Retórica do 'secretário de guerra' dos EUA glorifica a violência e a morte com frases de efeito de filmes de ação e videogames
Por que o secretário de Defesa Pete Hegseth se vangloria e se regozija em suas declarações sobre a guerra com o Irã? No mundo da mídia MAGA, a guerra é um jogo, um teste de fortaleza masculina.
Quando o então secretário de Defesa dos EUA James Mattis abordou a intensificação das operações de combate de seu país contra o grupo Estado Islâmico em 2017, ele garantiu ao público americano seu compromisso em "acertar a estratégia" enquanto mantinha "as regras de engajamento" para "proteger os inocentes".
O tom profissional de Mattis contrasta fortemente com as declarações do atual secretário de Defesa do país, Pete Hegseth, após os primeiros dias das operações de combate conjuntas dos EUA e Israel contra o Irã.
Em 2 de março de 2026, após se gabar da impressionante letalidade dos "B-2s, caças, drones e mísseis" dos EUA, Hegseth descartou casualmente as preocupações com a estratégia geopolítica de longo prazo, declarando "sem regras de engajamento estúpidas, sem o atoleiro da construção de nações, sem exercícios de construção da democracia, sem guerras politicamente corretas. Lutamos para vencer".
Admoestando a imprensa por qualquer coisa menos que concordância total, ele ordenou: "Aos veículos de mídia e à esquerda política que gritam 'guerras sem fim': parem. Isto não é o Iraque".
Dois dias depois, Hegseth se gabou do "domínio" e do "controle", enquanto afirmava que a preocupação da "mídia de notícias falsas" com as baixas era motivada pelo viés liberal da imprensa e pelo ódio ao presidente Trump.
"Coisas trágicas acontecem; a imprensa só quer prejudicar a imagem do presidente", disse. Ele descartou as preocupações sobre as regras de engajamento, declarando que "isso nunca era para ser uma luta justa. Estamos atacando enquanto eles estão caídos, como deve ser".
Coletiva de imprensa de Pete Hegseth no Pentágono, na qual ele afirmou que a guerra com o Irã não teria 'regras de engajamento estúpidas, nem o atoleiro da reconstrução nacional, nem o exercício de construção da democracia'.
Sou um acadêmico da comunicação que estudou a retórica do MAGA por uma década. Observei como Hegseth e outras altas autoridades do segundo governo Trump se recusam a cumprir o que situações retóricas recorrentes — assuntos públicos urgentes que pedem por declarações para populações suscetíveis de serem influenciadas — normalmente exigem dos funcionários públicos.
O tema deste governo é que ninguém vai ditar para eles o que dizer ou como dizer. Ele não será onerado por normas nem pelas exigências do discurso em uma sociedade democrática.
O grande homem
Quando os EUA entram em guerra, a população espera que o presidente e o secretário de Defesa os convençam que a ação é adequada. Eles fazem isso detalhando justificativas para a ação militar, mas também dirigindo-se ao público de uma maneira que transmita a seriedade e a competência necessárias para uma tarefa tão grave como travar uma guerra.
Mas durante a primeira semana da guerra com o Irã, as coletivas de imprensa de Hegseth se desviaram do tom moderado esperado de oficiais militares de alto escalão.
Hegseth empregou de forma leviana expressões coloquiais maliciosas - "eles estão fritos e sabem disso", "jogamos para valer" e "o presidente Trump riu por último" - proferidas com um tom combativo que transmitia autoconfiança masculina.
Muitos observadores ficaram surpresos com seu tom arrogante, sua preocupação hipermasculina com a dominação, sua euforia com a violência e sua atitude casual em relação à morte.
Durante o primeiro mandato de Trump, essa propensão a quebrar regras era, em grande parte, isolada ao presidente, cujas transgressões faziam parte de seu apelo populista.
Embora os primeiros membros do gabinete de Trump concordassem com a maioria de seus objetivos políticos, eles tentaram controlar o que consideravam os caprichos mais perigosos do presidente.
Mas com a lealdade como a nova qualificação necessária para ser uma autoridade do governo, o segundo gabinete de Trump é composto por um grande contingente de personalidades da mídia de direita e extrema direita, como Hegseth, incluindo Kash Patel, Sean Duffy e Mehmet Oz.
O ethos anti-institucional da mídia de extrema direita explica por que essas autoridades se recusam a se conformar às expectativas da "elite" e, em vez disso, falam de maneira bombástica, ultrajante e perversa.
Entre eles, há pouca reverência pelo que podem perceber como emasculadoras regras de tradição e de polidez que os enfraquecem em um mercado de mídia onde "possuir", "dominar" e "provocar" seu inimigo é uma moeda preciosa. Personalidades da mídia de extrema direita são hábeis em chamar a atenção com espetáculo e arrogância.
Trump parece ter escolhido Hegseth exatamente por esse motivo: ele desempenha o papel de "grande homem" com perfeição.
'Eles estão fritos e sabem disso', disse o secretário de Defesa Pete Hegseth sobre o Irã em 4 de março de 2026.
"Discurso de morte"
As escolhas linguísticas e o tom petulante de Hegseth não demonstram ignorância sobre o que as situações retóricas exigem dele; em vez disso, refletem uma recusa em ser castrado por normas tão incômodas.
Ao fazer declarações sobre a primeira semana da guerra, Hegseth sorriu ao proferir frases de filmes de ação, como "acabou que o regime que gritava 'Morte à América' e 'Morte a Israel' recebeu de presente a morte vinda da América e a morte vinda de Israel".
Hegseth se envolveu no que é conhecido como "kill talk", uma estratégia verbal, normalmente dirigida a novos recrutas militares, que nega a humanidade do inimigo e disfarça os terríveis custos da violência. Sua repetição de palavras como "morte", "matar", "destruição", "controle", "guerreiros" e "domínio" enquadram a violência em termos heroicos que estão distantes da realidade da guerra.
Na minha visão, Hegseth dirigiu-se ao público como um líder de esquadrão se dirige a recrutas militares. Hegseth aparentemente deleitou-se em distribuir morte e elevar e glorificar a guerra. Ele praticamente não disse nada sobre estratégia de longo prazo além de "vencer".
No mundo da mídia MAGA, vencer é realmente tudo o que importa. Se vencer é o único objetivo, então a guerra é, por inferência profunda, um jogo, um teste de fortaleza masculina.
Este ponto ficou claro quando a Casa Branca publicou um vídeo que intercalava imagens de ataques aéreos ao Irã com "animação killstreak" do popular videogame Call of Duty: Modern Warfare. No jogo, quando um jogador mata vários oponentes sem morrer, ele é recompensado com a capacidade de realizar um ataque com mísseis para exterminar a equipe adversária. Mais uma vez, essa mensagem gamifica a violência e obscurece o custo destrutivo da guerra.
Informados pela hipermasculinidade desdenhosa da cultura midiática de extrema direita, todos esses comportamentos tabus e retratos glorificados da morte transmitem uma mensagem fundamental: quando o público mais precisa de explicações e justificativas para as ações de seu governo, os poderosos não devem ao público nem explicações — nem conforto.
Casey Ryan Kelly não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.