1 evento ao vivo

Fundador do WhatsApp deixou US$ 850 milhões para trás ao sair do Facebook

Em entrevista à 'Forbes', Brian Acton revelou conflitos com Mark Zuckerberg pelo rumo que app de mensagens deveria seguir; ele protegeu seu serviço de anúncios e intrusão de privacidade

26 set 2018
15h29
atualizado às 15h50
  • separator
  • 0
  • comentários

Você deixaria US$ 850 milhões para trás em troca da defesa de um princípio? O cofundador do WhatsApp, Brian Acton, que deixou o Facebook em setembro do ano passado, revelou ter feito exatamente isso à revista Forbes nesta semana. Em entrevista exclusiva, Acton contou à publicação que teve diversas divergências com Mark Zuckerberg e a liderança do Facebook sobre o rumo que o aplicativo de mensagens, usado por 1,5 bilhão de pessoas em todo o mundo, deveria tomar nos próximos anos.

Acton contou que Zuckerberg e a direção do Facebook buscavam formas de ganhar dinheiro com o aplicativo, mas que iam contra suas convicções. Entre elas, a exibição de anúncios publicitários dentro do WhatsApp e a utilização de dados dos usuários para gerar relatórios que "melhorassem a performance" de parceiros da plataforma. Segundo Acton, ele e Jan Koum, o outro cofundador do WhatsApp, odiavam anúncios. Koum deixou a empresa em abril; segundo fontes próximas, ele também decidiu sair após sofrer pressão de Zuckerberg.

Além disso, diferenças de cultura se somavam entre as duas empresas: enquanto o mote do Facebook foi, durante muito tempo, "se mova rápido e quebre coisas", o do WhatsApp era "leve o tempo que precisar para fazer direito". Durante algum tempo, Acton tentou demover o conselho do Facebook de implementar esses planos, tentando encontrar outra forma de ganhar dinheiro com o WhatsApp - as respostas que recebia, porém, é de que suas ideias não conseguiriam ganhar escala o suficiente.

Ações. Ao vender o WhatsApp para o Facebook, Acton passou a ser mais um bilionário - em ações da rede social. No entanto, como é comum em contratos desse tipo, ele precisava passar um tempo ainda dentro da empresa para ter direito a essas ações. Ao se ver em disputas cada vez mais fortes contra o Facebook, ele percebeu que era melhor ir em frente. Até tentou usar uma das cláusulas de seu contrato, que dizia que teria direito às ações integrais caso o Facebook tentasse implementar uma política de monetização contra a vontade dos fundadores do WhatsApp.

Em uma reunião com Zuckerberg e os advogados da empresa, Acton recebeu uma negativa: a cláusula dizia respeito à implementação em si, e não a testes, que era o que o Facebook dizia fazer na época. Segundo Acton, o presidente executivo do Facebook tinha uma mensagem simples para ele na reunião. "Ele estava querendo dizer algo como 'essa é provavelmente a última vez que você fala comigo'", disse o cofundador do WhatsApp à Forbes.

Apesar disso, Acton não guarda rancor: "eu vendi minha empresa e tenho de lidar com as consequências disso". Segundo ele, "os executivos do Facebook são bons homens de negócio, mas acreditam em práticas com as quais eu não concordo."

Resposta. Após a publicação da entrevista de Acton, David Marcus, ex-presidente da unidade de negócios de mensagens do Facebook e atual líder de um projeto de blockchain da rede social, decidiu responder às declarações. Segundo ele, ninguém no Facebook pediu para que publicasse uma resposta à Acton, a quem chamou de "baixo". "Atacar as pessoas e a empresa que fizeram de você um bilionário é algo extremamente baixo", disse Marcus.

Segundo ele, Mark Zuckerberg inicialmente não compreendia a importância da criptografia de fim-a-fim, defendida por Koum e Acton, mas depois que entendeu, tornou-se um "defensor" da tecnologia. Além disso, Marcus comentou que o presidente do Facebook defendia os fundadores dos negócios que adquiriu, mesmo que isso irritasse muita gente dentro da empresa. Para completar, o executivo acusou Acton de não ser proativo ao defender suas ideias quanto ao modelo de negócios da empresa. "Se você acredita que um caminho deve ou não ser seguido, demonstre isso de forma apaixonada. Não seja passivo agressivo."

Retorno. A pressão do Facebook sobre o WhatsApp tem lá sua justificativa: afinal de contas, a rede social pagou US$ 19 bilhões pelo aplicativo de mensagens em 2014. Além disso, nos últimos meses, quando começou a sofrer críticas e ver seu ritmo de crescimento começar a ser reduzido, o Facebook precisava mostrar aos investidores onde poderia continuar ampliando seus negócios. O WhatsApp era uma resposta óbvia, além do Instagram, cujos dois fundadores, Mike Krieger e Kevin Systrom, decidiram deixar a empresa nesta semana; segundo fontes, os dois resolveram sair por conta de diferenças com Zuckerberg sobre o futuro do Instagram.

Acton, vale lembrar, foi uma voz importante nos últimos meses em manifestações contra o Facebook: em março, em meio ao escândalo da Cambridge Analytica, ele publicou em seu Twitter a seguinte mensagem: "É hora #deletefacebook". Além disso, ele tem ampliado suas iniciativas em prol da privacidade, doando, por exemplo, US$ 50 milhões ao Signal, equipe que desenvolve um app e um protocolo de mensagens criptografadas usado, inclusive, pelo WhatsApp hoje. E ele não está tão mal assim de grana: sua fortuna, segundo a própria Forbes, está avaliada em US$ 3,6 bilhões.

Estadão
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade