Por que a pauta ambiental avança com dificuldade nas igrejas evangélicas no Brasil
A relação entre religião e meio ambiente não se dá apenas através da crença. Instituições e disputas políticas também moldam a forma como grupos religiosos respondem à crise climática
Nas últimas décadas, acumulamos muitos dados científicos, projeções e propostas técnicas de combate ao aquecimento global. Ainda assim, esse conhecimento não tem sido suficiente para produzir a transformação social necessária para evitar cenários mais graves de degradação ambiental. E seus efeitos já recaem de forma desigual sobre as populações mais vulneráveis.
A conscientização científica é fundamental, mas o engajamento coletivo também depende de valores morais, identidades e visões de mundo. Afinal, a maneira como entendemos e interagimos com a natureza é socialmente construída. Nesse ponto, as religiões podem exercer um papel importante.
É sobre esse tema que venho desenvolvendo minhas pesquisas. Atualmente, meu projeto está vinculado ao Observatório Interdisciplinar das Mudanças Climáticas, com apoio da FAPERJ. Nele, busco articular a sociologia da religião, a sociologia ambiental e a literatura sobre movimentos sociais para entender como crenças religiosas influenciam, positiva ou negativamente, atitudes ecologicamente relevantes.
Esse recorte é particularmente importante no Brasil, onde mais de 90% da população se identifica com alguma religião, sendo 83% cristãos. Nas últimas décadas, o crescimento dos evangélicos tem sido expressivo, e hoje esse grupo já ultrapassa um quarto da população.
Estudos sobre cristianismo e meio ambiente
Religiões têm, em diferentes graus, a capacidade de orientar práticas cotidianas e moldar valores. Algumas tradições veiculam ensinamentos diretos sobre a natureza como sagrada ou digna de reverência. Outras mantêm reservas quanto à sua sacralização, mas vêm incorporando diretrizes ecológicas ou mobilizando redes em torno de campanhas ambientais.
No cristianismo, esse debate tem uma história longa e controversa. Um marco da discussão foi o artigo publicado em 1967 na revista Science, pelo historiador americano Lynn White Jr. Ele argumentava, provocativamente, que a tradição judaico-cristã teria contribuído para a crise ambiental ao difundir uma visão antropocêntrica da natureza.
Ou seja, ao ensinar que Deus criou o mundo para benefício dos seres humanos (únicos feitos à sua imagem e semelhança), o cristianismo teria reforçado uma hierarquia de valores na qual a natureza ocupa lugar secundário.
White reconhecia a existência vertentes alternativas, como as inspiradas por São Francisco de Assis, com uma visão mais fraternal entre humanos, animais e natureza. Para ele, no entanto, tais correntes eram minoritárias, e isso precisaria mudar.
A partir dessas e outras reflexões que ganharam repercussão global, surgiram nas décadas seguintes pesquisas mais robustas sobre religião e meio ambiente. Esses estudos investigam, por exemplo, estratégias de legitimação usadas pelos líderes religiosos para promover interpretações ecológicas da fé. Acompanham o funcionamento de movimentos ambientalistas religiosos. Ou também destrincham as formas pelas quais fiéis combinam crenças e práticas cotidianas para moldar suas atitudes ambientais.
Não há uma só tendência
Os resultados dessas pesquisas indicam que não há uma única forma de o cristianismo se relacionar com as agendas ambiental e climática. Dependendo do contexto (país, cidade ou comunidade), tradições religiosas podem tanto impulsionar quanto resistir às agendas ecológicas.
Estudos de psicologia social e sociologia ambiental mostram, inclusive, que os valores religiosos relacionados ao meio ambiente podem ser "ativados" ou "desativados" pelos indivíduos conforme o seu contexto político, social ou cultural. Assim, crenças semelhantes podem gerar comportamentos ambientais muito distintos.
Há ainda pesquisas indicando que as fontes de informação mobilizadas pelas igrejas exercem maior influência sobre as atitudes ambientais dos fiéis do que a doutrina ou o grau de religiosidade em si. Isso sugere que, para compreender o posicionamento ecológico de grupos religiosos, é preciso observar além do conteúdo dogmático das crenças. É essencial analisar a dinâmica comunitária que torna certas orientações mais ou menos salientes em cada congregação.
É nesse contexto que se inserem minhas pesquisas sobre o engajamento ambiental de cristãos no Brasil. Ainda que a análise de discursos, documentos institucionais e mapeamento de iniciativas de mobilização englobe também os católicos, aqui vou me limitar a comentar o segmento evangélico, procurando indicar por que as pautas ecológicas tendem a gerar mais ruídos nesse universo.
Evangélicos e ambientalistas no Brasil
O tensionamento entre evangélicos e ambientalistas no Brasil vem de longa data. Há mais de trinta anos, o Rio de Janeiro sediou a Eco-92, uma das mais importantes conferências ambientais da história recente. Além de lideranças políticas globais, o evento reuniu representantes de diversas tradições religiosas em encontros e celebrações inter-religiosas.
Já naquele momento, era possível identificar desconfortos entre grupos evangélicos. Parte dessas lideranças expressou desconfiança de que a "onda verde" favorece perspectivas espiritualistas ou panteístas. Ou seja, uma forma de divinização da natureza, em tensão com a distinção cristã entre Criador e criação, podendo levar à idolatria.
Três décadas depois, apesar do crescimento acelerado dos evangélicos, seguem raras as articulações ecológicas organizadas a partir de suas igrejas. Embora pesquisas de opinião não indiquem rejeição prévia a pautas ambientais, o engajamento institucional permanece limitado.
No senso comum, e também em parte do ativismo ambiental, esse distanciamento costuma ser atribuído a barreiras doutrinárias ou incompatibilidades identitárias profundas. Minhas pesquisas sugerem, porém, que essa interpretação precisa ser relativizada.
No que diz respeito ao acervo teológico, não é difícil encontrar discursos e reflexões evangélicas que defendem o "cuidado com a criação divina". Eles reconhecem a responsabilidade humana pela degradação ambiental. Isso ocorre há décadas e entre várias denominações, inclusive entre os neopentecostais. Esse tipo de elaboração simbólica costuma gerar entusiasmo entre fiéis ambientalmente engajados.
Ainda assim, é preciso distinguir entre reconhecimento discursivo e capacidade efetiva de transformação. Declarações públicas e campanhas têm valor simbólico, mas produzem impacto limitado quando não se convertem em prioridades organizacionais concretas. Não basta afirmar que é preciso "Cuidar da criação" se os recursos institucionais permanecem orientados a outras agendas.
No caso das igrejas cristãs, um elemento relevante é sua capacidade de coordenação: mobilizar espaços institucionais, ativar redes locais, pressionar autoridades públicas, articular campanhas e transformar capilaridade social em efeitos concretos.
O fato é que as tentativas de ativar essa capacidade de coordenação têm patinado no universo evangélico. E os motivos para isso parecem ter menos relação com consistência teológica do que com estratégias políticas e institucionais predominantes entre muitas lideranças.
Uma pauta dos aliados
Para entender esse afastamento, é preciso olhar para o modo como muitas igrejas se organizam e se sustentam. Em um ambiente religioso competitivo, marcado pela disputa por fiéis e recursos, lideranças evangélicas frequentemente investem em alianças políticas e econômicas que garantam expansão e estabilidade institucional.
Essas conexões trazem muitos benefícios. Facilitam a regularização de templos, destravam obras, garantem incentivos fiscais e resolvem pendências administrativas. Em suma, ajudam a viabilizar o funcionamento e a expansão das igrejas.
O problema é que muitos aliados pertencem a campos políticos e econômicos que se posicionam de forma crítica ou contrária à agenda ambiental. Setores do agronegócio, por exemplo, frequentemente veem regulações ambientais como entraves. Já grupos políticos de direita tendem a enquadrar essas pautas como "esquerdistas" ou "estatistas".
Esse tipo de tensão não é exclusivo do campo evangélico. Ativistas ecocatólicos também relatam dificuldades semelhantes, especialmente em regiões dependes de atividades como agricultura intensiva, mineração ou exploração madeireira. A diferença é que, no caso católico, há maior investimento institucional na propagação coordenada dessa pauta — mesmo que isso nem sempre se traduza em mobilização proporcional. Além disso, a estrutura institucional católica tende a oferecer maior autonomia financeira e a constranger alianças locais politicamente sensíveis.
No universo evangélico, por outro lado, a maior dependência dessas redes pode influenciar diretamente as prioridades institucionais. Assim, ainda que exista espaço teológico para a afirmação de uma ética ambiental, o custo político de abraçar essa agenda tende a ser percebido como elevado.
No entanto, justamente por ser um fenômeno ligado a interesses e estratégias (e não a dogmas imutáveis), esse cenário pode mudar. Igrejas evangélicas possuem enorme capacidade de mobilização social e podem desempenhar um papel relevante na transformação necessária para enfrentar a crise climática.
O desafio está em tornar a agenda ambiental não apenas moralmente legítima, mas também institucionalmente prioritária. Capaz de disputar recursos, tempo organizacional, canais de comunicação e capacidade de coordenação coletiva.
Além disso, é fundamental que gestores públicos e movimentos ambientalistas compreendam melhor os obstáculos que atravessam diferentes grupos religiosos. Estratégias de diálogo mais sensíveis ao contexto, capazes de construir parcerias e evitar estereótipos, podem abrir caminhos mais promissores. Se a crise climática exige mudanças profundas na forma como vivemos, ela também demanda novas formas de engajamento. Inclusive com grupos que, até aqui, têm permanecido à margem desse debate.
A realização deste artigo contou com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior (Capes).
Renan William dos Santos recebe financiamento da FAPERJ - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro.