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Por que as pesquisas subestimaram Flávio Bolsonaro

5 out 2026 - 18h02
(atualizado às 18h17)
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Resumo
Especialistas apontam que a divergência entre as pesquisas e a liderança de Flávio Bolsonaro nas urnas decorre de uma mobilização intensa da direita na reta final, impulsionada por redes sociais e igrejas. Além da decisão tardia do eleitor, influenciaram o resultado a migração por voto útil, a omissão da preferência real aos entrevistadores e limitações metodológicas em áreas de risco. A insatisfação com a segurança e com a perda do poder de compra também favoreceu o candidato conservador.

Decisão tardia, voto útil e força das redes bolsonaristas estão entre as hipóteses de especialistas para explicar a diferença entre as pesquisas e o resultado das urnas.O fechamento das urnas no primeiro turno das eleições para presidente, no domingo (04/10) reforçou uma percepção que ocorre pelo menos há três pleitos no Brasil. Desde 2018, a maioria das pesquisas divulgadas na véspera indicam menos votos bolsonaristas do que a contagem oficial. Desta vez, os principais institutos de sondagem divulgaram uma vantagem de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL), mas as urnas colocaram o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro à frente do atual presidente da República, com 47,03% contra 45,16% dos votos válidos.

Flávio Bolsonaro (PL), que aparecia em segundo na maioria das pesquisas na véspera, terminou na liderança do primeiro turno neste domingo (04/10)
Flávio Bolsonaro (PL), que aparecia em segundo na maioria das pesquisas na véspera, terminou na liderança do primeiro turno neste domingo (04/10)
Foto: DW / Deutsche Welle

De acordo com especialistas ouvidos pela DW, essa diferença é explicada por uma combinação de fatores, como a decisão cada vez mais tardia do voto, a mobilização do eleitorado bolsonarista e a migração de eleitores de candidaturas menos competitivas. Também há limitações próprias das sondagens e a possibilidade de eleitores não revelarem sua verdadeira preferência.

Para o cientista político Paulo Henrique Cassimiro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), os levantamentos eleitorais ganharam protagonismo no debate público. Com isso, pequenas variações nos números passam a ser frequentemente interpretadas à luz de eventos políticos, como o cancelamento de debates ou a crise no STF.

"Passa-se a semana discutindo que um candidato subiu um ponto e o outro caiu dois, por exemplo. São pequenas variações que não querem dizer nada estatisticamente", diz Cassimiro. "Mas o que as pesquisas mostraram estatisticamente foi o empate técnico com a subida do Flávio na reta final", acrescenta ele.

Decisão de última hora

A principal hipótese de Cassimiro para entender o resultado está na capacidade da direita de mobilizar eleitores nos últimos dias antes da votação. "O eleitor está se decidindo na última semana", afirma.

Para ele, muitos brasileiros acompanham pouco a campanha e só perto da eleição procuram saber quais são os candidatos. É nesse momento que entram em cena redes de informação e espaços de convivência como igrejas, família e grupos nas redes sociais - principalmente em cidades menores e distantes de grandes centros urbanos.

É nesses ambientes que o bolsonarismo, afirma Cassimiro, conseguiu construir uma presença particularmente forte. "Essa máquina funciona na semana antes da eleição." Isso representaria um desafio para pesquisas realizadas dias antes da abertura das urnas. Segundo o cientista político, os levantamentos conseguem captar tendências, mas têm mais dificuldade diante de uma mudança rápida e disseminada entre diferentes grupos do eleitorado.

Para o professor da Uerj, o fenômeno ajuda a explicar por que Flávio Bolsonaro conseguiu cerca de 5 milhões de votos a mais em 2026 do que o pai havia obtido quatro anos antes. "Essas bolhas informacionais estão ficando mais fortes, não mais fracas", diz. "Isso não chega nas pesquisas porque estamos subdimensionando a capacidade dessa informação de curtíssimo tiro, dias antes da eleição, de produzir efeito político."

Voto envergonhado e voto útil

Matheus Dias, do instituto Opus, aponta outro componente: o chamado "voto envergonhado", quando o eleitor não revela sua verdadeira preferência ao entrevistador.

"Esse fenômeno a gente observa em diversas eleições ao redor do mundo. Sistematicamente, os eleitores não revelam a real preferência, principalmente com candidatos à direita. As pesquisas só podem computar o que foi dito pelos eleitores", explica o economista e especialista em diagnóstico eleitoral.

Dias acredita que houve também uma concentração de votos em Flávio Bolsonaro na reta final. Eleitores de direita e centro-direita teriam abandonado candidaturas menos competitivas ao concluir que Flávio era quem tinha mais chances de representar esse campo no segundo turno. Para ele, a insatisfação de parcela do eleitorado com o Judiciário, somada a questões econômicas e a outros temas da campanha, contribuiu para esse voto útil.

"No momento, o eleitor avaliou que o Flávio [tinha mais chances de ganhar]", afirma, acrescentando que o desempenho positivo na macroeconomia durante o mandato de Lula não necessariamente "chega na mesa" do eleitor.

"O país está no pleno emprego, mas com vagas muitas vezes ruins e remuneração incompatível com custo de vida e aspirações. Somos bombardeados pelas redes sociais com viagens, itens de luxo e o eleitor se pergunta como 'todos têm acesso?', se ele trabalha 44 horas por dia. É um sentimento de que a vida não está avançando igual acontecia antigamente", aponta Dias.

Difícil acesso

Há ainda dificuldades práticas. O fundador da Opus cita o Rio de Janeiro, onde pesquisadores podem encontrar obstáculos para entrar em comunidades e regiões controladas por facções criminosas ou milícias.

Na disputa para o governo do RJ, as pesquisas mostravam Eduardo Paes (PSD) à frente de Douglas Ruas (PL) até a véspera da eleição. As urnas, no entanto, deram Ruas com 49,27%, resultado que pode ainda significar a vitória em primeiro turno do candidato do partido de Flávio caso os votos para Anthony Garotinho (Republicanos), cuja candidatura está sob Júdice, sejam anulados pela Justiça eleitoral.

Segundo Mateus Dias, uma eventual dificuldade de representar esses locais ainda pode ter efeito político, porque são áreas fortemente expostas ao problema da violência.

"Têm uma demanda muito maior por segurança pública do que locais que não enfrentam os mesmos problemas", complementa.

Em pesquisas e grupos focais realizados pela Opus para tracking interno de campanhas, por exemplo, segurança surge como um dos principais temas - e no qual a direita tem mais conseguido mobilizar eleitores.

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