Que impacto a derrota nas eleições de meio de mandato terá para Trump
A vitória democrata no Senado e na Câmara enfraquece Donald Trump nos dois anos finais de mandato, abrindo espaço para investigações contra seu governo, bloqueio de projetos e possíveis processos de impeachment. Embora enfrente forte oposição legislativa com poder de barrar nomeações e orçamentos, o presidente republicano ainda mantém ampla margem de atuação na política externa, comércio e tarifas, além de contar com o poder de veto para frear a nova maioria da oposição em Washington.
Resultado muda equilíbrio de poder em Washington, e democratas poderão investigar governo e até abrir processos de impeachment. Mas Trump retém muito poder na política externa.Os democratas conquistaram o controle tanto do Senado quanto da Câmara dos Representantes nesta terça-feira (03/11), com milhões de eleitores expressando uma forte reprovação ao governo do presidente Donald Trump.
Os resultados representam uma mudança profunda no equilíbrio político em Washington e obrigarão Trump a enfrentar um Congresso controlado pela oposição durante os dois últimos anos de seu mandato presidencial.
"Os americanos votaram por mudança, e agora os democratas precisam entregar resultados", afirmou Chuck Schumer, líder da minoria democrata no Senado.
Com os democratas prestes a controlar ambas as câmaras do Congresso, a capacidade de Trump de levar adiante sua agenda política nos dois anos finais do mandato será significativamente enfraquecida.
É provável que o restante de seu mandato seja consumido por investigações lideradas pelos democratas sobre a sua gestão e os seus negócios e, possivelmente, até por um novo processo de impeachment.
Além de abrir investigações sobre o governo, os democratas poderão barrar projetos de lei e dificultar os planos orçamentários de Trump. Também terão voz na confirmação de altos funcionários do governo e de juízes federais. Um Senado controlado pelos democratas poderá bloquear nomeações de Trump, incluindo eventuais indicações para a Suprema Corte em caso de vacância.
Mas Trump continuará tendo consideráveis poderes constitucionais na política externa, uma das áreas em que presidentes lame duck ("pato manco", expressão usada para definir um presidente com poder reduzido diante de um Congresso hostil) ainda dispõem de ampla margem de atuação, assim como nas áreas de comércio e tarifas.
Apesar das preocupações dos democratas de que Trump pudesse tentar contestar os resultados eleitorais, como ocorreu em 2020, o presidente aceitou o resultado e parabenizou os democratas em entrevistas.
Das investigações ao impeachment
As expressivas derrotas dos republicanos nas eleições de meio de mandato abrem caminho para investigações e possíveis processos de impeachment que deixariam o presidente republicano na defensiva em seus dois últimos anos no cargo.
A partir de janeiro, espera-se que os democratas usem seu poder para investigar o governo Trump, sua família e seus aliados, além de exigir concessões em projetos legislativos importantes.
Líderes democratas já vinham sinalizando quais seriam seus principais alvos de investigação: as políticas do governo Trump, a conduta de seus integrantes e as relações entre autoridades governamentais e empresas privadas que buscaram influência junto à Casa Branca.
Entre as prioridades estão os negócios da família Trump, a condução das investigações relacionadas a Jeffrey Epstein e alegações mais amplas de corrupção corporativa.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, e o magnata da tecnologia Elon Musk - que foi um dos principais conselheiros de Trump - estão entre os possíveis alvos de investigações.
Processos de impeachment de Trump e de integrantes de seu gabinete de governo também não podem ser descartados.
"Veto forte"
Uma maioria democrata contará com o controle das comissões parlamentares, orçamentos maiores, mais funcionários e o poder de emitir intimações, obrigando o governo a responder ao Congresso.
Em resposta, a Casa Branca poderá retomar a estratégia usada durante o primeiro governo Trump de retardar o fornecimento de documentos e depoimentos solicitados pelo Congresso e invocar o privilégio executivo para restringir o acesso a determinadas informações.
O presidente já indicou que se prepara para grandes disputas legislativas, mas também afirmou que quer trabalhar com os democratas em temas como imigração. Ele ameaçou vetar quaisquer projetos que considere "insanos", dizendo possuir um "veto forte". Na noite de terça-feira, Trump publicou uma foto de seu tradicional boné vermelho com a palavra "VETO".
Mesmo com a chamada "onda azul", os democratas não deverão obter a maioria qualificada de dois terços necessária para derrubar um veto presidencial.
Alívio na pressão de Trump sobre o Brasil?
"Para o Brasil, a mudança mais significativa não seria necessariamente encontrar um Trump mais moderado, mas sim um presidente com menor capacidade política de impor unilateralmente suas decisões", afirma à DW a cientista política Gisele Agnelli, autora de Democracia Made in USA.
Nos últimos dias de campanha, 25 democratas já haviam publicado uma carta pedindo formalmente explicações ao secretário de Estado, Marco Rubio, pela recepção concedida ao senador Flávio Bolsonaro (PL), que fugiu para Miami após perder a eleição presidencial.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, a deputada Pramila Jayapal, uma das signatárias da carta, indicou na semana passada que, com maioria no Congresso, a oposição pretende investigar a atuação de Trump e da Meta no contexto das eleições brasileiras.
Mas a Casa Branca ainda mantém autoridade significativa para conduzir a política externa e implementar tarifas sem a aprovação do Congresso, embora esses poderes tenham sido limitados por decisões da Suprema Corte tomadas no início deste ano.
A vitória dos democratas, portanto, não elimina automaticamente a ameaça do tarifaço contra o Brasil, mas pode criar um ambiente mais favorável para negociações bilaterais, devolvendo ao país "a possibilidade de negociar com diferentes centros de poder dentro dos Estados Unidos", avalia Agnelli.
Apoio à Ucrânia
Quando a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia começou, o presidente democrata Joe Biden ocupava a Casa Branca. Em conjunto com a Europa, os Estados Unidos foram um parceiro confiável de Kiev, oferecendo apoio financeiro, assistência militar e, sobretudo, grandes volumes de armamentos.
Sob Trump, a situação mudou. O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, teve uma recepção extremamente desconfortável durante visita à Casa Branca em 2025, e hoje Trump admite abertamente que se relaciona melhor com o presidente russo, Vladimir Putin, do que com Zelenski.
Os Estados Unidos suspenderam sanções contra a Rússia e reduziram a ajuda financeira e militar à Ucrânia. Os democratas, com a maioria nas duas câmaras do Congresso, poderão colocar o fortalecimento do apoio à Ucrânia no centro da agenda.
"Os democratas criticam Trump por não fazer o suficiente pela Ucrânia", diz Brandon Conradis, ex-jornalista da DW e atualmente editor da Bloomberg Government. "Eles podem defender a ampliação desse apoio."
Guerra com o Irã
Trump iniciou, ao lado de Israel, a guerra contra o Irã em 28 de fevereiro sem consultar o Congresso. Pela Constituição dos Estados Unidos, cabe ao Congresso aprovar uma declaração formal de guerra contra outro país.
Os democratas votaram repetidamente contra a guerra e chegaram a aprovar, junto com alguns republicanos, uma resolução para encerrar as hostilidades. O governo Trump, entretanto, ignorou a medida.
"Não acredito que o Congresso tenha muito poder nessa questão", afirma o analista Michael O'Hanlon, diretor de pesquisa em política externa da Brookings Institution. "Mas talvez possa impedir uma grande escalada ao negar financiamento para isso."
Ajuda ao desenvolvimento
Logo após iniciar seu segundo mandato, Trump promoveu cortes drásticos no financiamento de projetos de ajuda humanitária ao redor do mundo voltados ao combate ao ebola, à aids e à fome. Entre outras medidas, encerrou as atividades da Usaid, agência americana responsável pela assistência internacional ao desenvolvimento.
É questionável se um Congresso com maioria democrata vai conseguir reativar a agência contra a vontade do presidente. Ainda assim, poderia aprovar recursos adicionais para ajuda internacional e investigar o controverso fechamento da Usaid.
"Os democratas também utilizariam sua função de fiscalização para examinar minuciosamente o fechamento da Usaid", diz Conradis. "Haveria audiências, e os responsáveis pelo encerramento da agência seriam convocados a depor perante o Congresso."
Mas, em última análise, os Estados Unidos continuariam sendo um país governado por um presidente republicano. Não haverá uma mudança completa de rumo. "Não é como se tudo mudasse com os democratas no controle do Congresso", afirma Conradis. "Mas algumas coisas certamente mudariam, porque a distribuição de poder passaria a ser muito diferente da anterior."
as/md (DW, AP, Reuters)
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