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Torcer pelo Japão no Brasil, torcer pelo Brasil no Japão: Copa divide comunidades nipo-brasileiras

28 jun 2026 - 13h01
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Mais de um século de migração criou famílias, comunidades e identidades compartilhadas. Duelo entre Brasil e Japão na Copa transforma jogo num retrato das relações entre os dois países.É época de Copa do Mundo. E, como boa brasileira, a psicóloga Letícia Hara Takahama Tagliacollo, de 24 anos, pretendia sair de casa com uma camiseta da seleção. Só aí se deu conta de que a única camiseta de seleção que tinha era a da nação de seus antepassados: o Japão.

"Ao mesmo tempo que se quer torcer para o país que nascemos, o coração também aperta com o país de nossos antepassados", afirma. "Não chega a despertar conflitos, mas com certeza as cores ficam divididas entre azul e amarelo."

O caso de Letícia demonstra como mais de um século de migração aproximou famílias, comunidades e identidades nos dois lados do mundo. Na Copa do Mundo de 2026, o duelo entre Brasil e Japão, travado nesta segunda-feira (26/06), transforma o futebol em espelho dos laços históricos e afetivos entre os dois países que, agora, aproveitam os lugares em comum para buscar uma maior aproximação comercial.

"A negociação em curso entre Brasil e Japão é voltada a uma maior aproximação e ao avanço da cooperação econômica e técnica. Os dois países têm muito a ganhar com esse processo, que pode fortalecer de forma significativa as relações bilaterais", afirma Alexandre Ratsuo Uehara, doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP) e professor de relações internacionais da ESPM.

Japão no Brasil

Essa relação dos dois países vem de longe. A imigração japonesa no Brasil começou oficialmente em 1908, com a chegada do navio Kasato Maru ao porto de Santos, trazendo famílias que vinham trabalhar sobretudo nas lavouras de café. Ao todo, quase 200 mil imigrantes japoneses chegaram ao país na primeira metade do século 20.

A herança desse movimento está presente no cotidiano brasileiro, da gastronomia às artes marciais. Mas a integração cultural não eliminou completamente a percepção de que os descendentes de japoneses são, de alguma forma, "estrangeiros", mesmo após mais de um século de imigração. Por isso, as comunidades japonesas no Brasil se apresentam divididas, de certa forma, para a partida na Copa.

"O fato de nos denominarem como japoneses também demonstra que essa questão identitária não se restringe à comunidade nipo-brasileira, mas ela também reside na população brasileira como um todo. Denominar-nos como japoneses significa manter-nos ainda como pessoas estrangeiras, de certa maneira. E a migração japonesa para o Brasil já tem uma longa história", diz Mary Yoko Okamoto, docente da Unesp que há anos pesquisa as experiências migratórias de japoneses e descendentes na América Latina e no Japão.

Para Okamoto, esse sentimento de pertencimento compartilhado é uma característica comum entre comunidades formadas por processos migratórios. Segundo a pesquisadora, a construção de uma identidade entre o país de origem e o de destino acontece de forma gradual e pode atravessar gerações.

"É muito comum que as populações migrantes passem por um período de transição, de negociação entre a cultura de origem e a cultura do país de destino. Isso acontece em movimentos migratórios de modo geral, independentemente da cultura, porque essa transição não é fácil nem rápida. As questões de pertencimento estão fortemente relacionadas ao nosso senso de identidade. Por isso, essa mudança não acontece de maneira simples", afirma.

Brasil no Japão

Não é só Letícia Hara que sente o coração dividido. Do outro lado do mundo, Milton Saito, de 66 anos, é um dos cerca de 205 mil brasileiros que vivem no Japão atualmente, segundo dados do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Número construído em grande parte descendentes de japoneses que fizeram o caminho inverso ao de seus antepassados.

Para ele, no Japão há 19 anos, o jogo da Copa tem um simbolismo diferente. "A partida entre Brasil e Japão é especial. Não nego que o coração fica dividido. Porém, sou brasileiro e tenho orgulho do nosso futebol. Faz parte da nossa identidade. Peço licença ao Japão e vou torcer para o Brasil. Sempre. Isso não quer dizer que eu não ame o Japão. Se eles vencerem, sigo torcendo também por eles nesta Copa, que revela uma série de partidas difíceis", diz.

"Devido ao fuso horário [o jogo será às 2 horas da manhã no Japão], vou assistir a essa partida em casa. Mas no segundo jogo organizamos um telão na escola brasileira onde leciono e assistimos, com muita vibração dos alunos, o Brasil vencer o Haiti pelo placar de 3 a 0", relata.

Segundo Mary Yoko Okamoto, a comunidade brasileira no Japão busca firmar sua identidade como modo de acolhimento, fugindo da marginalização comum a imigrantes. "Nesse sentido, tenho percebido que existe uma necessidade da comunidade de desenvolver um forte pertencimento e identitário, incluindo ao Brasil. Ou seja, existe, então, um movimento de fortalecimento de questões culturais que remetem à raiz brasileira", afirma.

A influência brasileira também ajudou a aproximar os dois países dentro de campo. Enquanto milhares de brasileiros migraram para o Japão nas últimas décadas, o futebol brasileiro se tornou uma das principais referências para o desenvolvimento do esporte no país asiático.

Na década de 1990, o país apostou na contratação de jogadores e treinadores brasileiros para acelerar o desenvolvimento de sua liga e da seleção nacional. O maior símbolo dessa conexão é Zico, que atuou pelo Kashima Antlers na fundação da J.League e se tornou uma das figuras mais importantes da profissionalização do futebol japonês. Anos depois, entre 2002 e 2006, voltou ao país para comandar a seleção japonesa, consolidando um intercâmbio que fez do Brasil uma das principais referências técnicas para o crescimento do esporte no Japão.

Relações geopolíticas em alta

Toda essa troca também transborda em uma maior aproximação entre as autoridades dos dois países. Em junho, durante a cúpula do G7, na França, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, para discutir o aprofundamento das relações bilaterais.

Entre os principais temas esteve o interesse em ampliar a cooperação econômica, incluindo o avanço das conversas para um possível acordo de parceria econômica entre o Japão e o Mercosul. A negociação reforça um movimento de aproximação que vai além da histórica relação migratória e busca ampliar a integração entre os dois países em áreas como comércio, investimentos e tecnologia.

"Eu vejo essa aproximação como bastante positiva. Brasil e Japão têm economias que podem se complementar em várias áreas. O Brasil perdeu parte da sua competitividade industrial nos últimos anos, enquanto o Japão continua sendo uma potência em tecnologia, robótica e eletrônicos. Por isso, o fortalecimento das relações bilaterais tem potencial para gerar ganhos importantes para os dois países", afirma Alexandre Ratsuo Uehara.

Os países buscam diversificar parceiros comerciais, em um momento em que o mundo busca se proteger dos arroubos do presidente Donald Trump contra o comércio internacional. Assim, segundo o especialista, o Brasil poderia se tornar um parceiro confiável dentro da cadeia logística japonesa.

"O Japão busca parcerias em energia e em outras áreas estratégicas, o que abre novas perspectivas para que os dois países aprofundem a cooperação. O Brasil não precisa tentar competir diretamente com os carros ou com os produtos finais japoneses. O país teria muito mais a ganhar se passasse a integrar essas cadeias produtivas, como ocorreu com os Tigres Asiáticos, com outros países da Ásia e com a própria China", completa Uehara.

Enquanto Brasil e Japão negociam uma parceria econômica mais ampla e buscam ampliar a cooperação em áreas estratégicas, milhões de descendentes e imigrantes lembram que a relação entre os dois países nunca se limitou ao comércio ou à diplomacia, mas também ao coração.

"Independente de quem ganhar, com certeza ficamos felizes, porque amamos os dois da mesma maneira", assegura Letícia.

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