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Uma breve história da dor humana

Embora a dor possa ser universal, a forma como a vivenciamos está longe de ser uma experiência comum entre todas as pessoas

6 jul 2026 - 19h11
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Ao longo da história, cultura, religião e crenças sociais moldaram a forma como as pessoas falam sobre a dor e o sofrimento físico e reagem a ele, e muitas dessas ideias ainda hoje nos influenciam. Zwiebackesser/Shutterstock
Ao longo da história, cultura, religião e crenças sociais moldaram a forma como as pessoas falam sobre a dor e o sofrimento físico e reagem a ele, e muitas dessas ideias ainda hoje nos influenciam. Zwiebackesser/Shutterstock
Foto: The Conversation

A dor é uma das poucas coisas que todos nós experimentamos, desde bater o dedo do pé no pé da mesa até acordar com dor nas costas. Todos nós sabemos como é sentir dor.

Mas embora a dor seja uma experiência universal, a maneira como a compreendemos mudou drasticamente ao longo do tempo.

As sociedades antigas talvez atribuíssem a dor à entrada de demônios no corpo pelo nariz ou pelas orelhas, mas hoje sabemos que a dor está mais relacionada às terminações nervosas e à biologia.

Os tratamentos para a dor também evoluíram bastante. Enquanto nossos ancestrais talvez tentassem espirrar, vomitar ou até mesmo urinar para se livrar da dor, hoje é muito mais provável que tomemos medicamentos para aliviar nosso sofrimento.

Mas por mais estranhos que esses "tratamentos" antigos possam parecer hoje, eles revelam algo importante sobre a dor: ela nunca é apenas uma sensação física. Ao longo da história, a cultura, a religião e as crenças sociais moldaram a forma como as pessoas falam sobre o sofrimento e reagem a ele — e muitas dessas ideias ainda nos influenciam.

De fato, depois de mais de 30 anos estudando a dor, uma coisa ficou clara para mim: embora a dor seja universal, nossa experiência dela está longe de ser.

A dor na Antiguidade

Para compreender as raízes de como pensamos sobre a dor hoje, é útil voltar no tempo e ver como as culturas antigas a interpretavam.

Em muitas culturas antigas, por exemplo, as pessoas acreditavam que a dor era causada por forças externas. Os tratamentos baseavam-se em rituais ocultos, amuletos ou na tentativa de drenar fluidos "enfeitiçados" do corpo para expulsar tais forças.

Os antigos egípcios acreditavam que, se você não tivesse se machucado de forma óbvia (ou seja, sem ossos quebrados nem feridas visíveis), então claramente algo mais sinistro estava em ação. Podiam ser os deuses ou talvez um espírito errante da morte que tivessem decidido fazer uma visita indesejada ao seu corpo.

Os antigos egípcios tratavam feridas com mel e pele de rã fervida em óleo. Meum Mare/Pexels, FAL
Os antigos egípcios tratavam feridas com mel e pele de rã fervida em óleo. Meum Mare/Pexels, FAL
Foto: The Conversation

Outras culturas tentavam explicar a dor em termos mais físicos, em vez de espirituais. Os antigos gregos, incluindo médicos como Hipócrates, acreditavam que a dor e a doença surgiam quando os "quatro humores" do corpo — sangue, fleuma, bile amarela e bile negra — ficavam fora de equilíbrio. Assim, curandeiros usavam remédios à base de plantas e animais para tentar restaurar a harmonia dos humores.

Julgamento moral

Na Idade Média, a dor adquiriu um significado moral e religioso.

Por toda a Europa, conventos e mosteiros frequentemente serviam como os primeiros hospitais e tinham acesso a substâncias poderosas para o alívio da dor, como o ópio. Mas a dor nem sempre era tratada.

Isso porque muitos cristãos acreditavam que o sofrimento era um teste de fé, enquanto outros o viam como um caminho para a purificação espiritual.

Como resultado, suportar a dor era considerado uma virtude. Assim, em vez de buscar alívio, os que sofriam eram frequentemente encorajados a suportar seu desconforto com paciência e devoção.

Ecos dessas crenças ainda podem ser observados hoje. Por exemplo, algumas mulheres optam por não usar analgésicos durante o parto devido à ideia de que a dor do parto é uma parte significativa ou necessária da experiência.

Aguentar firme

De fato, a ideia de que o sofrimento deve ser suportado não desapareceu com o enfraquecimento da influência da religião. Em muitas sociedades, ela simplesmente encontrou um novo lar na filosofia.

Se você já sentiu pressão para "aguentar firme" quando estava doente ou ferido, talvez reconheça a influência do estoicismo. Em sua essência, está a ideia de que nem sempre podemos controlar a dor, mas podemos controlar como reagimos a ela.

Algumas mulheres ainda optam por recusar o alívio da dor durante o parto devido às suas crenças religiosas. christinarosepix/Shutterstock
Algumas mulheres ainda optam por recusar o alívio da dor durante o parto devido às suas crenças religiosas. christinarosepix/Shutterstock
Foto: The Conversation

Em muitas partes do mundo, até hoje suportar a dor em silêncio pode ser visto como um sinal de resiliência e autocontrole, com as pessoas frequentemente incentivadas a minimizar seu desconforto e evitar fazer alarde. Isso ocorre apesar do fato de que as manifestações verbais de dor são uma forma comum de os seres humanos criarem laços, e pesquisas mostram que as exclamações humanas de dor são semelhantes em todo o mundo.

Portanto, quer você goste de expressar sua dor ou prefira mantê-la em segredo, uma coisa é certa: a maneira como pensamos e até mesmo sentimos nossa dor foi diretamente influenciada pela história da Humanidade.

E embora a maioria de nós não culpe mais demônios ou punições divinas por nossas dores e doenças, ainda estamos, de muitas maneiras, apenas tentando dar sentido ao nosso sofrimento — da mesma forma que nossos ancestrais faziam.

Este artigo foi publicado como parte de uma parceria entre o The Conversation e o Videnskab.dk, onde os artigos também são publicados em dinamarquês.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Lars Arendt-Nielsen não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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