"Trump não foi eleito imperador do mundo", diz Lula a revista alemã
Em entrevista à revista alemã "Der Spiegel", Lula critica presidente dos EUA por "ameaçar outros países com guerra o tempo todo" e afirma que descartou enviar petróleo a Cuba para evitar impacto negativo na Petrobras.O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou Donald Trump por "ameaçar outros países com guerra o tempo todo" e declarou que o análogo americano não foi eleito "imperador do mundo" em entrevista publicada nesta quinta-feira (16/04) pela revista alemã Der Spiegel. A entrevista foi divulgada no mesmo dia em que o líder brasileiro embarcou para um giro na Europa que inclui uma etapa de dois dias na Alemanha.
"Trump não foi eleito imperador do mundo. Ele não pode ficar ameaçando outros países com guerra o tempo todo. Precisamos colocar este mundo em ordem, que está prestes a se transformar em um campo único de batalha", disse Lula, ao ser questionado pelos repórteres sobre o futuro do multilateralismo num mundo envolvido em disputas que envolvem China, Rússia e Estados Unidos.
Lula também disse ter pedido ao Xi Jinping, Vladimir Putin e Emmanuel Macron - respectivamente, líderes de China, Rússia e França, a quem chamou de "meus amigos" - para que fosse convocada uma reunião do Conselho de Segurança da ONU para que Trump fosse instado a discutir o conflito no Irã, mas que ninguém "deu ouvidos".
"É como se estivéssemos à deriva em alto mar, em um navio sem capitão", afirmou o presidente da República.
"Não pode ser que Trump comece uma guerra com o Irã e que quem acabe pagando a conta dessa guerra sejam os pobres da África ou da América Latina, que terão de gastar mais dinheiro com feijão, carne e verduras. O secretário-geral da ONU, António Guterres, deveria convocar imediatamente uma Assembleia Geral Extraordinária para que Trump, Putin e os outros prestem contas", acrescentou Lula.
Outra crítica foi direcionada à composição do Conselho de Segurança, que, para o chefe do Executivo brasileiro, deveria ser alterada "imediatamente", incluindo como membros permanentes representantes da África, Oriente Médio, o próprio Brasil ou a Alemanha.
"A Carta das Nações Unidas estabelece que o Conselho de Segurança foi criado para preservar a paz no mundo. Como você pretende explicar a alguém que, justamente, os cinco membros permanentes [Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido] são os maiores produtores de armas? São eles que possuem armas nucleares e travam guerras. A França e o Reino Unido intervieram na Líbia, os EUA invadiram o Iraque, a Rússia atacou a Ucrânia, Israel é responsável pela destruição de Gaza - e agora os EUA e Israel estão em guerra contra o Irã", criticou Lula.
Petrobras e Cuba
Questionado pelos jornalistas alemães sobre uma potencial ajuda energética brasileira a Cuba, o presidente brasileiro apontou que não enviou petróleo e derivados apara auxiliar o país caribenho na atual crise energética e pressão dos Estados Unidosporque a medida poderia ter consequências negativas para aPetrobras em Wall Street, onde a empresa é listada na bolsa de valores de Nova York.
"Nossas relações com Cuba são tão boas que os cubanos nos deram a entender: Lula não deve tomar nenhuma medida que prejudique o Brasil", disse ele, acrescentando, no entanto, que pode enviar "medicamentos e alimentos" e que é preciso "ajudar Cuba a se tornar independente do petróleo".
Candidatura para a reeleição
Na conversa, o petista também não confirmou que irá concorrer à reeleição em outubro, condicionando a decisão à convenção do Partido dos Trabalhadores (PT), apesar de admitir que está se "preparando" para a missão. "Estou com a cabeça e o corpo 100% em forma. Quero viver até as 120 anos", declarou Lula à Spiegel.
Sobre a disputa com Flávio Bolsonaro, que apareceu, nesta semana, à frente do atual presidente nas pesquisas Datafolha e Quaest, Lula disse que respeitará as urnas, caso seja derrotado. "Quando o povo toma uma decisão, seja ela de direita, de esquerda ou do centro, temos de aceitar o resultado."
"O Brasil continuará sendo um país democrático. Além disso, venceremos esta eleição e garantiremos que nossa democracia se torne ainda mais sólida. Não há lugar aqui para fascistas; para pessoas que não acreditam na democracia. Essa ideologia de direita que domina o mundo não tem futuro. Em vez de ideias, ela só espalha ódio e mentiras", disse.
A entrevista foi publicada na véspera da viagem de Lula à Europa. Entre os dias 17 e 21 de abril, o presidente brasileiro visitará Espanha, Alemanha e Portugal, no que deve ser sua última grande viagem ao exterior antes das eleições. No próximo domingo (19/04), Lula participará, junto com o chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, da abertura da Feira de Hannover, maior evento de tecnologia industrial do mundo e que terá o Brasil como país-parceiro neste ano.
Em novembro do ano passado, após passar por Belém para participar da COP30, Merz disse que estava "feliz" em retornar à Alemanha, fala que causou mal-estar entre as autoridades brasileiras, incluindo Lula - que respondeu que o colega germânico "deveria ter ido em um boteco no Pará, ter dançado no Pará, ter provado a culinária do Pará".
"Eu disse a ele que, quando viajo para a Alemanha, gosto de comer salsicha nas barraquinhas de rua. Da última vez que estive com a [ex-chanceler] Angela Merkel, comi uma salsicha que comprei numa barraca. Quando estou no exterior, procuro experimentar as comidas locais", falou Lula à Spiegel.
fcl (ots)
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