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Venezuela segue cartilha dos EUA nos 100 dias após queda de Maduro

15 abr 2026 - 09h06
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Depois de derrubar Maduro, EUA apresentaram plano de três fases para consolidar a mudança de regime. Novo governo de Delcy Rodríguez já avançou em duas delas.Na manhã de 3 de janeiro, forças especiais dos Estados Unidos capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas. O governo da Venezuela, liderado pela vice-presidente Delcy Rodríguez, condenou a ação como um sequestro e declarou resistência aos EUA.

Mas o tom em Caracas mudou rapidamente. No dia seguinte à operação, o presidente dos EUA, Donald Trump, expressou sua convicção de que Rodríguez estaria pronta para fazer "o necessário para tornar a Venezuela grande novamente".

De fato, naquele mesmo dia a presidente interina fez um convite a Washington para "trabalhar em conjunto em uma agenda de cooperação". Pouco depois, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, apresentou um plano de três fases para colocar a ideia em prática.

Fase 1: Estabilização

Após 100 dias no cargo, a presidente interina parece já ter dominado a fase inicial ao preencher o vácuo de poder deixado pela saída de Maduro. Ela tomou posse perante a Assembleia Nacional em 5 de janeiro, com a aprovação dos militares e do Supremo Tribunal. Seu irmão, Jorge Rodríguez, já era havia algum tempo o presidente do Legislativo.

Em poucas semanas, Delcy Rodríguez renomeou pelo menos doze cargos importantes no alto escalão do governo. Em março, o mais proeminente membro do gabinete, o ministro do Exterior Vladimir Padrino López, teve de deixar o cargo, provavelmente devido ao fiasco em torno da captura do presidente.

Ele foi substituído por Gustavo González López, ex-chefe da temida agência de inteligência Sebin, a quem Rodríguez já havia nomeado chefe de sua guarda pessoal no início de janeiro. Até o momento, não houve disputa pelo poder e o governo Rodríguez parece estar consolidado.

Caracas "dançando conforme a música" de Washington?

Apesar das inúmeras negativas de Caracas, o governo local segue, em grande parte, a cartilha de Rubio. O tom em relação a Washington também mudou. Em entrevista ao jornal espanhol El País no início de abril, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional e irmão da presidente, afirmou que a cooperação com o governo dos EUA está sendo conduzida de forma bastante profissional.

Embora tenha insistido que não estavam recebendo nenhuma diretriz específica de Washington, o simples fato de o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) enaltecer a cooperação com os "imperialistas estadunidenses" é tão notável quanto o súbito entusiasmo em torno das reformas.

Fase 2: Recuperação econômica

Por mais de uma década, o governo do PSUV, sob Nicolás Maduro, não conseguiu reduzir a inflação a um nível tolerável, muito menos colocar a economia venezuelana em uma trajetória de crescimento adequada. Agora, em poucas semanas, Delcy Rodríguez abriu caminho para que investidores privados estrangeiros tenham acesso ao setor petrolífero venezuelano.

Com isso, ela não apenas aumentou as esperanças em seu próprio país de que a economia da Venezuela possa se estabilizar. A agência de classificação de risco Moody's também considera que o país já está em uma "trajetória de estabilização".

No final de março, através de uma mensagem em vídeo enviada a conferência de investidores em Miami, Rodríguez fez um apelo para atrair capital estrangeiro para investimentos em setores essenciais como como petróleo, bancos, construção e seguros, bem como na indústria de transformação.

Pobreza, o problema mais urgente na Venezuela

Por mais chocante que o ataque dos EUA à soberania da Venezuela possa ter sido para muitos no país, não houve grandes protestos. Muitos até ficaram satisfeitos com a saída de Maduro, relatou Juan Forero, chefe da sucursal sul-americana do The Wall Street Journal (WSJ), à revista Americas Quarterly, após visitar o país em fevereiro: "Eles estavam confiantes de que as coisas melhorariam e que a economia voltaria a funcionar."

E é justamente isso que importa para a maioria. A Venezuela vem sofrendo com a hiperinflação desde 2017. No ano passado, a taxa ficou em cerca de 500% - o que significa que 100 bolívares dos salários de janeiro de 2025 valiam apenas 20 bolívares quando Maduro foi deposto. Dependendo do método de medição utilizado, entre 50% e 80% dos domicílios viviam na pobreza no ano passado.

Uma pesquisa do instituto Gallup realizada em meados de 2025 mostrou que 64% dos entrevistados afirmaram que os problemas econômicos do país eram sua maior preocupação. Já 14% consideraram a situação política em si o seu principal problema. Apenas 1% priorizou a segurança - isso, em um país com uma das mais altas taxas de homicídios do mundo.

Fase 3: Transição democrática

O governo, por sua vez, está bem ciente disso. "O mais importante agora é a economia", enfatizou Jorge Rodríguez no início de abril na entrevista ao El País. Eleições democráticas deverão ocorrer em um dado momento, mas não se sabe ainda quando e em que formato.

A repressão também continua. Segundo dados da organização Foro Penal, cerca de 500 presos políticos foram libertados desde janeiro. No entanto, um número semelhante de pessoas ainda permanece encarcerado.

"As reformas implementadas até agora não visam necessariamente a abertura e a democratização, mas sim a manter o governo interino no poder indefinidamente", afirma Victor M. Mijares, cientista político da Universidade dos Andes, na Colômbia.

Atualmente, o PSUV provavelmente teria poucas chances de vencer novas eleições, na avaliação de Mijares, acrescentando que sua última vitória eleitoral, em meados de 2024, foi altamente controversa. A oposição, segundo sua própria contagem de votos, sustenta que seu candidato teria vencido o pleito por ampla maioria. "No entanto, uma recuperação econômica perceptível poderia mudar esse cenário."

O governo de Delcy Rodríguez, portanto, estaria ganhando tempo, avalia Forero. Isso também ocorre na esperança de que, com o tempo, os Estados Unidos - no mais tardar, sob um novo presidente - acabem perdendo o interesse na democratização da Venezuela. Afinal, os EUA já deram um sinal de boa vontade ao aliviar as sanções.

Os EUA vão exigir a fase 3?

O cientista político Mijares não acredita que essa estratégia possa dar certo. Por um lado, alguns atores do governo americano levam muito a sério a luta contra o socialismo na América Latina - sobretudo o secretário de Estado Rubio, filho de cubanos exilados.

De acordo com o analista, a pressão adicional vem da economia americana, particularmente da indústria petrolífera, que insiste no Estado de Direito na Venezuela. Para Trump, a democratização da Venezuela é uma espécie de plano para uma "mudança de regime lenta, porém menos custosa".

Por outro lado, o governo venezuelano enfrenta um dilema. "Rodríguez precisa criar o arcabouço legal necessário para a entrada de capital, algo que, na prática, ela não poderia oferecer como líder de um governo de transição", pontua.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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