Projetar a natureza: a arquitetura de paisagem na criação dos primeiros parques nacionais nos EUA e no Brasil
Proteger a natureza também pode significar incorporá-la ao planejamento das cidades e dos espaços onde vivemos, o que já é feito desde o século 19
A criação dos primeiros parques nacionais nos EUA e no Brasil esteve ligada à identidade nacional e à necessidade de conter o avanço urbano sobre o meio ambiente. Dois pioneiros da arquitetura de paisagem foram fundamentais nesse processo: Frederick Law Olmsted, idealizador do conceito em Yosemite e criador do Central Park, e Ângelo Alberto Murgel, autor dos planos de Itatiaia e Iguaçu. Ambos integraram a natureza ao planejamento espacial por meio de vias sinuosas e respeito ao relevo natural.
As discussões atuais sobre cidades sustentáveis, soluções baseadas na natureza e biomimética não são recentes, ainda que hoje elas se dêem diante de novos desafios ambientais. A experiência de dois pioneiros em arquitetura de paisagem, aqui no Brasil e nos Estados Unidos, nos mostra que proteger a natureza também pode significar incorporá-la ao planejamento dos espaços onde vivemos.
Parques nacionais
O primeiro país a formalmente criar parques nacionais foram os Estados Unidos da América (EUA). Nos EUA, eles surgiram no final do século 19, enquanto no Brasil, isso ocorreu na primeira metade do século 20. Em ambos os casos, essas áreas protegidas estavam ligadas inicialmente a uma ideia de identidade nacional.
Nos EUA a identidade nacional se aliou com a ideia de preservação da wilderness, uma natureza intocada, mesmo enquanto ocorria a expansão urbana. No Brasil, um grupo de intelectuais e defensores da natureza de meados dos anos 1920 conseguiu convencer o governo getulista de que parques nacionais poderiam se aliar ao ideal de identidade nacional.
Esse ideal, assim como o estadunidense, buscava intensificar a modernização do país e a marcha para o Oeste, mas foi justamente o avanço sobre a natureza que gerou a necessidade da criação de parques nacionais.
Para viabilizar os parques nacionais, concebidos como espaços que articulam pesquisa, turismo e proteção da natureza, a arquitetura da paisagem foi fundamental. Em sua essência, ela busca compreender o dinamismo da paisagem, seja por meio de intervenções físicas intencionais, das transformações ao longo do tempo e das estações, ou ainda da interpretação do significado do que é observado.
Pioneiros da arquitetura de paisagem
Mesmo antes da formalização da arquitetura de paisagens como profissão, os trabalhos com a paisagem ajudaram na proposta de planos de parques nacionais. No caso estadunidense e brasileiro, duas figuras se destacam no ofício, respectivamente: o arquiteto de paisagens Frederick Law Olmsted (1822-1903) e o arquiteto Ângelo Alberto Murgel (1907-1978). Eles viveram em países e épocas diferentes, mas compartilharam características semelhantes em suas trajetórias profissionais.
Olmsted nasceu em Hartford, Connecticut (EUA), e passou uma infância sempre rodeado de natureza. Ele não obteve formação superior regular. Os seus aprendizados vieram da observação e de suas trocas de cartas com o horticultor Andrew Jackson Downing (1815-1852), um dos precursores da arquitetura de paisagens nos EUA.
Olmsted ficou conhecido por criar, com o arquiteto Calvert Vaux (1824-1895), o Central Park (1857), em Nova Iorque. Ele também ajudou na recuperação das Cataratas do Niágara (1865), em Nova Iorque (EUA) e Ontário (Canadá); criou o primeiro sistema de vias interligadas a parques urbanos em Buffalo (1868), Nova Iorque; e realizou diversos outros trabalhos.
Murgel nasceu em Belo Horizonte (MG), se mudou para o Rio de Janeiro (RJ) para estudar arquitetura e, como Olmsted, foi um observador da natureza. Essa observação resultou em sua arquitetura rural, estilo neocolonial com uso de materiais locais, aplicado nos primeiros parques nacionais brasileiros: Itatiaia (1937), Serra dos Órgãos (1939) e Iguaçu (1939).
Murgel estudou arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro (ENBA) e, após sua formação, passou a participar de concursos de projetos urbanísticos com propostas de cidades-jardim. Essas cidades foram registradas no livro "Garden Cities of To-Morrow" (1898), do pré-urbanista inglês Ebenezer Howard (1850-1928). Sua proposta era integrar os benefícios da vida urbana e da vida rural.
Parques urbanos e urbanismo
Olmsted e Murgel trabalharam com parques urbanos e urbanismo antes de iniciarem seus projetos em parques nacionais. Olmsted desenvolveu e aplicou o conceito das parkways, avenidas sinuosas, para obrigar que os condutores dos carros reduzissem a velocidade ao fazer as curvas e apreciar a paisagem. Isso pode ser visto em Riverside (1869), região próxima a Chicago. O conceito também foi aplicado com o mesmo propósito a caminhos para pedestres.
Murgel aplicou as parkways em seus projetos de cidades-jardim, como no concurso para a Cidade Operária de Monlevade, em Minas Gerais. A proposta era similar à de Olmsted. O uso da sinuosidade foi aplicado por Murgel também nos parques nacionais, conectado com a contemplação e o respeito ao relevo natural.
A partir da experiência em parques urbanos e em urbanismo, Olmsted e Murgel trabalharam nas propostas dos primeiros parques nacionais estadunidenses e brasileiros. Em 1865, Olmsted escreveu um relatório com proposta de criação do Parque Nacional de Yosemite, o que ocorreu apenas em 1890.
Murgel, a pedido do Ministério da Agricultura, elaborou planos para os três primeiros parques nacionais brasileiros, todos seguindo a estética da sua arquitetura rural. Ambos trabalharam a relação humanos e natureza por meio da arquitetura de paisagem, profissão ainda não estabelecida na época.
Os trabalhos de Olmsted e Murgel, tanto no meio urbano quanto nos parques nacionais, mostram que a integração entre natureza e espaços construídos não é uma preocupação recente.
Juliana da Costa Gomes de Souza recebe financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
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