Vacinas contra a COVID-19 ajudam o sistema imune a detectar e combater tumores
Estudo mostrou que os pacientes com câncer que receberam uma vacina de mRNA contra a COVID-19 apresentaram uma sobrevida significativamente maior
Estudos recentes revelam que vacinas de mRNA contra a COVID-19 podem potencializar tratamentos oncológicos com imunoterapia. Ao gerar um estado de alerta no organismo, os imunizantes tornam tumores ocultos visíveis às defesas corporais. Essa sinergia aumentou significativamente a sobrevida de pacientes com melanoma e câncer de pulmão avançado — neste último, de 21 para 37 meses —, abrindo caminho para novas estratégias no combate ao câncer com o uso da tecnologia de RNA mensageiro.
Quando pensamos no sistema imune, costumamos imaginá-lo lutando contra vírus ou bactérias. No entanto, ele também funciona como uma equipe de segurança que patrulha constantemente uma cidade em busca de atividades suspeitas. Todos os dias surgem em nosso corpo milhares de células com mutações potencialmente perigosas que poderiam dar origem a tumores, mas a maioria é eliminada antes mesmo de percebermos sua existência. Mas se nossas defesas são capazes de detectar células cancerosas, por que o câncer surge?
A resposta é que os tumores são especialistas em passar despercebidos. Ao contrário dos vírus e das bactérias, claramente estranhos ao nosso organismo, as células tumorais provêm do nosso próprio corpo. Embora acumulem alterações que as tornam perigosas, conservam muitas características normais. E isso dificulta que o sistema imune as identifique como uma ameaça.
Hoje sabemos que a evolução de um câncer não depende apenas das células tumorais, mas também da complexa interação que elas mantêm com o sistema imune.
A revolução da imunoterapia
Durante décadas, os tratamentos contra o câncer basearam-se na cirurgia, na radioterapia e na quimioterapia. Nos últimos anos, a imunoterapia trouxe uma ideia diferente para a prática clínica. Em vez de atacar o tumor diretamente, por que não ajudar o próprio sistema imune a fazer o trabalho?
As células imunes dispõem de mecanismos de controle que atuam como freios para evitar que uma resposta excessiva danifique tecidos saudáveis. O problema é que alguns tumores aprenderam a se aproveitar destes controles para se esconder. Imaginemos um carro da polícia perseguindo um criminoso. Mesmo que o motor funcione perfeitamente e o veículo tenha combustível suficiente, a perseguição não chegará muito longe se o freio permanecer acionado. Os chamados "inibidores de pontos de controle imune" liberam esse freio e permitem que o sistema imune volte a agir contra o tumor.
Mas há uma limitação importante. Para que essa estratégia funcione, o sistema imune precisa ter detectado previamente a presença do câncer. Por isso, os pesquisadores distinguem entre tumores "quentes", facilmente reconhecíveis por nossas defesas, e tumores "frios", que passam praticamente despercebidos.
Fazer com que esses últimos se tornem visíveis é um dos grandes desafios da oncologia atual.
A surpresa das vacinas de mRNA
É aqui que entra em jogo a pergunta que buscamos responder neste artigo. Uma vacina projetada para prevenir uma infecção viral pode ajudar a combater o câncer?
A pergunta parece estranha, mas um estudo recente sugere que as vacinas de RNA mensageiro (mRNA) desenvolvidas contra a COVID-19 poderiam potencializar a eficácia de alguns tratamentos oncológicos. A descoberta não significa que essas vacinas curem o câncer por si só. O que elas fazem é algo igualmente interessante: parecem ajudar o sistema imune a reconhecer tumores que antes passavam despercebidos.
Representação da possível sinergia entre a vacinação contra a COVID-19 e a imunoterapia baseada em inibidores de pontos de controle imune. Imagem de autoria própria criada com BioRender.com.Após a vacinação, o organismo entra temporariamente em estado de alerta. Embora essa resposta seja direcionada contra o vírus, seus efeitos podem se estender além da infecção.
É como se acendessem as luzes de um quarto escuro e, de repente, o sistema imune pudesse ver o que antes permanecia escondido. O resultado é que tumores anteriormente invisíveis se tornam detectáveis. Em outras palavras, eles passam de "frios" para "quentes".
Duplo golpe: vacina e imunoterapia
Uma vez que o tumor tenha sido identificado, a imunoterapia pode desdobrar todo o seu potencial. Mas o tumor não fica passivo. Ao detectar a pressão do sistema imune, ele tenta se esconder novamente, ativando mecanismos que freiam a resposta defensiva. E é aqui que surge a possível sinergia. A vacina ajuda o sistema imune a identificar tumores que antes passavam despercebidos, enquanto os inibidores de pontos de controle impedem que o câncer reative esses freios.
Os pesquisadores analisaram pacientes com câncer de pulmão ou melanoma tratados com inibidores de pontos de controle imune. Os pacientes que haviam recebido uma vacina de mRNA contra a COVID-19 por volta do início do tratamento apresentaram uma sobrevida significativamente maior. Em pessoas com câncer de pulmão avançado, a sobrevida média aumentou de 21 para 37 meses. Resultados semelhantes foram observados em pacientes com melanoma, o que sugere que o fenômeno poderia se estender a diferentes tipos de tumores.
Em resumo, o resultado é uma espécie de duplo golpe: a vacina coloca o sistema imune em estado de alerta, enquanto a imunoterapia impede que o tumor o iniba. Quando ambas estratégias atuam ao mesmo tempo, a resposta antitumoral parece ser mais eficaz.
Além da pandemia
A pandemia acelerou o desenvolvimento das vacinas de RNA mensageiro e demonstrou que essa tecnologia poderia chegar rapidamente a milhões de pessoas. Agora, estudos como o que explicamos sugerem que suas aplicações poderiam ir muito além das doenças infecciosas.
Compreender como essas vacinas modulam o sistema imune poderia abrir caminho para novas estratégias para aprimorar os tratamentos já existentes, embora transformar essas ideias promissoras em ferramentas clínicas ainda exija anos de pesquisa.
Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.
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