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'Tivemos o período com mais altos e baixos da nossa existência', diz presidente da Loggi

Startup de entregas registrou crescimento acelerado durante a pandemia devido às demandas do e-commerce

12 ago 2020
05h10
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O ano de 2020 tem sido de fortes desafios para a Loggi, um dos 11 unicórnios brasileiros. Após atingir em junho de 2019 o status de startup avaliada em US$ 1 bilhão, a empresa começou o ano fazendo demissões - foram 120 cortes em fevereiro. Em seguida, veio a pandemia de covid-19. "Pensamos que o mundo ia acabar", disse, em entrevista exclusiva ao Estadão, Fabien Mendez, presidente executivo da companhia.

Então veio a surpresa. A companhia viu a demanda por entregas de e-commerce e varejo saltar em 500%. A empresa voltou a contratar, foram 250 novos postos nos últimos meses, e dizia registrar um bom índice de satisfação dos seus entregadores.

Parecia uma entrada em águas calmas, mas, na verdade, houve mais imprevistos. Nas manifestações de entregadores de apps, que pedem por melhores condições de trabalho, a Loggi foi citada pelos profissionais, ao lado de iFood e Rappi. É algo do qual Mendez tenta se esquivar. "Acho que essa manifestação não era para nós, acabamos meio que pegando carona."

Na conversa, o executivo dá detalhes do trimestre com mais altos e baixos da existência da empresa. Fala também sobre a reestruturação da Loggi e das mudanças da startup na pandemia. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Como a Loggi foi afetada pela pandemia?

O segundo trimestre de 2020 foi o período com mais altos e baixos da nossa existência. Pensamos que o mundo ia acabar, que não seria possível operar, que os clientes não iam nos pagar. Ficamos com muito medo. No fim, terminamos o trimestre com um resultado oposto, muito positivo. A gente fez muitas entregas de e-commerce e varejo. Essa vertical cresceu mais de 500%, algo inédito. Por outro lado, os serviços de entrega entre pessoas e empresas caíram 50% desde o começo do ano. O crescimento na área de e-commerce e varejo mais do que compensou a nossa perda nos serviços mais tradicionais — a divisão de e-commerce representa a maioria das nossas entregas. Estamos criando o correio do futuro.

Quais têm sido os principais desafios durante a pandemia?

O primeiro foi assegurar o bem-estar e a saúde da operação, pois temos uma operação física. O segundo foi investir e contratar para lidar com o aumento exponencial de volume. Por último, foi se adequar à realidade de home office, pois estamos vivendo um confinamento. Focamos muito em fazer acontecer o trabalho remoto. Pagamos pela internet de qualidade de funcionários. Disponibilizamos os equipamentos dos escritórios para serem instalados em casa. Oferecemos também cursos de meditação, ajuda psicológica remota.

Em fevereiro deste ano, vocês fizeram um corte que resultou na demissão de 120 pessoas. Vocês estão reestruturando a equipe? Por quê?

Tivemos de fazer ajustes depois de muitos excessos no ano passado. Quando você cresce de forma exponencial, às vezes, acaba testando de forma um pouco descontrolada. Temos orgulho de ser uma empresa sustentável financeiramente. No começo do ano passado, a gente levantou mais de R$ 600 milhões e ainda estamos com esse dinheiro em caixa. Depois das demissões de fevereiro, contratamos cerca de 250 pessoas.

Essas contratações foram em áreas diferentes das que a Loggi tinha demitido?

Foi muito mais contratação na área de engenharia e produto, e também na área de operação, para podermos lidar com o excesso de demanda. No passado, os ajustes tinham sido principalmente na área de vendas.

A Loggi foi citada em manifestações de entregadores nos últimos meses, que ganharam grandes proporções. O que vocês estão fazendo para garantir condições de trabalho adequadas?

Essas manifestações nos pegaram um pouco de surpresa. Algumas semanas antes da mobilização, a renda por entregador nunca tinha sido tão alta na nossa história. Acho sinceramente que essa manifestação não era para nós, mas acabamos pegando carona. Hoje, o entregador que trabalha sete horas por dia na Loggi pode ganhar entre R$ 3,5 mil e R$ 4 mil. Isso vem do diferencial do nosso modelo, pois entregamos pacotes e temos uma rede de agências. É completamente diferente do que entregar comida. O entregador não sai de uma agência com apenas uma entrega para ele fazer. Damos a ele 15 pacotes para entregar em uma mesma rota, o que faz com que ele consiga ganhar muito mais dinheiro. No final, isso explica a satisfação dos entregadores da Loggi. Somos modelos diferentes, não competimos com iFood e Rappi.

Houve impacto nos negócios?

Como tivemos menos entregadores nas ruas no dia da mobilização, naquele dia a gente demorou mais do que o previsto para realizar as entregas. Mas foi só na cidade de São Paulo.

Depois da manifestação, vocês estão tentando entender melhor as demandas?

Engajamos constantemente com nossa base, e nossas melhoras são muito sinalizadas por esses indicadores, o aumento de renda por hora e a satisfação geral. Fomos a primeira empresa a distribuir para toda a nossa base do Brasil inteiro as EPIs. Sempre é possível fazer mais para melhorar os serviços, e sempre é possível fazer mais para melhorar a relação com os entregadores. Não queremos parar de fazer isso.

Quais são os principais planos para os próximos meses?

O foco para os próximos meses é criar capacidade para investir a fim de conseguirmos entregar 500 mil pacotes por dia no pico da Black Friday deste ano. Hoje, entregamos mais de 200 mil pacotes por dia. Então, o plano é abrir mais agências e investir ainda mais em tecnologia.

É possível sustentar o status de unicórnio em meio à crise?

Com certeza. Desde que viramos unicórnio, quintuplicamos o faturamento. Mais do que nunca nosso status de unicórnio é merecido. Esperamos em breve virar um "decacórnio", e queremos alcançar esse posto o mais rápido possível. Tudo isso focando em crescimento exponencial com sustentabilidade financeira.

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Estadão
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