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Quando a emergência perde a confiança: por que o excesso de alertas por celular enfraquece Defesa Civil

Fenômeno conhecido como fadiga de alertas pode ocorrer quando avisos repetidos e pouco precisos deixam de chamar a atenção dos cidadãos, que perdem a confiança no sistema e ignoram os alertas.

16 out 2026 - 08h28
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Resumo
O avanço tecnológico do sistema Defesa Civil Alerta no Brasil expõe o risco da "fadiga de alertas": o excesso de avisos imprecisos ou pouco práticos faz o público ignorar ou desativar notificações cruciais. Especialistas alertam que o alcance técnico não garante proteção sem a confiança da população. Para evitar a dessensibilização, o sistema precisa ir além do disparo em massa, priorizando mensagens claras, territoriais e com ações executáveis, integradas à prévia preparação das comunidades.

Uma reportagem publicada recentemente no jornal mineiro O Tempo ensinou seus leitores a desativar alertas da Defesa Civil no celular. Mais do que discutir a decisão editorial, o episódio levanta uma pergunta incômoda: por que alguém procuraria deixar de receber uma mensagem criada para proteger sua própria vida?

Uma das respostas possíveis está em um fenômeno conhecido como alert fatigue, ou fadiga de alertas. Ele ocorre quando avisos repetidos — pouco relevantes ou mal calibrados — começam a perder capacidade de chamar atenção e provocar uma resposta. O problema não é alertar. É preservar algo mais difícil do que a cobertura tecnológica: a confiança.

O alerta chegou. Mas produziu ação?

O Brasil avançou na capacidade de disseminar avisos de emergência. O Defesa Civil Alerta⁠ usa a rede de telefonia celular para enviar mensagens diretamente aos aparelhos compatíveis, conectados às redes 4G ou 5G, presentes em determinada área de risco, sem exigir cadastro prévio.

O alcance, porém, não é sinônimo de efetividade. Uma mensagem pode chegar ao aparelho e, ainda assim, não produzir qualquer mudança de comportamento. Um estudo publicado em 2025 ajuda a entender o problema. As pesquisadoras analisaram gestores de emergência e integrantes do público para investigar excesso de alertas, fadiga e decisões de deixar de receber ou ignorar avisos.

Os resultados mostram que frequência e relevância e conteúdo das mensagens estão entre os fatores associados à fadiga. Entre as consequências aparecem dessensibilização, reclamações e a decisão de deixar de receber alertas quando isso é possível.

O risco do "desligamento cognitivo"

A diferença entre receber e reagir é central. Um sistema não deve ser avaliado apenas pela entrega das mensagens, mas pela capacidade de gerar uma decisão de proteção.

O Defesa Civil Alerta opera com dois níveis principais. O alerta severo indica a necessidade de medidas de proteção. O alerta extremo é destinado a situações de risco grave e imediato à vida ou à propriedade.

No nível extremo, o celular emite um som semelhante a uma sirene mesmo no modo silencioso. Essa modalidade vem ativada e não pode ser desabilitada pelo usuário. Isso resolve um problema técnico, mas não outro, mais difícil: não existe configuração capaz de obrigar alguém a confiar no alerta.

Uma pessoa pode não conseguir impedir o celular de tocar, mas pode aprender a ignorá-lo. É uma espécie de "desligamento cognitivo": o aviso chega, é percebido, mas deixa de produzir atenção proporcional ao risco.

Se mensagens graves forem percebidas como frequentes demais, territorialmente imprecisas ou pouco úteis, o custo aparece no próximo aviso. O problema não é apenas o falso alarme. É a memória que ele deixa.

Alertar mais não é necessariamente alertar melhor

Até março de 2026, o Defesa Civil Alerta havia emitido 2.103 avisos desde sua criação, em dezembro de 2024. A expansão mostra a velocidade com que a ferramenta se tornou parte da comunicação de riscos no país.

Esse crescimento precisa ser acompanhado por avaliação de qualidade. Quantos alertas atingiram pessoas realmente expostas? Quantos foram compreendidos? A orientação era executável? Houve mudança de comportamento?

Se uma pessoa recebe sucessivos alertas sem identificar risco em seu entorno, pode concluir que o sistema exagera. Essa percepção pode ser injusta, porque o perigo pode estar próximo, mas fora do campo de visão do usuário. Por isso, a resposta não é simplesmente reduzir o número de mensagens. É melhorar a relação entre ameaça, território, momento e orientação.

"Há risco de chuva intensa" informa. "Evite determinada avenida nas próximas duas horas por risco de inundação" orienta. "Moradores de uma área específica devem se dirigir a um ponto seguro" indica uma ação. Quanto maior a gravidade do alerta, mais clara deve ser a resposta à pergunta: o que eu devo fazer agora?

Um sistema de alerta começa antes do celular tocar

A iniciativa internacional Early Warnings for All⁠ trabalha com quatro componentes essenciais: conhecimento do risco; detecção, monitoramento e previsão; comunicação dos alertas; e preparação para responder.

A lógica é de sistemas centrados nas pessoas. O objetivo não é apenas transmitir uma informação, mas fazer com que ela seja compreensível, confiável e capaz de provocar uma ação antecipada. Isso corrige uma visão excessivamente tecnológica do problema. O celular é apenas a última etapa visível de uma cadeia muito maior.

A própria orientação brasileira exige que os órgãos que utilizam a ferramenta tenham capacitação e plano de contingência com identificação dos riscos locais, rotas de fuga, abrigos, procedimentos e treinamento da população.

Não adianta orientar uma evacuação se ninguém conhece a rota. Não adianta indicar um abrigo que a comunidade desconhece. Uma mensagem de emergência não substitui preparação anterior.

Precisamos medir confiança, não apenas alcance

O Brasil já dispõe de um painel que permite acompanhar quantidade de notificações, nível de gravidade, tipo de desastre, período e local de envio. O próximo passo deveria incluir indicadores sobre a resposta das pessoas.

Seria útil medir compreensão da mensagem, percepção de relevância, confiança no emissor e adoção da ação recomendada. Pesquisas realizadas depois dos eventos também poderiam identificar locais ou grupos onde surgem sinais de fadiga.

Essas avaliações poderiam ser incorporadas à rotina dos órgãos de Defesa Civil, combinando pesquisas com moradores, exercícios simulados e análises posteriores aos eventos. Assim, seria possível identificar mensagens pouco compreendidas, orientações difíceis de executar e situações em que a confiança no sistema começa a se deteriorar.

A reportagem que ensinava a desativar avisos pode, portanto, servir como ponto de partida para uma investigação mais ampla: por quais motivos as pessoas desejariam silenciar uma ferramenta criada para protegê-las? A fadiga de alertas é uma hipótese que merece ser examinada, mas sua ocorrência e dimensão no Brasil ainda precisam ser investigadas.

Sistemas de alerta salvam vidas quando chegam a tempo, são compreendidos e levam à ação. Em 2004, durante o tsunami no Oceano Índico, uma menina britânica de apenas 10 anos ajudou a salvar mais de 100 pessoas em uma praia da Tailândia. Tilly Smith havia aprendido, poucas semanas antes, a reconhecer os sinais de um tsunami em uma aula de Geografia. Ao perceber as alterações no mar, alertou sua família, que contribuiu para a retirada das pessoas. Não foi uma mensagem no celular que desencadeou a reação, mas o conhecimento sobre o perigo e sobre como agir.

A tecnologia brasileira tornou muito mais fácil fazer milhões de celulares tocarem. O desafio agora é mais humano: garantir que, quando o alerta chegar, as pessoas ainda parem, prestem atenção, confiem na mensagem e saibam o que fazer.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Jordan Henrique de Souza não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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