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"Slopaganda": quando o conteúdo "lixo" anula a capacidade crítica

Mensagens de baixa qualidade criadas por inteligência artificial não buscam convencer com fatos reais, mas sim saturar a mídia com conteúdo

2 mar 2026 - 10h45
(atualizado em 2/4/2026 às 17h47)
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Imagem de Donald Trump publicada na conta do X da Casa Branca em 2025: propagandas com mensagens de baixa qualidade geradas por IA inundam as redes sociais, em uma sobrecarga de informações que limita a capacidade de análise crítica dos usuários. Wikimedia Commons.
Imagem de Donald Trump publicada na conta do X da Casa Branca em 2025: propagandas com mensagens de baixa qualidade geradas por IA inundam as redes sociais, em uma sobrecarga de informações que limita a capacidade de análise crítica dos usuários. Wikimedia Commons.
Foto: The Conversation

Como se já não bastassem os deepfakes e o shitposting — conteúdo absurdo ou incoerente —, agora surge o slop content, ou seja, conteúdo "lixo', de baixa qualidade, gerado por inteligência artificial (IA). Com a irrupção da IA como motor criativo e produtivo, fomos de uma desinformação artesanal para uma produção em massa. Isso sufoca os canais de comunicação e reduz a resposta cognitiva do público.

O conteúdo slop é criado rapidamente com inteligência artificial. Tem pouco valor estético e, às vezes, pouco valor ético. Se o associarmos ao termo "propaganda", temos a slopaganda, que não tenta convencer com fatos reais, mas sim saturar a mídia com conteúdo. Essa estratégia limita a resposta crítica dos consumidores de conteúdo, ou seja, dos usuários da internet e das redes sociais.

Ao mesmo tempo, a sobrecarga visual e textual, mesmo que incoerente e estranha, ativa mais o público do que os fatos comprovados.

A "zumbificação" da internet

A economia do slop sustenta-se em uma monetização passiva dentro da economia da atenção. Criadores de conteúdo, utilizando ferramentas de inteligência artificial generativa, produzem fluxos intermináveis de lixo visual. Fazendo isso com o objetivo de capturar cliques e gerar receita publicitária, chegamos a uma "zombificação" da internet.

Nesse ambiente, uma parte substancial da atividade online é realizada por máquinas interagindo com conteúdo gerado por outras máquinas. No fim, o ecossistema digital se corrompe e corrói a conexão social em favor de um simulacro de interação empobrecida.

Essa zombificação se sustenta em um solo fértil: a passividade cognitiva com que os internautas interagem com o espaço digital. Em 2024, um estudo publicado na revista científica Nature indicava que 75% das pessoas que consomem informação online não verificam as notícias. A maioria as compartilha sem sequer ter aberto os links.

Nesse contexto, o processo de "slopificação" permeou a arena política: os cidadãos são alimentados com uma dieta informativa de baixo valor nutricional.

Trump e o triunfo da memética política

O impacto do conteúdo slop na democracia é direto e corrosivo. Expostas a narrativas incoerentes, mas carregadas de emoção, as audiências tornam-se mais extremistas. Além disso, esse tipo de mensagem ou posts gera níveis de interação maiores do que conteúdo de qualidade.

Um bom exemplo disso é como o segundo governo de Donald Trump utiliza a IA: seu gabinete de comunicação foi o primeiro a adotar a inteligência artificial como geradora de conteúdo oficial. Assim, o perfil da Casa Branca no X está repleto de imagens virais, que muitas vezes se somam a tendências aparentemente inofensivas — como as imagens no "estilo Ghibli" que retratam uma deportação —, mas cujo tom é abertamente beligerante contra seus detratores.

Não é apenas o conteúdo, é a forma

O design das redes sociais influencia a mensagem. As plataformas de conteúdo fazem com que a informação tenha menos nuances e profundidade. As mensagens são curtas e diretas: são simples em conteúdo e forma.

Essa simplicidade faz com que a informação perca valor ético e humano. Não é raro ver vídeos com efeitos visuais de baixa qualidade sendo usados para mensagens oficiais.

Diante desse panorama, a desumanização do conteúdo revela uma falta de interesse global que deve ser examinada. A indiferença com que cada vez mais se consomem conteúdos gerados por IA, fora do entretenimento, enfraquece a base democrática da informação. Assim, a slopaganda não é apenas um erro técnico ou uma moda passageira: trata-se de uma mudança na forma como o poder é exercido e a realidade é criada no século XXI.

Por exemplo, é comum ver tentativas de controlar a narrativa sobre a guerra contra o Irã por Estados Unidos e de Israel, usando memes que mostram ataques e bombardeios, juntamente com videogames e cenas de filmes, como se fosse uma piada ou algo sem importância.

No fim das contas, o resultado é que os eventos políticos são banalizados e os conflitos armados são desumanizados. Enquanto as pessoas nas redes sociais e plataformas digitais compartilham, comentam e interagem, exércitos de bots impulsionam as mensagens para alcançar mais pessoas.

O papel da educação

Para combater esses fenômenos, é fundamental trabalhar a partir da educação. Um aumento no investimento em formação e saúde digital nas escolas, bem como em estratégias e campanhas públicas de conscientização, pode frear a propagação desses conteúdos.

A boa governança na comunicação institucional passa por promover a consciência de um humanismo digital e por estabelecer normas que regulem o tipo de comunicação oficial que se estabelece nos novos canais de informação.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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