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Intérprete virtual começa a virar realidade

Tradução simultânea se torna possível com ajuda da inteligência artificial e da computação em nuvem, mas ainda apresenta falhas

3 jun 2018
05h03
atualizado em 5/6/2018 às 18h41
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Ajudar um estrangeiro a achar o metrô em São Paulo. Ter uma reunião com executivos chineses que não falam inglês. Negociar um produto em um mercado árabe durante a viagem de férias. Apesar de não serem tão corriqueiras, essas situações mostram a dificuldade que as pessoas têm em superar a barreira do idioma. Nos últimos tempos, porém, gigantes como Google, Facebook e Microsoft têm tentado eliminar o problema, com seus novos serviços de tradução simultânea.

Cada empresa tem sua própria aposta. Além do famoso Google Tradutor, o gigante das buscas lançou no fim de 2017 os fones de ouvido Pixel Buds. Quando conectados à internet, eles reconhecem frases em 40 idiomas e as traduz em tempo real.

"É um recurso que se presta a ajudar quem viaja e não conhece o idioma do lugar", diz Sandeep Waraich, gerente de produto responsável pelo desenvolvimento do Pixel Buds. "A tecnologia é possível graças à inteligência artificial."

Recursos similares podem ser encontrados no Mars, fone de ouvido criado da sul-coreana Naver, dona do aplicativo de mensagens Line; ele também está presente no Skype Translator, da Microsoft. "Nós eliminamos a barreira da distância com o Skype. Agora queremos eliminar a barreira da língua", diz o brasileiro Rico Malvar, cientista-chefe da Microsoft.

Já o Facebook, por sua vez, quer traduzir mensagens de texto trocadas em seu aplicativo de mensagens. Há duas semanas, a empresa anunciou que vai traduzir conversas entre falantes de espanhol e inglês em seu "shopping" virtual, o chamado Marketplace. "Para fechar uma transação, é importante entender realmente o que o outro está falando", diz Stan Chudnovsky, vice-presidente de Facebook Messenger. Segundo ele, o recurso será expandido nos próximos meses.

De forma semelhante, a startup brasileira 99 desenvolveu no início de 2018 uma funcionalidade de tradução simultânea para motoristas e passageiros no Brasil. O recurso funciona em três línguas (espanhol, inglês e português). "Nenhuma tradução é infalível, mas a resposta tem sido positiva", diz o diretor de produto da 99, João Costa.

Salto. Os novos sistemas representam um salto para a computação. Fazer tradução com ajuda de máquinas sempre foi uma ambição dos engenheiros, mas por muito tempo a tecnologia evoluiu bem devagar.

Segundo pesquisadores ouvidos pelo Estado, a demora tem a ver com a forma como a tradução era feita: palavra a palavra. Não à toa, muitos programas tinham dificuldades para entender tempos verbais ou mudanças de gênero, dois problemas típicos de muitas línguas latinas, como o português.

A abordagem mudou. Os melhores sistemas de tradução hoje se baseiam na versão de frases, com abordagem contextual, ou seja, traduz-se a frase como um todo, e não apenas uma palavra. Para isso se tornar possível, foi preciso aprimorar várias tecnologias. "Os sistemas atuais são baseados em redes neurais (máquinas que imitam o comportamento dos neurônios) e trabalham com grande volume de dados", explica Renata Vieira, pesquisadora de computação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

Esses dados, no caso, são textos em diferentes línguas, já traduzidos anteriormente, hospedados na nuvem e acessíveis pela internet. "É um volume que não era possível de se lidar há cinco anos atrás", diz Renata.

Contudo, a tradução de texto é apenas uma das etapas. "O computador reconhece a voz e transforma em texto. Depois, traduz o texto para a outra língua e, por fim, gera uma nova mensagem de voz", explica a professora de computação Priscila Lima, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Encontros e desencontros. Há diversos empecilhos, porém, para que esses sistemas funcionem perfeitamente. O primeiro deles vem da natureza complexa da linguagem, que muda a cada momento, com gírias, novas expressões - e, no caso de sistemas de voz, a dificuldade de se entender diferentes sotaques.

Além disso, as máquinas têm dificuldade para "entender" certas sutilezas, como humor, ironia ou emoções, que fazem parte da comunicação. "Há um universo de subjetividade que é complexo", explica Priscila. Outro problemas dizem respeito à conexão à internet em lugares remotos - de todas as empresas citadas, apenas o Skype Translator funciona "offline".

Embora já estejam se tornando uma realidade palpável, talvez ainda seja cedo para acreditar que com a ajuda de um intérprete virtual será possível pechinchar pelo melhor preço daquele lenço "nas Arábias".

Estadão
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