Por que é tão difícil trocar o petróleo por energia limpa
Guerra no Irã evidenciou a dependência econômica de combustíveis fósseis, mas mudança para matrizes renováveis ainda enfrenta resistência dos principais países produtores.O choque sobre os preços de energia causado pela guerra no Irã está trazendo de volta à pauta a necessidade de uma transição global para matrizes renováveis. O fechamento do Estreito de Ormuz, rota essencial para o transporte internacional de petróleo e gás natural, assim como ataques a importantes infraestruturas no Golfo Pérsico, causou um colapso sem precedentes.
A magnitude desses desdobramentos levou o presidente da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, a dizer que, além de inédito, o contexto atual é "mais grave" que as crises do petróleo de 1973 e 1979 e a de 2022, no início da guerra na Ucrânia - "todas juntas".
O alarme já havia soado bem antes da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, mas foi solenemente ignorado, apesar dos apelos da comunidade científica para uma redução nas emissões de gás carbônico como forma de limitar o aquecimento global.
Agora, com a economia internacional descendo a ladeira devido ao conflito no Oriente Médio, representantes de mais de 50 países se preparam para a primeira conferência mundial sobre energias renováveis, na tentativa de colocar em prática a transição energética que fracassou nas últimas edições da Conferência do Clima do ONU, a COP.
O evento, que será realizado em Santa Marta, na Colômbia, nos dias 28 e 29 de abril, já havia sido agendado mesmo antes do conflito no Oriente Médio, mas agora assumiu uma "grande relevância", disse Irene Vélez-Torres, ministra colombiana do Meio Ambiente, cujo país organizará o encontro em parceria com a Holanda.
Ministros de nações com grande participação na produção de combustíveis fósseis e carvão, como Brasil, Austrália, Canadá, Noruega, México e Turquia, já confirmaram presença na Conferência de Santa Marta, junto de Alemanha, França e Reino Unido. No entanto, Estados Unidos, China, Arábia Saudita e Rússia, principais produtores de carvão, petróleo e gás natural, não vão participar.
Desinteresse crônico
Essas ausências significativas apontam para um problema crônico nos esforços da transição energética para energia limpa: a falta de interesse dos principais atores de abrirem mão dos combustíveis fósseis.
"O setor de petróleo e gás natural é o grupo de lobby mais poderoso do planeta", descreveu Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima, em entrevista à agência France-Presse (AFP). "Há 30 anos, eles vêm ganhando tempo para adiar essas mudanças", acrescentou ele.
De acordo com um levantamento do banco de dados OpenSecrets, a partir de relatórios do Senado americano, o lobby do setor de energia e recursos naturais, que conta com 2,2 mil lobistas no Congresso dos Estados Unidos, gastou 240 milhões dólares só no primeiro semestre do ano passado - à frente de setores como transporte, defesa e trabalhistas.
O investimento está surtindo efeito durante a administração de Donald Trump, que não só apoia abertamente a exploração de combustíveis fósseis como assume uma posição negacionista em relação ao aquecimento global. Além disso, só em 2026 o atual presidente já encampou duas ofensivas militares contra Venezuela e Irã, dois dos maiores produtores de petróleo.
Internamente, o republicano aprovou, neste segundo mandato, uma série de medidas priorizando o setor de petróleo e gás e deixando energias renováveis em segundo plano. Uma delas é o "One Big Beautiful Bill Act", uma ampla reforma nos impostos que aumentou a venda de concessões para perfuração e colocou à disposição terras federais para a mineração.
No início do mês, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, também minimizou os impactos das emissões de gás carbônico, alegando que o aquecimento global é causado por "ciclos" - fazendo coro com Trump, que já chamou o aumento das temperaturas terrestres de "fraude".
A previsão dos cientistas é que, até a próxima década, o planeta atinja um aumento da temperatura média de 1,5 ºC em relação aos níveis pré-industriais, o que levará a derretimento de geleiras, mais tempestades e ondas de calor e um maior risco de incêndios.
Economia dependente
Exportadora de carvão e petróleo, a Colômbia diz que a Conferência de Santa Marta receberá países que representam um quinto da produção global de combustíveis fósseis e quase um terço do consumo.
Críticos questionam a eficácia desse modelo, já que os produtores de combustíveis fósseis são acusados de influenciar negociações da ONU sobre mudanças climáticas. A COP30, realizada em Belém no ano passado, terminou sem um compromisso oficial para o fim das matrizes poluentes.
"Quanto maior o grupo de países, mais difusos são os interesses e menor a chance de se obter um resultado concreto", disse à AFP o cientista climático Bill Hare, fundador do think tank Climate Analytics.
Vélez-Torres, ministra do Meio Ambiente da Colômbia, no entanto, classificou como um "grande passo à frente" ter os países produtores presentes para enfrentar esse "tabu".
Além da boa vontade e do interesse em comum, a transição energética exigirá investimentos financeiros para diminuir a dependência mundial do petróleo.
Essa correlação tem ficado evidente na queda das bolsas de valores pelo mundo e no choque de preços com o aumento do custo do barril de petróleo bruto e de gás natural durante o conflito no Irã.
Segundo especialistas, a economia mundial ainda mantém laços profundos com ativos ligados a hidrocarbonetos - como de Kuwait, Catar e Arábia Saudita, que são grandes investidores nas bolsas americanas.
"Não podemos fazer a transição fechando as empresas de combustíveis fósseis da noite para o dia, porque isso seria um desastre econômico mundial sem precedentes", disse Claudio Angelo, do Observatório do Clima do Brasil, à AFP.
De acordo com ele, até mesmo o Brasil, que possui um modelo econômico mais diversificado, sofreria um grande baque econômico com a eliminação das exportações de petróleo bruto.
Nem tudo está perdido
Apesar das dificuldades para a transição energética, alguns passos têm sido dados nessa direção. Fontes renováveis representaram quase metade da matriz global em 2025, um recorde, de acordo com a Agência Internacional de Energia Renovável. Ironicamente ou não, os combustíveis fósseis também atingiram, no ano passado, a maior emissão anual da história até então.
Mas o caminho da energia limpa já está sendo testado em alguns mercados. A China, maior produtora mundial de gases de efeito estufa, se tornou a líder global na produção de renováveis, aumentando substancialmente suas capacidades de energia eólica e solar no último ano.
No Paquistão, a energia solar passou de uma fonte marginal de energia em 2020 para uma das principais fontes de eletricidade. Estados Unidos e Austrália, por sua vez, registraram redução de conta de luz em algumas regiões devido ao uso da matriz limpa.
A Alemanha tem, atualmente, 63% da eletricidade do país oriunda de energias renováveis - em 2010, esse índice era de apenas 19%. Porém, na União Europeia (UE) como um todo, esse percentual ainda não ultrapassou 25% do total, distante da meta de 42,5% para 2030.
Na Alemanha para uma visita à Feira de Hannover, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva questionou, nesse domingo (19/04), as barreiras do acordo comercial entre o Mercosul e a UE para venda de biocombustível brasileiro à Europa.
"O Brasil pode ajudar a União Europeia a diminuir o custo de energia e descarbonizar as coisas", disse Lula. A importação de etanol é restrita na União Europeia devido a restrições ambientais.
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