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Afinal, por que não existe um botão 'descurtir' no Facebook?

Desejo de usuários, função é descartada pela rede social; outras plataformas, como YouTube e Reddit, têm harmonia mesmo com 'polegar para baixo'

10 fev 2019
05h12
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Há uma década, o Facebook mudou a internet com o botão Curtir. Durante quase todo esse período, uma pergunta sempre acompanhou a ferramenta: por que não existe o botão "descurtir"?

O desejo por um botão com um joinha apontando para baixo é tão popular no inconsciente coletivo já foi usado até para espalhar vírus de computador. No começo da década, era comum encontrar na internet links maliciosos dentro da rede social que prometiam a ferramenta, mas que acabavam em infecção digital. Nem a disposição para encarar esse tipo de situação dobrou Mark Zuckerberg, fundador e presidente executivo do Facebook.

Em 2014, o chefão da rede social se opôs a essa ideia: "Algumas pessoas já pediram por um botão de "Descurtir", porque querem ser capazes de dizer 'isso aqui não é bom'. Não achamos que isso seja bom", disse ele. "Não vamos criar isso, e não acredito que é necessário ter um sistema de votação para dizer se posts são bons ou ruins. Eu não acho que isso seja socialmente valioso para a comunidade".

Para especialistas, é uma manifestação do Facebook que segue uma tendência atual: evitar tudo que é aparentemente negativo. "O Curtir é uma representação da chamada sociedade positiva, onde não há espaço para tristeza e tudo está bem", explica Luis Peres Neto, professor da ESPM.

Dois anos depois, quando o Facebook anunciou que ampliaria o leque de reações ao Curtir, as esperanças de que o Descurtir chegaria foram renovadas - e esmagadas. Os novos ícones - que incluem choro, risada, surpresa e o fofinho "Amei" - não tinham o dedão para baixo. O diretor de design do Facebook, Geoff Teahan, explicou que a natureza binária de "curtir" e "descurtir" não refletia a complexidade de situações que encaramos no mundo real.

Para Fábio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura, da Universidade Federal do Espírito Santo, a rede social está tentando fazer justamente o oposto, evitando a complexidade fora do mundo digital. "O 'dislike' opera com certa racionalidade. Julgar algo e expressar que não gostou exige racionalidade", afirma o especialista. "O Facebook trabalha mais com aspectos emocionais. As pessoas se envolvem com certo conteúdo não pelos seus aspectos contraditórios e racionais e sim pela dimensão sentimental".

Na contramão. Apesar desses argumentos, outros serviços já tem o polegar negativo. É o caso do YouTube - e não há indícios de que um mundo sombrio digital tenha se formado.

Na verdade, a maior parte dos vídeos, mesmo aqueles com poucas visualizações, tem mais likes do que dislikes - embora seja marcante quando vídeos de marcas recebam polegares para baixo em massa. Foi o que aconteceu quando consumidores reagiram a uma propaganda d'O Boticário que exibia um casal homossexual ou quando o primeiro trailer de um novo jogo da série Call of Duty desagradou os fãs.

Do outro lado do espectro, está o Reddit, serviço de fórum na internet que mantém certa aura anárquica que a rede ostentava nos anos 200. Com valor de mercado estimado em US$ 3 bilhões, o Reddit é um dos poucos lugares da web onde hoje o dedão para baixo é usado sem piedade.

A falta de motivação do Facebook pode ser também financeira. "Muitos "dislikes" em uma publicação pessoal desmotivariam um usuário a produzir conteúdo - especialmente aquele que não é remunerado financeiramente, mas motivado pelos likes", diz o consultor em redes sociais Alexandre Inagaki.

Desde o ano passado, existem rumores de que a rede social testaria o botão. O mais perto que se chegou disso foi um "downvote", para notificar postagens com abusos às políticas da rede, como discurso de ódio ou violência. A própria companhia se apressou em dizer que não era um "dislike". Dessa maneira, tudo levar a crer que joinha para baixo não será visto tão cedo - mas e aí, quantas curtidas essa ideia merece?

Estadão

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