Redes sociais, algoritmos e riscos: como as plataformas digitais estão reconfigurando o debate público
Uma reflexão sobre o poder dos algoritmos, os vieses das plataformas, o protagonismo crescente da IA, e os desafios da regulação das redes sociais
Em parceria com a revista FCW Cultura Científica, da Fundação Conrado Wessel, o The Conversation Brasil publica uma série dedicada a discutir os impactos políticos, sociais e institucionais das redes digitais. A edição atual reúne reflexões de pesquisadores sobre o papel dos algoritmos, da concentração de poder tecnológico e das escolhas humanas na reorganização do espaço público, da polarização política e dos riscos de formas contemporâneas de autoritarismo mediadas por tecnologia.
Em duas décadas, as redes sociais se infiltraram na vida da maioria da população e se tornaram indispensáveis. Essa dependência está ligada à nossa necessidade de socializar, característica intrínseca do ser humano. À medida que digitalizamos atividades como trabalho, finanças e consumo, a vida social acompanha esse movimento. Muitos de nós sentimos a necessidade de obter aprovação de outras pessoas em aspectos do cotidiano, como roupas, aparência ou opiniões, para sustentar uma autoimagem consistente.
A dependência das redes sociais entre crianças e adolescentes é especialmente preocupante. Nessa fase da vida, emoções intensas e a busca por recompensas coexistem com uma capacidade ainda limitada de controlar impulsos e avaliar riscos. Do ponto de vista da neurociência, o sistema límbico amadurece no início da puberdade, enquanto o córtex pré-frontal, responsável pelo autocontrole, desenvolve-se mais tarde. Esses fatores precisam ser considerados na formulação de políticas públicas e na definição da idade mínima para o uso das redes sociais, como ocorre em países como Austrália, França e Itália.
Imersos nas redes, estamos à mercê dos algoritmos?
Em grande parte, os algoritmos decidem a quais informações teremos acesso com base em critérios que conhecemos: mostram conteúdos semelhantes aos que já vimos ou curtimos, ou aqueles acessados por pessoas com gostos próximos aos nossos. Há outros parâmetros, como priorizar conteúdos virais ou aumentar a probabilidade de engajamento.
Embora os algoritmos operem a partir de lógicas internas complexas, não podemos dizer que somos conduzidos por eles. Os algoritmos mostram caminhos, mas a escolha da direção é nossa. Não podemos cair na armadilha de culpá-los por todos os males da sociedade e pelas nossas decisões. Somos influenciados por fatores econômicos, ideológicos e morais e, muitas vezes, não temos interesse em sair das nossas bolhas.
Muitos consideram que os algoritmos das plataformas digitais polarizam a sociedade. Porém, estudos quantitativos mostram que, mesmo quando os algoritmos oferecem informações não enviesadas, o usuário escolhe informações similares. As escolhas individuais desempenham um papel mais importante na limitação da exposição a conteúdos diversos do que as decisões algorítmicas.
Os algoritmos simplesmente nos dão mais opções. Sabemos que mais interações e mais tempo em redes sociais levam a maiores graus de polarização. Essa é uma das principais razões para as recentes mudanças na sociedade, que são consequência do uso cada vez mais generalizado das redes sociais.
O viés ideológico
Em artigo que escrevi sobre as eleições brasileiras de 2022, Group polarization, influence, and domination in online interaction networks, observei que comunidades de direita apresentavam maior capacidade de comunicação coordenada e níveis elevados de isolamento.
Esse achado ajuda a compreender dinâmicas recentes, mas não deve ser interpretado como evidência de um viés ideológico automático das plataformas. As redes tendem a favorecer aqueles que sabem utilizá-las melhor. Em geral, quem melhor explora suas capacidades é o ator político contestatário, que se coloca contra a visão dominante.
Comparando o Brasil e os Estados Unidos, identificamos um padrão semelhante de crescimento de grupos conservadores, com forte presença nas plataformas digitais. Porém, temos base empírica para afirmar que, em países como Colômbia e México, os movimentos digitais mais influentes nas redes foram protagonizados por movimentos progressistas.
Esses exemplos indicam que não há um viés ideológico único associado às redes. O que se repete é a capacidade das plataformas de facilitar a entrada de novos atores no discurso público. Estes novos atores geralmente vêm para desafiar o status quo, mas também para canalizar a insatisfação com instituições e partidos políticos tradicionais. O impacto das plataformas não decorre de um determinismo algorítmico ou de um viés ideológico único.
O crescente protagonismo da inteligência artificial
A inteligência artificial (IA) está trazendo mudanças disruptivas. Ela já alterou a forma como fazemos buscas na internet, ameaçando a existência de sites e plataformas menores. A IA generativa permite criar textos, imagens, vídeos e perfis de forma barata e em massa. A produção automatizada de conteúdo amplia a possibilidade de manipulação política e ideológica.
Apesar dos riscos, há diversas alternativas para lidar com esses problemas. A regulação do uso da IA em plataformas digitais é um tema muito relevante. Na nossa Constituição, "é livre a expressão do pensamento, sendo vedado o anonimato". A transparência é a chave. A identificação clara de contas automatizadas e daquelas geridas por humanos deve se tornar regra, e as violações devem ser punidas, seja pelas próprias plataformas, seja por meio de medidas externas. E não há como avançar sem educação midiática e digital, que desenvolva consciência sobre o funcionamento e os limites das novas tecnologias.
Controle das plataformas digitais
A concentração da propriedade das grandes plataformas digitais levanta questões para o funcionamento das democracias. As Big Techs acumulam poder econômico e capacidade de influenciar a forma como consumimos informação e interagimos socialmente. Os incentivos econômicos dessas empresas vão apenas na direção de aumentar o tempo de permanência dos usuários.
Além disso, a tecnologia tornou-se um campo de disputa geopolítica. A interpenetração entre governos e empresas reacende as preocupações sobre o controle dos meios de comunicação. A participação direta de governos ou de representantes eleitos nessas empresas representa uma grande ameaça.
Exemplos concretos ilustram esse risco. Sistemas estatais de controle da informação, como o Grande Firewall chinês, mostram como a infraestrutura digital pode restringir o debate público. Plataformas associadas a lideranças políticas, como a Truth Social, controlada indiretamente por Donald Trump, são mais um exemplo de um perigoso conflito de interesses entre o público e o privado, capaz de distorcer o sistema de pesos e contrapesos presente nas sociedades democráticas.
Na ausência de melhores incentivos, as plataformas tendem a priorizar conteúdos sensacionalistas e polarizadores. No projeto Redes de Interação em Plataformas Digitais, que coordeno com apoio da FAPESP, a polarização e radicalização são investigadas como processos relacionais, resultantes da interação entre indivíduos, grupos e algoritmos implementados nas redes sociais digitais. A pesquisa analisa como essas relações se organizam estruturalmente, produzindo padrões de isolamento, os seus mecanismos de coordenação interna e o surgimento de conflitos. O objetivo é compreender em que condições essas configurações se estabilizam ou evoluem, e quando elas podem se transformar em formas de radicalização.
A regulação das plataformas e redes sociais
O modelo de negócios das plataformas baseia-se no tempo de permanência e na captura de atenção, criando incentivos para a amplificação de conteúdos extremos ou polarizadores. Esse desenho tem efeitos sensíveis em crianças e adolescentes, pois ainda não desenvolveram mecanismos de autorregulação diante da exposição contínua.
A regulação é uma alternativa necessária que precisa ser concebida com muito cuidado. A liberdade de expressão é um princípio central das democracias. Porém, comportamentos inaceitáveis no mundo físico não podem ser tolerados no ambiente digital. Precisamos de limites claros, sem transformar o controle do discurso em política de Estado.
É fundamental tratar as plataformas como atividades econômicas. Um bom exemplo é o conteúdo impulsionado ou monetizado, quando há pagamento para ampliar o alcance de uma mensagem, e existe ganho financeiro. Podemos regulamentar o que pode ou não ser impulsionado, assim como regulamos a publicidade em outros meios, quando a sociedade considera algo como nocivo. Essa abordagem não limita o discurso. É uma regulação econômica, não ideológica.
Por outro lado, o elevado grau de polarização na sociedade não desaparecerá da noite para o dia. Nós, como indivíduos, precisamos nos abrir para ouvir principalmente pessoas com quem discordamos. Para isso, é necessário adotar políticas públicas que garantam que toda opinião, até mesmo aquela em que discordamos profundamente, será respeitada, e que nenhum tipo de violência será tolerado. Devemos criar fóruns, inclusive nas universidades, onde pessoas com opiniões completamente contrárias possam conversar livremente. Muitos querem o bem do país, mas às vezes por caminhos diferentes. O pior que podemos fazer é nos isolar em bolhas de pessoas que pensam como nós.
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O estudo que subsidia este artigo foi apoiado pelo Instituto Kunumi e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP (Processo nº 2024/12936-5). As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.