Trump volta a atacar o Pix: entenda o que os EUA pretendem fazer contra o sistema de pagamento
Relatório comercial de Washington cita sistema brasileiro como barreira desleal e abre caminho para possíveis retaliações tarifárias contra exportações
Uma nova onda de incertezas paira sobre a economia brasileira após os Estados Unidos retomarem as críticas diretas ao sistema de pagamentos instantâneo nacional. Quase dez meses depois de iniciarem uma investigação comercial contra a ferramenta, o governo de Donald Trump voltou a alfinetar o Pix no mais recente relatório do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). O documento de 2026, que lista barreiras comerciais em mais de 60 países, cita nominalmente a plataforma brasileira como uma prática que prejudica a competitividade de empresas americanas de pagamentos eletrônicos, reacendendo o debate sobre possíveis sanções econômicas contra o país.
A menção específica no National Trade Estimate Report aponta que o fato de o Banco Central do Brasil deter, operar e regular o sistema cria um cenário de tratamento preferencial. Segundo o texto oficial, "Partes interessadas dos EUA expressaram preocupação com o fato de o Banco Central do Brasil conceder tratamento preferencial ao pix, o que prejudica os fornecedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA". A agência americana destaca ainda a obrigatoriedade do uso do sistema por grandes instituições financeiras, o que é visto por Washington como uma barreira ao livre mercado.
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— Governo do Brasil (@govbr) August 28, 2025
Entenda as possíveis retaliações comerciais e os riscos para o país
Diante desse cenário, a grande dúvida do mercado é o que os americanos podem fazer de prático contra uma tecnologia que é soberana em território brasileiro. Especialistas em direito econômico são enfáticos ao afirmar que os Estados Unidos não possuem jurisdição para interferir diretamente no funcionamento do Pix. No entanto, as armas de Washington são potentes no campo comercial, baseadas na seção 301 do Trade Act de 1974. Isso significa que, em vez de desligar o sistema, o governo Trump pode impor um novo tarifaço sobre exportações brasileiras ou suspender benefícios tarifários históricos que facilitam a entrada de produtos nacionais nos portos americanos.
A especialista Camila Villard Duran, professora na ESSCA School of Management, observa que a estratégia americana é mais política do que técnica. "Trata-se, portanto, mais de um mecanismo de pressão externa e econômica sobre o Estado brasileiro do que um poder regulatório sobre a infraestrutura de pagamentos em si", destaca Duran. Para ela, o Brasil não é um caso isolado, já que países como Índia e Tailândia também enfrentam questionamentos semelhantes por promoverem sistemas domésticos que reduzem a dependência de redes privadas estrangeiras, como as gigantes de cartões de crédito.
O posicionamento do governo brasileiro e o futuro da soberania digital
O governo brasileiro tem reagido com firmeza às pressões externas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou publicamente a importância da ferramenta para a inclusão financeira e a soberania tecnológica do país. Em declarações recentes, o mandatário foi categórico ao afirmar que "o Pix é do Brasil" e assegurou que "ninguém vai fazer a gente mudar o Pix". O apoio ao modelo brasileiro ultrapassou fronteiras, recebendo elogios até do presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que defendeu a expansão do sistema para outras nações da América Latina como forma de integração regional.
Apesar das críticas no relatório, o ambiente diplomático atual entre Lula e Trump é considerado estável por interlocutores, o que pode abrir espaço para negociações que evitem medidas drásticas. Renê Medrado, especialista em comércio internacional, pondera que o governo americano costuma usar essas investigações como moedas de troca em negociações mais amplas, que envolvem desde o setor de etanol até questões ambientais. "O alcance dessas medidas dependerá muito mais da dinâmica da política bilateral e da eficácia da diplomacia brasileira", conclui a professora Camila Villard Duran. O Pix hoje representa não apenas eficiência, mas um modelo de infraestrutura pública que desafia o domínio de redes financeiras globais.