Por que os ataques de ursos aumentam rapidamente no Japão
Especialistas dizem que os animais estão menos receosos dos humanos à medida que o número de caçadores diminui, o que os leva para além de seus habitats tradicionais em busca de alimento.Jeff Kingston atribui sua sobrevivência a seus cães, após ser atacado por um urso em uma trilha nas montanhas do centro do Japão. As cicatrizes deixadas pelas garras do animal permanecerão para sempre em sua testa, braços e ombros.
Como muitos moradores de áreas rurais do Japão, ele acredita que a tendência de aumento dos encontros entre humanos e ursos nos últimos anos continuará, talvez com consequências fatais.
"Já encontrei ursos cerca de 100 vezes nas montanhas e fui atacado umas 15 vezes", disse Kingston, um acadêmico americano que gosta de escapar de Tóquio nos finais de semana para sua cabana na zona rural da província de Gunma. "Acho que eles estão mudando. Parecem mais ariscos e famintos do que antes."
O incidente que deixou Kingston com cicatrizes ocorreu em 2014, quando ele foi confrontado por um urso que o derrubou na vegetação rasteira. O urso continuou o ataque até que os cães de Kingston intervieram e finalmente o afugentaram. Com o sangue ainda escorrendo pelo rosto, ele conseguiu chegar a um hospital próximo e receber nove pontos.
No ano seguinte, ele estava mais bem preparado e conseguiu afastar outro urso com spray repelente, mas somente depois de o animal chegar a menos de um metro de distância.
"Desde então, tenho sido um caminhante menos entusiasmado nos meses de verão, do final de junho até o início de setembro", disse Kingston à DW.
Encontros entre ursos e humanos aumentam
O relatório ambiental do governo japonês para 2026, divulgado na semana passada, declara que os ursos se tornaram "uma séria ameaça à segurança pública e à paz".
Segundo o documento, houve mais de 50 mil avistamentos no ano fiscal encerrado em 31 de março, com um recorde de 238 pessoas feridas em confrontos e 13 mortas. Parece que esse recorde já será superado este ano, com 25 feridos em ataques desde 1º de abril e quatro mortes confirmadas.
Não é apenas nas regiões mais remotas do Japão que as pessoas estão se deparando com ursos. Um animal de grande porte foi flagrado por câmeras de segurança correndo por uma galeria comercial no centro da cidade de Utsunomiya, no norte do país, numa madrugada no início de junho.
Uma semana antes, um ataque de um urso-negro feriu quatro pessoas em Fukushima, no nordeste do Japão, segundo autoridades e relatos da imprensa.
Em maio, um excursionista russo ficou gravemente ferido enquanto caminhava por uma trilha no distrito de Okutama, na zona oeste de Tóquio.
"Há uma combinação de fatores por trás do aumento dos confrontos entre ursos e pessoas, mas ninguém nos níveis nacional ou estadual parece ser capaz de elaborar um plano eficaz para lidar com o problema", disse Kevin Short, naturalista e ex-professor de antropologia cultural da Universidade de Ciências da Informação de Tóquio.
"Um dos maiores fatores que contribuem para isso, acredito, é a perda dos habitats tradicionais de alimentação dos ursos", afirmou.
"Se os ursos não conseguirem acesso a faia ou bolotas [frutos produzidos por árvores] em quantidade suficiente, eles vão expandir seu território para as terras agrícolas e arrozais mais próximos de vilas e cidades", acrescentou Short. "Eles estão encontrando macieiras e caquizeiros que adoram, além do lixo que lhes fornece refeições fáceis."
Menos caçadores, mais encontros com ursos
Outro fator citado por Short é o declínio no número de caçadores em comunidades rurais, o que encorajou os ursos a vagarem pelos subúrbios com mais liberdade.
Ele afirma que pesquisas realizadas com ursos eutanasiados mostram que os animais se tornaram menos temerosos dos humanos, seus níveis de estresse são menores hoje em dia e eles estão mais dispostos a entrar em áreas densamente povoadas.
"Estamos encontrando uma nova geração que cresceu perto de vilarejos ou áreas suburbanas, mas cujas mães ainda eram um tanto relutantes em se aproximar de habitações humanas", disse Short. "Mas esse medo desapareceu com esses animais."
Outro fator que contribui para isso, segundo o naturalista, são os efeitos do aquecimento global sobre as nozes e frutas silvestres que os ursos consomem nos meses que antecedem a hibernação. Em um ano ruim, os ursos precisam procurar alimento por muito mais tempo e se tornam mais agressivos, pois tentam acumular reservas para sobreviver ao inverno.
Da mesma forma, um inverno relativamente quente e uma primavera precoce em todo o Japão fizeram com que os ursos emergissem mais cedo do que o normal e começassem a repor o peso perdido, o que os levou a explorar as áreas suburbanas.
O documento oficial do governo pediu que mais pessoas em regiões rurais adotassem a caça como passatempo, como uma solução parcial, enquanto outros recorrem à tecnologia.
Uma empresa de Hokkaido desenvolveu o Monster Wolf, um espantalho animatrônico gigante com cabelos longos e desgrenhados e olhos que brilham em vermelho quando percebe algo se aproximando. A empresa, Ohta Seiki, afirma ter recebido 50 encomendas desde 1º de abril, mais do que costuma vender em um ano inteiro.
IA rastreia aumento do risco de encontros
Yusuke Fukazawa, professor associado de aprendizado de máquina aplicado na Universidade Sophia, em Tóquio, desenvolveu um sistema que usa inteligência artificial (IA) para estimar a probabilidade de encontrar um urso em uma área de um quilômetro quadrado.
O aplicativo aplica uma série de dados, incluindo múltiplos fatores ambientais e históricos, para determinar a probabilidade de uma pessoa encontrar um urso em diferentes partes do Japão. Fukazawa aumentou a taxa de precisão da IA para até 70%, mas almeja ainda mais.
Corredor e caminhante assíduo, Fukazawa disse que foi motivado pelo aumento acentuado no número de avistamentos de ursos nos últimos anos, citando cerca de 800 encontros na província de Akita, no norte do Japão, em 2022, e mais de 3.910 incidentes no ano seguinte.
"No ano passado, houve um número muito alto de encontros, o que me permitiu aprimorar a precisão das minhas previsões", disse. Um fator chave é a disponibilidade de bolotas e nozes, segundo Fukazawa, com um ano de fartura normalmente seguido por uma safra ruim no ano seguinte e, consequentemente, maiores confrontos entre humanos e ursos.
"Alguns cientistas dizem que os ursos não têm mais medo de humanos", observou. "No passado, uma mãe mantinha seus filhotes longe das pessoas, mas se eles estão com fome, a prioridade sempre será a comida. E eles estão cada vez mais dispostos a correr o risco de entrar em contato com humanos."
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