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Violência e insegurança pública são os temas que mais mobilizam eleitorado, sem importar posição política

O relatório Medo do crime e eleições 2026 (produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública - FBSP), publicado no início de maio, oferece um retrato sintomático do Brasil contemporâneo: 96,2% dos brasileiros…

28 mai 2026 - 10h43
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O relatório Medo do crime e eleições 2026 (produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública - FBSP), publicado no início de maio, oferece um retrato sintomático do Brasil contemporâneo: 96,2% dos brasileiros relatam algum tipo de medo relacionado à criminalidade, como golpes digitais, roubos à mão armada e violência letal.

Mais do que um sentimento restrito a grupos ou a contextos específicos, o estudo sugere que o medo do crime passou a funcionar como um mecanismo organizador do cotidiano, influenciando comportamentos, percepções e prioridades políticas. Independentemente da posição política, a violência é percebida como um dos desafios mais urgentes do país e como a preocupação mais transversal do eleitorado brasileiro.

Esses achados dialogam diretamente com os resultados das pesquisas de opinião mais recentes que apontam a violência como a principal preocupação dos brasileiros. A pesquisa Genial/Quaest , divulgada em 13 de maio, revela que, em um país marcado por intensa polarização política - e também afetiva -, há ao menos um ponto de convergência entre os eleitores brasileiros.

Embora meçam fenômenos distintos, ambos os indicadores sugerem a crescente centralidade da insegurança na vida cotidiana e na agenda política do país. Os dados do FBSP se referem ao medo do crime, neste caso mais associado a percepções derivadas da experiência cotidiana. Já a Genial/Quaest aborda a violência como preocupação política vinculada à sua saliência no debate público.

De maio de 2025 a maio de 2026, como mostra a Genial/Quaest, a violência se consolidou como a principal preocupação da população, superando temas tradicionalmente centrais do debate público, como corrupção, saúde, economia e educação.

Como todo indicador de opinião, há oscilações de intensidade, mas não de centralidade: o tema permanece no topo ou muito próximo dele durante praticamente todo o período analisado, frequentemente com vantagem significativa sobre outras agendas. Essa persistência não é trivial e aponta para um sinal politicamente relevante sobre as prioridades do eleitorado e os temas com maior capacidade de mobilização no debate político e eleitoral.

Pauta transversal

A centralidade da violência se torna ainda mais significativa quando os dados são observados a partir do posicionamento político dos entrevistados. Em um contexto político frequentemente descrito como profundamente polarizado, seria razoável esperar uma fragmentação também nas prioridades do eleitorado. Mas não é isso que os dados evidenciam. Embora existam diferenças importantes entre os grupos ideológicos, a violência aparece como preocupação dominante - ou ao menos altamente saliente - entre eleitores de esquerda, independentes e de direita, conforme mostra o gráfico a seguir.

Prioridades por grupo ideológico

Entre os eleitores de Lula, a violência lidera com folga, alcançando 36% em maio de 2026. Supera temas sociais, saúde e corrupção e atinge 29% entre a esquerda não lulista.

No grupo independente, o mais volátil do ponto de vista eleitoral, o padrão é semelhante: a violência ocupa a primeira posição (31%), indicando a insegurança pública como um problema com forte potencial de mobilização política e eleitoral.

Mesmo entre eleitores da direita e bolsonaristas, a insegurança pública permanece em patamares elevados e se destaca entre os temas centrais, muito à frente de questões como saúde, educação e economia. Nesses segmentos, a corrupção ganha protagonismo e, nos últimos meses, chega a superar a violência como principal preocupação.

Em cinco meses, tema que mais oscilou foi a corrupção

Uma forma de observar o caráter transversal da violência é comparar a intensidade da variação das preocupações entre os grupos ideológicos.

Ao calcular o coeficiente de variação entre janeiro e maio de 2026, a violência aparece como o tema com menor oscilação entre os grupos políticos (barra azul no gráfico abaixo), combinando alta saliência e relativa estabilidade independentemente do posicionamento ideológico.

Em contraste, temas como corrupção (barra marrom) apresentam variação significativamente maior entre os diferentes segmentos do eleitorado, assumindo maior centralidade conforme a orientação política dos entrevistados, como mostra o gráfico a seguir.

Educação, economia, problemas sociais e saúde mantiveram suas posições de modo mais estável de acordo com o viés ideológico.

Oscilação das principais preocupações de janeiro a maio

Preocupações compartilhadas, abordagens diferentes

Os dados sugerem que a polarização política reorganiza a hierarquia das prioridades, mas não elimina preocupações compartilhadas. Enquanto a corrupção tende a assumir maior protagonismo em segmentos específicos do eleitorado, a violência permanece relativamente estável entre diferentes grupos ideológicos.

Isso significa que propostas, narrativas e percepções de capacidade de enfrentamento da insegurança pública tendem a ganhar espaço crescente na disputa presidencial.

Nesse contexto, o lançamento do programa Brasil Contra o Crime Organizado pelo governo federal, no dia 12 de maio, pode ser interpretado como um indicativo da crescente centralidade da segurança pública na agenda política e nas estratégias eleitorais dos candidatos à Presidência. O programa prevê o investimento de R$ 11,1 bilhões destinados à desarticulação financeira de facções, ao fortalecimento do sistema prisional, à qualificação das investigações e ao combate ao tráfico de armas.

Mas o fato de a violência aparecer como uma preocupação compartilhada não significa consenso automático sobre as respostas ao problema. Pesquisa recente do Instituto Sou da Paz, publicada em 18 de maio, sugere que, embora o medo da criminalidade seja amplamente disseminado, a maioria dos brasileiros tende a apoiar soluções associadas ao fortalecimento da capacidade estatal e à melhoria das instituições de segurança pública, mais do que respostas exclusivamente armamentistas ou punitivas. A mesma pesquisa mostra que a frase "bandido bom é bandido morto", frequentemente mobilizada no debate público, encontra adesão de apenas 20% dos entrevistados, enquanto 73% afirmam que criminosos devem ser julgados e presos pelos seus crimes.

Anseio por soluções mais efetivas

Da mesma forma, a maior parte da população (55%) acredita que o país precisa aplicar corretamente as leis já existentes, percentual superior aos dos que defendem o aumento das penas (39%). Além disso, 82% apoiam o uso de câmeras corporais por policiais e 65% defendem a necessidade de uma polícia "melhor e mais preparada".

Em relação ao armamento, os dados mostram que 77% acreditam que armas legalmente adquiridas podem acabar sendo utilizadas em atos violentos após entrarem no mercado ilegal, enquanto 73% avaliam que mais armas em circulação tendem a aumentar a violência. Em conjunto, esses resultados sugerem que parte importante do eleitorado rejeita respostas simplistas e violentas para um problema tão complexo.

Eleições costumam ser definidas pela capacidade dos candidatos de traduzir preocupações públicas em agendas políticas convincentes. Em um país polarizado, candidatos de esquerda e de direita dificilmente poderão ignorar uma preocupação que mobiliza, de forma transversal, diferentes segmentos do eleitorado. O desafio será traduzir essa preocupação em propostas de políticas públicas capazes de atender às expectativas do eleitorado.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Caio Cardoso de Moraes é também pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Governança da Segurança (LEGS), na Universidade Estadual de Londrina.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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