio eleitoral no exterior, onde votam 265,4 mil brasileiros, 65,3% optaram por Jair Bolsonaro em 2022. Por isso, é nesse país que o bolsonarismo investe seus esforços. O irmão de Flávio, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que é secretário de Relações Internacionais do PL, orienta os conterrâneos no país a votar. "A gente pretende ir lá e fazer campanhas para regularização de título de eleitor", disse durante a posse do cargo no partido. Ele também promove encontros da direita com apoiadores pelo país.

Soberania em debate

Além do trabalho dos partidos e da militância, os candidatos também mencionam a pauta da política externa. No pronunciamento pelo Dia da Independência, Lula reiterou que "precisamos nos manter fortes e altivos, sem baixar a cabeça, para não deixarmos que o Brasil se transforme, novamente, em colônia de outras potências estrangeiras".

O Brasil é alvo de tarifas comerciais impostas pelos EUA, que também questionam o Pix. Flávio Bolsonaro chegou a agradecer ao presidente americano Donald Trump pelas tarifas. Depois, voltou atrás e disse que a declaração foi um erro. Em visita aos EUA, ele se encontrou com o chefe da Casa Branca para, segundo o senador, sensibilizá-lo.

Bruno Schaefer ressalta que a política externa se tornou uma das principais preocupações do eleitorado em 2026. "Essa não era uma questão que mobiliza eleitores, mas isso está se modificando pelas posições adotadas pelos Estados Unidos."

Já Teresa Schneider assinala que "a comunidade no exterior tem uma carência de identidade nacional. Então, as forças políticas que mobilizam o nacionalismo podem ter mais força perante essa comunidade. Isso ajuda a entender por que populistas que mobilizam o nacionalismo têm mais vitória no exterior. É uma comunidade que tem interesse em reafirmar a sua identidade nacional."

Reverter a abstenção

Essas estratégias das campanhas visam reverter a abstenção entre os brasileiros no exterior, que historicamente se mantém em patamares acima de 50%. "Combater a abstenção com mobilização vai ser central", frisa Bruno Schaefer. "Em 2022 a abstenção foi menor do que nos anos anteriores, porque foi uma eleição que mobilizou mais gente. O que são 1 milhão de votos, pode se tornar 500 mil votos válidos".

As distâncias até os locais de votação e longas filas costumam afugentar os eleitores. A família de Yuka Kacuta mora na província de Saitama, no Japão, e vai ter que viajar para Tóquio para votar. "De carro, leva uma hora e meia, e o custo total dá pelo menos 10 mil ienes, porque tem que pagar pedágio, estacionamento, gasolina. Metade da família diz que prefere pagar a multa, que é mais barato, mas a outra metade vem mesmo assim."

Teresa Schneider explica que quando os eleitores percebem seu voto como decisivo, tendem a comparecer mais às urnas. No pleito de 2022, a abstenção caiu 4,3 pontos percentuais na comparação com 2018. "Era uma eleição entre democracia e ditadura, os dois lados faziam esse entendimento do processo eleitoral", afirma.

Ida às urnas

Mas essa parcela do eleitorado se interessa também por propostas de políticas públicas voltadas ao Brasil, quanto à saúde, educação e economia. "Mesmo morando aqui nos EUA, continuo tendo família, amigos, projetos, negócios, é uma ligação muito forte. O que acontece no Brasil ainda tem um impacto na minha vida. Então, olho a capacidade que o candidato tem de entregar essas propostas", argumenta Gero Bonini.

O primeiro turno será em 4 de outubro e neste ano ocorre em 186 cidades fora do Brasil. Daniele Bresser já faz planos para a data e promete ser uma das primeiras na fila de votação. "Se eu estivesse no Brasil, eu iria desanimada. Mas como sou expatriada, é o contrário: vou com alegria, tocando hino nacional no carro, e faço meu namorado vir e cantar junto. É um momento que me emociona, de conexão com a minha terra."

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