0

Escola de programação dá aula de graça, mas cobra comissão de salário no futuro

Nos EUA, Lambda School oferece aulas online gratuitas para quem quer aprender linguagem de programação, mas fica com percentual caso aluno arranje emprego na área; curso pode acabar custando até US$ 30 mil

7 set 2019
05h10
  • separator
  • 0
  • comentários

Na escola de programação americana Lambda School, é possível aprender código de computação de graça. Mas como diria o economista americano Milton Friedman, "não existe almoço grátis": a conta dos cursos chega mais tarde. Quando os estudantes conseguem finalmente um emprego, uma fatia de seu salário vai para a escola - e o curso, que é gratuito, pode custar até US$ 30 mil, segundo reportagem publicada pela revista Wired nesta semana.

De acordo com a reportagem, a Lambda School e seus alunos têm um objetivo em comum: a contratação em um emprego na área de programação - em que sobram bons salários e faltam profissionais capacitados. Segundo a Wired, a proposta já atraiu grandes investidores: em janeiro, a Lambda recebeu US$ 30 milhões de nomes como o Google, o ator Ashton Kutcher e a aceleradora Y Combinator, responsável por revelar o Airbnb.

O modelo proposto pela Lambda também pode ganhar escala rapidamente: como as aulas são oferecidas pela internet, em videoaulas e exercícios, o aluno só precisa de uma conexão Wi-Fi e um dispositivo em que possa digitar código para aprender. Em outubro do ano passado, a escola tinha 700 alunos. Agora, tem 2,7 mil - a meta é chegar ao final de 2019 com 4 mil estudantes.

Defensores do modelo proposto pela escola argumentam que a Lambda permite um acesso mais amplo ao ensino. Quem comanda a empresa é o presidente executivo Austen Allred. Em sua conta no Twitter, ele frequentemente compartilha histórias de estudantes que saíram da situação de pobreza e ingressaram em empregos na área de programação. "Nós acabamos com as desculpas de que as pessoas não têm condições para aprender. Elas aprendem se quiserem aprender", disse ele à revista Wired. Segundo o executivo, o projeto está dando tão certo que ele pretende se expandir para outras áreas, como enfermagem.

Escola trata aluno como startup, dizem críticos

Mas há quem critique a Lambda School por tratar seus alunos como se fossem startups. Isto é: investir neles uma quantia inicial (no caso, o curso gratuito) e espera-se que o retorno seja multiplicado no futuro. Um aluno que ganha US$ 50 mil por ano, por exemplo, tem de pagar 17% de seus salários à empresa - aproximadamente US$ 708 por mês, o que é suficiente para pagar aluguel em uma cidade de tamanho médio nos Estados Unidos.

A cobrança máxima que a escola pode fazer, por contrato, é de US$ 30 mil ou após 24 meses de pagamento - mas, para a maioria dos estudantes, isso acaba saindo mais caro que pagar US$ 10 mil num curso tradicional de imersão em programação. O retorno, porém, só acontece se a escola tiver sucesso ao educar os alunos: se o estudante não conseguir um emprego na área de tecnologia em cinco anos, ele não tem que pagar nada à Lambda School.

Para muitos estudantes, isso não chega a ser um problema. A Wired destacou o caso de Chris Atoki, um jovem de 23 anos de Nova Jersey: depois de passar alguns meses na faculdade de Engenharia Elétrica, ele percebeu que não gostava da coisa. Acabou indo vender colchões enquanto fazia o curso da Lambda. Ao acabar o curso, conseguiu um novo emprego, com salário de US$ 95 mil por ano - o que lhe põe bem na marca para ter de pagar os US$ 30 mil à Lambda. Ele diz não se importar: "ganho três vezes mais agora do que vendendo colchões", disse à revista.

Além disso, como a maioria das escolas de programação, a Lambda não tem ainda um diploma aceito por autoridades de educação. Recentemente, a escola foi multada em US$ 75 mil pelos reguladores da Califórnia por ter um registro inválido - segundo Allred, culpa de mau aconselhamento jurídico. Ainda assim, o executivo defende seu modelo - que pode ser uma solução para a crise do débito estudantil nos Estados Unidos, que gira em torno de US$ 1,5 trilhão no país.

Estadão
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade