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Romi-Isetta, primeiro carro nacional produzido em série, faz 70 anos

Nascido na Itália e fabricado no Brasil por uma empresa de tornos, modelo pioneiro custava pouco mais da metade de um Fusca

24 set 2026 - 15h14
(atualizado às 15h36)
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Resumo
Lançado em 1956 pelas Indústrias Romi, o Romi-Isetta foi o pioneiro da produção automobilística em série no Brasil. De origem italiana e alta taxa de nacionalização, o compacto destacava-se pela economia de combustível e pelo preço acessível, chegando a desfilar com JK na inauguração de Brasília. Apesar de inovador, o modelo teve a produção encerrada em 1961 com cerca de 3 mil unidades feitas, pois sua proposta de mobilidade urbana estava além de uma época com trânsito livre e gasolina barata.

"Sob os auspícios da Cia. Distribuidora Brasileira Comercio e Exportação, foi apresentado ontem ao público paulistano, às 17 horas, na rua Marquês de Itu, 139, o primeiro automóvel fabricado no Brasil, o Romi-Isetta, produzido em Santa Bárbara D'Oeste pelas indústrias Romi."

A edição de 5 de setembro de 1956 de O Estado de S. Paulo registrou assim a estreia de um dos principais personagens da gênese da indústria automobilística nacional.

No mesmo dia, uma procissão com 16 exemplares do simpático carrinho de origem italiana percorrendo o centro de São Paulo oficializou o lançamento do Romi-Isetta, abençoado pelo cardeal d. Carlos Carmelo Motta no Palácio Episcopal e na sequência apresentado ao governador de São Paulo, Jânio Quadros, no Palácio dos Campos Elíseos, então sede do governo paulista.

Distinto de todos os carros oferecidos no mercado nacional - naqueles tempos composto basicamente por modelos importados ou montados e com baixo índice de nacionalização -, sua origem e jornada também foram únicas.

Lançamento do Romi-Isetta teve carreata pelo centro de São Paulo
Lançamento do Romi-Isetta teve carreata pelo centro de São Paulo
Foto: Fundação Romi / Divulgação / Estadão

A Romi e o Isetta

Tudo começou no Salão de Turim de 1953, quando o Isetta foi revelado pela Iso Autoveicoli como opção de mobilidade urbana acessível e econômica para o pós-Guerra europeu.

Concebido pelo projetista de aviões Ermenegildo Pretti, era realmente compacto: 2,28 metros de comprimento, 1,38 m de largura, 1,34 m de altura e 1,5 m de entre-eixos, pesando 350 kg. Equipado com motor de 236 cm³, dois cilindros e 9,5 cavalos, não passava dos 85 km/h, mas podia rodar até 25 quilômetros com um litro de gasolina.

Como Peugeot, Toyota e tantas outras, a Indústrias Romi não nasceu fabricante de veículos. Antes vieram os insumos agrícolas - que incluíam o trator Toro - e o tornos, máquina que até hoje define a essência da empresa.

Um carro cruzou o caminho da empresa quando seu fundador, Emílio Romi, aceitou o desafio do enteado Carlos Chiti: "por que não trazemos um ou dois carrinhos destes aqui?", perguntou apontando, empolgado, para uma revista italiana que falava sobre o ainda novato Iso Isetta.

Dois exemplares do modelo foram importados para que se examinasse sua arquitetura e se avaliasse a viabilidade de produção local. Romi e Chiti partiram então para a Itália com a missão de negociar os direitos de licença e royalties com Renzo Rivolta, dono da Iso Autoveicoli.

O primeiro Romi-Isetta ficou pronto no dia 30 de junho de 1956, com 72% de nacionalização. Apenas motor e câmbio importados se juntavam na linha de produção às demais peças, entregues por 60 fornecedores. Enquanto um Fusca custava 540 mil cruzeiros, o Romi-Isetta saía por 370 mil cruzeiros.

Os planos da Romi eram audaciosos e incluíam uma parceria com a BMW - que também tinha seu próprio Isetta na Alemanha - para aumentar a família com duas picapes, um furgão e um modelo para quatro passageiros. Na última hora, contudo, a fabricante alemã desistiu da união. O que não intimidou a empresa, que seguiu investindo no modelo: em 1959, um motor monocilíndrico de 289 cm³ e 13 cv da marca alemã substituiu o da Iso.

Romi-Isetta é apresentado ao governador de São Paulo, Jânio Quadros
Romi-Isetta é apresentado ao governador de São Paulo, Jânio Quadros
Foto: Fundação Romi / Divulgação / Estadão

Caravana da Integração Nacional

Dois meses antes de ser inaugurada, em 21 de abril de 1960, Brasília foi tomada pela Caravana da Integração Nacional, expedição bolada pelo major José Edson Perpétuo para enaltecer a engatinhante indústria automobilística nacional.

Nenhum modelo teve o protagonismo do Romi-Isetta, veículo escolhido pelo então Presidente da República Juscelino Kubitschek para desfilar pela Esplanada dos Ministérios. Participaram da festa 25 exemplares, cujos donos formavam o Clube dos Proprietários de Romi-Isetta, vindos de São Paulo.

Presidente JK em um Romi-Isetta durante caravana da Integração Nacional
Presidente JK em um Romi-Isetta durante caravana da Integração Nacional
Foto: Fundação Romi / Divulgação / Estadão

Pena que o fim chegou logo depois. "Naquele momento, as cidades não apresentavam problemas de mobilidade e a gasolina era barata. As vantagens oferecidas pelo nosso carro ainda não sensibilizavam o público", avalia Eugênio Chiti, filho de Carlos.

Em 13 de abril de 1961, após pouco mais de 3 mil unidades fabricadas, o mais simpático carro daqueles tempos - talvez à frente demais de seu tempo - foi produzido pela última vez.

Calcula-se que cerca de 350 exemplares tenham sobrevivido - dois deles podem ser vistos na exposição dedicada aos 70 anos do modelo que o museu Carde manterá até o próximo dia 12, em Campos do Jordão, no interior de São Paulo.

Estadão
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