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Por que o Irã não vê motivos para negociar a paz

21 mar 2026 - 17h40
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Apesar da pressão militar, regime iraniano permanece em rota de colisão. Especialistas veem poucas chances de solução diplomática neste momento. Desconfiança é muito grande, e o incentivo para Teerã ceder, fraco demais.Fumaça negra sobre o Golfo Pérsico. Em vários países da região, instalações de energia, infraestrutura civil e instalações militares estão sob ataque. Ao mesmo tempo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declara que o Irã está militarmente derrotado. A realidade no terreno, porém, mostra outra coisa.

Também politicamente cresce a pressão sobre Washington. A alta nos preços da energia impulsiona a inflação e aumenta a insegurança em todo o mundo - inclusive nos próprios EUA. Ainda assim, o governo americano continua apostando na pressão militar. Conversas com Teerã não estão previstas no momento. E mesmo que Washington estivesse disposto a negociar, dificilmente haveria interesse no Irã.

"Nos próximos dias, o Irã não demonstrará oficialmente qualquer interesse em negociações", afirma Stefan Lukas, especialista em Oriente Médio e diretor do think tank Middle East Minds, com sede em Berlim.

O dano que os EUA teriam causado, da perspectiva de Teerã, seria grande demais. Além disso, a liderança iraniana já experimentou ataques mesmo durante negociações em andamento. Há três semanas, EUA e Israel começaram a atacar alvos no Irã enquanto as conversas ainda aconteciam. Mesmo assim, Lukas não descarta contatos nos bastidores, por exemplo por meio de Omã ou canais iraquianos. "Mas mudanças significativas no nível diplomático não acontecerão por enquanto", diz Lukas.

Marcus Schneider, diretor do projeto regional para paz e segurança no Oriente Médio da Fundação Friedrich Ebert em Beirute, também vê poucas chances de diálogo neste momento. "Estou bastante cético agora", afirma Schneider. Com o assassinato direcionado de figuras centrais, interlocutores importantes foram eliminados, ressalta o especialista, acrescentando que, além disso, os possíveis sucessores também estariam sendo ameaçados. "Os que assumem tendem a ser bem mais intransigentes."

Resiliência subestimada do regime

Do ponto de vista iraniano, está claro que justamente aqueles que tentam negociar são os mais ameaçados. "Essa estratégia de ataques de decapitação agora cobra seu preço", afirma Schneider. Ele avalia que a suposição de que se poderia provocar uma rápida mudança de regime eliminando lideranças-chave revelou-se equivocada.

"Para o regime iraniano, apenas sobreviver a um conflito armado com os EUA já constitui uma vitória", diz uma análise do think tank americano Middle East Institute. Essa avaliação coincide com a impressão de que Teerã, no momento, busca menos avanços militares e mais efeitos políticos e estratégicos.

Lukas aponta ainda para a estabilidade estrutural do sistema iraniano. "O regime sempre foi uma caixa‑preta", diz ele, ressaltando que agora ficou claro que sua resiliência foi subestimada. Apesar dos ataques, o governo parece, segundo o analista, mais sólido do que enfraquecido. "Ao mesmo tempo, ganhou legitimidade internacional e vem obtendo sucesso com sua estratégia de exercer pressão econômica sobre os mercados de energia."

Escalada econômica

Schneider também destaca que Teerã se vê atualmente em uma posição estratégica relativamente favorável. O bloqueio do Estreito de Ormuz e os ataques a infraestruturas energéticas na região afetam diretamente os mercados globais. "Por que o Irã pararia agora?", pergunta. "Guerras não se decidem apenas militarmente, mas também politicamente. Teerã aparentemente aposta em ter maior capacidade de resistência que seu adversário."

"O Irã talvez não possa vencer militarmente, mas pode escalar o conflito economicamente", afirma uma análise da agência de notícias Reuters. Isso desloca pelo menos parte do equilíbrio de poder para um campo onde a superioridade militar tem menos peso.

Lukas vê nesse ponto um elemento-chave. Ele afirma que ataques à infraestrutura de energia e as restrições às rotas marítimas eram previsíveis. Mas Washington aparentemente subestimou seus impactos. "Aqui está um dos maiores erros do governo dos EUA", diz ele. "Isso dá ao Irã uma posição relativamente forte - apesar das tensões internas e da ameaça contínua representada pelos EUA e Israel."

"Sobre o que se deveria conversar?"

"Sobre o que se deveria conversar?", questiona Schneider, frisando que os EUA declararam que seu objetivo é uma mudança de regime e a eliminação completa de programas militares centrais do Irã. Ao mesmo tempo, o governo americano já retrata a guerra como vencida. "O que ainda poderia servir como moeda de negociação?", pergunta o especialista.

Embora os EUA estejam militarmente em vantagem, como analisa o Washington Institute, "correm o risco de fracassar estrategicamente sem apoio interno e sem abandonar objetivos maximalistas". Isso reforçaria a ideia de que pressão militar por si só dificilmente será suficiente para forçar uma solução diplomática.

Lukas também considera impossível um novo acordo no momento. Enquanto Washington e Jerusalém deixarem claro que buscam uma mudança de regime, até concessões limitadas terão pouco efeito. "Pequenos passos, como alívio de sanções, não mudariam nada", afirma.

Há ainda um dilema estratégico para os EUA. Segundo Schneider, Washington subestimou os custos futuros da guerra. O aumento dos preços da energia, a possível ampliação do conflito e o risco de envolvimento militar prolongado podem limitar severamente sua capacidade de ação. "A guerra rápida e barata que se esperava não aconteceu."

Dois cenários

Lukas vê dois cenários possíveis: uma escalada maior com ampliação regional, ou uma retirada abrupta, em que Washington declara "vitória" e segue para outros temas. Ambas as opções são politicamente arriscadas, especialmente considerando os aliados dos EUA na região.

Apesar disso, ambos os especialistas consideram improvável que ocorram negociações no curto prazo. A desconfiança é grande demais, as possíveis concessões são incertas e os objetivos estratégicos divergem profundamente. Enquanto nada disso mudar, a guerra provavelmente continuará sendo decidida no campo de batalha - e não na mesa de negociações.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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