Testemunhas de Jeová lutam por arquivos da Alemanha nazista
Comunidade religiosa obteve vitória parcial contra Estado. Irmão de vítima vendeu mais de mil documentos que registram perseguição durante o Holocausto.As Testemunhas de Jeová se veem, desde o fim de junho, diante de uma vitória parcial numa longeva batalha judicial na Alemanha. O Tribunal Federal de Justiça decidiu em seu favor numa disputa para recuperar documentos que minuciosamente documentam a perseguição contra os adeptos da comunidade religiosa pelo regime nazista.
O arquivo inclui mais de mil fotografias, cartas, relatórios da Gestapo (a polícia política secreta do nazismo), mandados de prisão e sentenças de morte.
Annemarie Kusserow, uma vítima da perseguição nazista falecida em 2005, deixou os registros como herança a uma filial das Testemunhas de Jeová na Alemanha. No entanto, em 2009, um de seus irmãos vendeu os documentos ao Museu de História Militar em Dresden, que pertence às Forças Armadas alemãs, assegurando ser o legítimo proprietário.
Desde então, as Testemunhas de Jeová lutam com o Estado alemão para recuperar o arquivo. "Saber que aqui está uma família que foi perseguida pelos nazistas e que existe uma vontade claramente expressa de Annemarie Kusserow, que também foi perseguida, sofreu, foi presa, e deixou claro o destino que esse arquivo meticulosamente reunido deveria ter, torna moralmente evidente onde esse acervo deveria estar", afirma Sebastian Stock, porta-voz das Testemunhas de Jeová na Alemanha.
O Tribunal Federal de Justiça decidiu em 26 de junho que Hans-Werner, irmão de Annemarie, tomou posse do arquivo sem autorização. A corte também afirmou que, no caso de um "arquivo singular de importância histórica", o Estado não pode simplesmente se basear nas garantias do vendedor e tem o dever de investigar.
Caberá agora ao Tribunal Regional Superior de Colônia determinar se Annemarie era a única proprietária dos documentos, como perdeu a posse deles e se foram feitas verificações suficientes sobre o direito do irmão de vender o arquivo.
Alvo da ideologia "sangue e solo"
A comunidade religiosa foi um dos grupos perseguidos pelo regime nazista durante o Holocausto. Entre 1933 e 1945, cerca de 15 mil membros da denominação cristã foram perseguidos em toda a Europa ocupada pelos nazistas. Aproximadamente 4,5 mil foram enviadas a campos de concentração, onde eram obrigadas a usar triângulos roxos. Mais de 1,8 mil foram assassinadas.
As Testemunhas de Jeová surgiram a partir do movimento dos Estudantes da Bíblia, fundado nos Estados Unidos na década de 1870. Muitos de seus missionários viajaram para a Europa.
Em 1933, mais de 25 mil Testemunhas de Jeová viviam no Reich alemão, sendo o estado da Saxônia, no leste, o lar da maior comunidade da Europa. Tanto as Igrejas protestante quanto católica na Alemanha se opunham ao grupo, que era conhecido como Estudantes Internacionais da Bíblia e Estudantes Sinceros da Bíblia e, a partir de 1931, como Testemunhas de Jeová.
Antes da ascensão dos nazistas ao poder, em 1933, os Estudantes da Bíblia já eram alvo do movimento etnonacionalista alemão völkisch, que emergiu no fim do século 19 e via o povo alemão como uma comunidade "racialmente pura", ligada ao território na chamada ideologia de "sangue e solo". Propagandas infundadas alegavam que a "judeidade mundial" ou uma conspiração judaica internacional financiava as Testemunhas de Jeová.
Annemarie presa por discutir sua fé
Nascida na cidade de Bochum, no oeste da Alemanha, em 1913, Annemarie era a mais velha de onze irmãos que, juntamente com seus pais, seriam todos presos pelo regime nazista.
Em 1931, a família se mudou para a cidade de Bad Lippspringe, onde o pai incentivou Annemarie a documentar a perseguição sistemática que sofriam. Os nazistas decretaram a proibição nacional dos Estudantes da Bíblia em 1935, após vários estados alemães, entre eles a Prússia e a Baviera, já terem imposto restrições regionais.
Seus membros foram demitidos do serviço público, perderam empregos e aposentadorias e foram submetidos a ondas de prisões em massa.
Para encontrar trabalho, Annemarie se mudou para Berlim, onde podia visitar o irmão mais novo, Wolfgang, preso por se recusar a servir no Exército. Ela foi presa em 25 de outubro de 1944 e condenada a quatro anos de prisão por discutir sua fé e possuir literatura do grupo.
Seu irmão Karl-Heinz foi enviado ao campo de concentração de Dachau e morreu aos 28 anos, em 1946, em decorrência dos maus-tratos sofridos.
Objetores de consciência executados
Os nazistas perseguiram as Testemunhas de Jeová porque elas se recusavam a jurar lealdade ao Estado nazista e a Adolf Hitler. O grupo acredita que sua lealdade principal é a Deus, e não a qualquer governo ou líder humano.
As Testemunhas de Jeová se recusavam a fazer a saudação a Hitler, a integrar organizações nazistas e a prestar serviço militar, com base em seu pacifismo religioso. Foram o maior grupo unificado a recusar o serviço militar no Terceiro Reich.
Quase 300 jovens foram executados pelos nazistas por se recusarem a lutar, incluindo dois dos irmãos de Annemarie. O irmão mais novo, Wilhelm, foi executado por fuzilamento em 1940. "Aos 25 anos, imagine esse jovem que ali estava e que deu a vida por sua convicção de não matar outras pessoas", acrescenta Stock.
Em 1942, o irmão Wolfgang, então com 20 anos, foi executado por guilhotina. As execuções de objetores de consciência são uma das razões pelas quais o direito à recusa do serviço militar hoje está garantido na Lei Fundamental da Alemanha.
"Meus irmãos morreram por se recusarem a participar do serviço militar. Não considero adequado que essa herança esteja guardada, justamente, em um museu militar", afirmou o irmão mais novo da família, Paul-Gerhard, ao jornal The New York Times em 2022.
Novo memorial às Testemunhas de Jeová
A decisão judicial mais recente foi divulgada apenas dois dias após a inauguração, em Berlim, de um novo memorial às Testemunhas de Jeová perseguidas e assassinadas pelos nazistas. Com quase cinco metros de altura, ele fica no parque Tiergarten, em Berlim, onde grupos de Testemunhas de Jeová se reuniam para organizar atividades de resistência. Membros foram presos pela Gestapo no local em 1936.
O novo memorial, no entanto, vem gerando críticas. Em artigo de opinião ao jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, o historiador Tim B. Müller afirmou que as Testemunhas de Jeová perseguidas pelos nazistas não têm representação legítima hoje.
O movimento dos Estudantes da Bíblia passou por diversos cismas e, segundo Müller, não há continuidade direta entre os perseguidos pelo regime nazista e as Testemunhas de Jeová posteriores. Ele argumenta que o memorial apresenta uma "narrativa unilateral", em que "vozes bem organizadas abafam a pluralidade histórica, e algumas vítimas não são representadas".
Já a escritora Stefanie de Velasco, que escreveu extensamente sobre sua criação no que descreve como uma seita "totalitária", escreveu à revista Der Spiegel: "As Testemunhas de Jeová foram vítimas dos nazistas; disso não tenho dúvida. Mas eu teria preferido um memorial que destacasse a individualidade das vítimas e seu sofrimento involuntário, e não sua firmeza heroica."
Sobreviventes perseguidos na RDA
A perseguição às Testemunhas de Jeová não terminou com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Ela continuou na Alemanha ocupada pelos soviéticos e se intensificou na República Democrática Alemã (1949-1990).
Inicialmente, as Testemunhas de Jeová puderam realizar cultos nos territórios sob ocupação soviética. Aqueles que haviam sido presos ou enviados a campos de concentração nazistas também receberam documentos oficiais reconhecendo-os como vítimas do fascismo.
"Isso mudou por volta de 1947, e então uma proibição foi introduzida em 1950 contra a comunidade religiosa na RDA. O status oficial de vítimas do fascismo foi então revogado", aponta o historiador Falk Bersch. "Há inclusive casos em que o tempo passado em campos de concentração nazistas foi contabilizado pelas autoridades da RDA como antecedente criminal."
Ao todo, 6.740 Testemunhas de Jeová foram presas na zona de ocupação soviética e posteriormente na RDA. Sessenta e cinco morreram sob custódia.
"Sabemos de mais de 600 homens e mulheres que foram perseguidos tanto pelo regime nazista quanto pelo da RDA. Cerca de 400 estiveram em campos de concentração ou foram presos sob ambos os regimes", afirmou Bersch.
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