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Startups pressionam por inovação nas viagens de ônibus

Com pelo menos 80 milhões de passageiros por ano, setor engessado e cheio de burocracia precisa de renovação

28 ago 2019
05h11
atualizado às 10h25
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Até alguns meses atrás, em pleno 2019, não era possível comprar uma passagem de ônibus pela internet e embarcar direto na rodoviária. Quem comprava um bilhete online precisava, antes do embarque, trocá-lo por um comprovante físico. A situação só mudou com pressão de startups que, aos poucos, buscam trazer o transporte rodoviário de passageiros brasileiro para o século 21. É o caso da ClickBus, que tenta fazer uma viagem de ônibus ser tão digital quanto a experiência de quem se desloca de avião.

"Queremos aposentar o papel. Esperávamos desde a criação da ClickBus por essa mudança", diz Fernando Prado, presidente executivo da startup. Fundada em 2013, a startup é dona de uma plataforma digital que reúne ofertas de passagens a vários destinos, com comparação de preços, horários e serviços de várias companhias. Hoje, a empresa paulistana tem 115 funcionários e pretende vender mais de R$ 1 bilhão em passagens em 2019. "Muita gente não comprava a passagem na internet porque sabia que ia precisar trocar na rodoviária. Isso vai mudar", avalia Prado.

O mercado de transporte rodoviário de passageiros é grande. Só as viagens interestaduais transportam cerca de 80 milhões de passageiros por ano
O mercado de transporte rodoviário de passageiros é grande. Só as viagens interestaduais transportam cerca de 80 milhões de passageiros por ano
Foto: Reprodução Instagram @clickbus

O mercado de transporte rodoviário de passageiros é grande. Só as viagens interestaduais transportam cerca de 80 milhões de passageiros por ano, segundo a Confederação Nacional dos Transportes (CNT). Propor inovação no setor rodoviário, porém, não é trabalho fácil. "É um mercado muito regulado pelo Estado e operado por poucas empresas tradicionais", afirma Paulo Resende, professor de infraestrutura da Fundação Dom Cabral.

O bilhete digital é um sinal explícito desse atraso - nos últimos anos, burocracias atrapalharam sua implementação. A adoção de passagens eletrônicas só passou a ser incentivada este ano após uma mudança da legislação articulada pelas Secretarias da Fazenda no País. Em São Paulo, as empresas de ônibus serão obrigadas a aposentar o comprovante físico a partir do ano que vem.

"Até a mudança, existiam legislações esparsas que dificultavam a emissão do bilhete eletrônico", esclarece o advogado Paulo Brancher, sócio do escritório Mattos Filho. Ele afirma que a passagem digital demorou a emplacar porque havia a necessidade de emissão de um cupom fiscal impresso - o que tornava mais cômodo que tanto o bilhete como o cupom fossem de papel.

É uma situação que fez não só as empresas do setor, mas também muita gente, perder tempo. É o caso da empresária Joyce Abreu, de 22 anos, que desistiu de comprar com antecedência uma passagem pela internet para Curitiba. Ao chegar no dia da viagem ao Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo, a viagem que ela queria já estava com assentos esgotados - a frustração resultou em chá de cadeira de uma manhã na rodoviária.

Buser quer ser o 'Uber' do ônibus

Mas há empresas indo além das rodoviárias. A Buser, por exemplo, conecta o usuário com uma empresa de fretamento de ônibus, e os passageiros dividem o custo da viagem. Em vez de rodoviárias, os pontos de encontro são shoppings, postos de gasolina e estacionamentos. A ideia do "Uber de ônibus" já recebeu investimento de fundos como Monashees e Valor Capital - que apostaram em empresas como 99 e Gympass, respectivamente.

Desde sua fundação em 2016, mais de 200 mil pessoas já viajaram com a Buser, que cobra uma comissão das empresas de fretamento. O modelo proposto pela empresa, porém, está em atrito com as viações tradicionais de ônibus, que acusam a startup de fazer transporte clandestino de passageiros.

A Buser se defende dizendo que só intermedeia a relação entre o passageiro e as empresas de transporte fretado. O caso está nas mãos do Supremo Tribunal Federal, que rejeitou em maio uma liminar que barrava o serviço. Até uma decisão final do STF, a Buser seguirá funcionando normalmente - e tem 80 vagas de emprego abertas para sua equipe, hoje com 24 pessoas.

Empresas tradicionais correm atrás

Seja rompendo paradigmas do setor rodoviário ou inovando a seu lado, as startups tentam chacoalhar o mercado - após a pressão pela mudança do bilhete digital, as empresas tradicionais perceberam que precisavam se renovar. "Quem não entrar nessa onda vai perder usuários", diz Guilherme Fowler, professor de empreendedorismo do Insper.

Para Resende, da Fundação Dom Cabral, as empresas de ônibus ficaram acomodadas por muitos anos, ao contrário do que aconteceu no setor aéreo. "O avião tem de evoluir em segurança e transmissão de dados. Isso cria uma escala de inovação que se espalha pelo negócio."

O Grupo JCA, dono pelas viações Cometa, 1001, Catarinense e Rápido Ribeirão, pretende investir em tecnologia em outras áreas. O foco principal está no atendimento, com robôs de conversa no WhatsApp e uso de algoritmos no site da empresa para entender hábitos de cada cliente. "Faz parte do nosso plano de negócio olhar para startups e trabalhar com elas", afirma Rodrigo Trevizan, diretor de marketing do Grupo JCA. Já a Reunidas Paulista quer oferecer a compra de passagens por meio de assistentes de voz como o Google Assistant e a Siri, da Apple.

Resta saber se as empresas de ônibus vão propor de fato tecnologias disruptivas. "Há quem considere que ter Wi-Fi no ônibus é evolução. Isso é algo natural. É preciso ir além", diz Resende. Oportunidade para mudanças no setor é o que não falta. "Há muito potencial de inovação na área de pagamentos, assim como em inteligência na logística, para entender a demanda dos consumidores e disponibilizar o serviço adequado", afirma o professor do Insper. "É melhor que as empresas de ônibus aceitem que não dá mais, porque, assim, vai doer menos."

*É estagiária, sob supervisão do editor Bruno Capelas

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Estadão
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